domingo, 26 de junho de 2016

Jean Wyllys


A solidão de Jean Wyllys num país homofóbico

Jean Wyllys é o único deputado assumidamente gay num Congresso brasileiro que é considerado o mais conservador de sempre. A sua luta contra a homofobia é diária. Haja cuspo.
Antes de se eleger deputado pelo Rio de Janeiro, Jean Wyllys foi concorrente do Big Brother GABRIELA KOROSSY (CÂMARA DOS DEPUTADOS)


“Amada, já te atendo, ‘tá bom?”

Os minutos de espera são ocupados a pensar que outro deputado da nação (qualquer nação) a) chamaria “amada” a uma desconhecida ; b) e soasse genuíno ao fazê-lo.

O deputado chama-se Jean Wyllys, usa jeans e um casaco de cabedal, o cabelo escuro e encaracolado dá-lhe um certo ar de Jon Snow, o herói de Guerra dos Tronos. Há uns anos o Guardian descreveu-o como “um dos políticos mais pós-modernos”, presumivelmente não só do Brasil mas do mundo. Nos últimos meses, quando o Congresso brasileiro votou a favor do impeachmentda Presidente Dilma Rousseff, o país e o mundo viram com horror do que era feita a classe política em Brasília: ultra-religiosos, caciques rurais, suspeitos de corrupção, gente sem carisma, um palhaço de circo (Tiririca, que foi o deputado mais votado em 2010) e elogiadores da ditadura militar. Foi umshow retrógrado - democrático na aparência, mas não no espírito.

Jean Wyllys não se parece com os seus pares. É o único deputado assumidamente gay num Congresso que é considerado o mais conservador de sempre graças ao crescimento da bancada evangélica. Apesar da sua grande popularidade entre um eleitorado jovem e urbano, parece quase sempre um combatente solitário.

“A minha simples presença num Congresso em que não há outros homossexuais assumidos causa um incómodo em pessoas que colocam os homossexuais numa posição subalterna. Para a mentalidade e o imaginário dessas pessoas, os homossexuais podem, no máximo, ser artistas. Jamais ser uma autoridade da República, jamais ser um representante eleito”, diz o deputado de 42 anos no seu gabinete no Rio de Janeiro, habitado por umstaff jovem e diverso. Eleito pela primeira vez em 2010, Wyllys diz que teve de conquistar o respeito dos outros congressistas porque “as piadas homofóbicas multiplicavam-se pelos corredores”.

“Se eu fosse uma caricatura do homossexual — o estereótipo da bicha louca, risível, afectada -, se eu fosse o cara que usasse um fato colorido, eu não seria um problema. Antes de mim, nós tivemos um homossexual assumido na Câmara dos Deputados, Clodovil Hernandes. Que era um estilista, um cara que ganhou notoriedade porque desenhava vestidos de noivas num programa chamado TV Mulher. Ele estava dentro do que a sociedade da dominação masculina reservou como universo feminino: o espaço privado, das tarefas domésticas, da moda, das artes. Se eu correspondesse a essa caricatura, eu não seria tão combatido. Porque Clodovil não era combatido. Ao contrário, a figura dele é hoje evocada pelos conservadores e pela direita brasileira para comparar com a minha imagem. Homossexual de verdade, para eles, é aquele que, quando expressa publicamente a sua homossexualidade, é para servir ao riso, ao deboche, não para reivindicar a igualdade, não para reivindicar orgulho.” Ao contrário de Jean Wyllys, Clodovil Hernandes nunca incluiu os direitos LGBT (Lésbica, Gay, Bissexual e Transsexual) na sua agenda política. Era contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra paradas de orgulho gay. O seu mandato foi curto: eleito em 2007, morreu dois anos depois, vítima de um AVC.

“Se você convive com homossexuais que estão em salão de beleza ou com homossexuais que são artistas, você tende a achar que homossexuais não querem o lugar da política. Não querem as grandes corporações, não querem ser executivos. Não é verdade, a gente quer, sim”, diz Jean Wyllys.

Reeleito em 2014, com dez vezes mais votos do que na primeira eleição, Wyllys recebeu três vezes o título de melhor deputado do Brasil por votação do público. Em 2015, os leitores da revista The Economist colocaram-no entre as 50 personalidades mundiais que mais contribuem para a diversidade, entre Barack e Michelle Obama, Bill Gates, Angelina Jolie ou a jovem activista paquistanesa Malala Yousufzai. Wyllys representa uma face moderna e cosmopolita do Brasil que o resto do mundo nem sempre tem oportunidade de ver porque o conservadorismo é simplesmente maioritário. Orgulha-se de ser o único dos 513 deputados que tem um conselho social — um grupo da sociedade civil com o qual se reúne de dois em dois meses para prestar contas, debater a sua agenda legislativa e avaliar a sua actuação no Congresso. “Eu faço algo que o seu conterrâneo Boaventura de Sousa Santos, que eu admiro muito, chama de ‘democracia de alta intensidade’”, diz, com um largo sorriso.

Wyllys acredita que, se fosse heterossexual, o seu mandato seria “super louvado, teria mais repercussão”. Ainda assim, a sua presença no Congresso ajudou a mudar as expectativas e os estereótipos dos colegas sobre os homossexuais. “Muitos deputados que tinham homofobia por pura ignorância, não por maldade, ao conviverem comigo, mudaram bastante de opinião.” Inclusive deputados de esquerda, do PT (Partido dos Trabalhadores). “Muitos falam: ‘Meu filho, minha filha te admira. Você está quase roubando votos lá em casa.’ A minha actuação, a maneira como articulo diferentes agendas, levou muitos deputados a entenderem que os homossexuais são muito diversos entre si e a mudar de opinião. Nós temos uma identidade colectiva estigmatizada mas somos tão diversos quanto os heteros.”

Big Brother

De certa forma, também foi assim que Jean Wyllys ganhou a quinta edição doBig Brother Brasil em 2005: num país homofóbico, 50 milhões de espectadores votaram nele. “Quando entrei no programa disse logo que eragay para os outros participantes. Nesse momento o país parou de respirar por cinco segundos porque ninguém na história da televisão brasileira tinha dito ‘eu sou gay’ com essa clareza, com essa tranquilidade e esse orgulho em horário nobre.” Jean conseguiu afirmar-se para além da sua mera orientação sexual, produzir outras identificações junto da audiência. “O facto de eu ser amigo das mulheres; o facto de eu tratar bem a minha mãe; o facto de eu ser baiano, nordestino, de eu falar das religiões de matriz africana… tudo isso foi produzindo diferentes identificações. Então, tinha gente que pensava: ‘É, ele égay, mas ele trata super-bem a mãe dele.’ A dona de casa, que tem filhos, ao ver aquilo, falava: ‘Puxa, esse menino bem que poderia ser meu filho.’ Ao me verem tratar as meninas na casa, como eu era amigo delas, servia de ombro e tal, as mulheres diziam: ‘Pô, esse cara é bacana. Ele é gay mas vou votar nele.’ A comunidade LGBT, claro, se identificou porque era uma representação positiva. Mas tinha outras. Num país homofóbico, eu pude vencer a homofobia graças a esse conjunto de identificações.”

Com o milhão que ganhou no programa, Jean Wyllys comprou uma casa para a mãe e um apartamento em Copacabana. Teve convites de mais de um partido para iniciar uma carreira política. Filiou-se no PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), que tem um perfil ideológico muito semelhante ao Bloco de Esquerda em Portugal e, como este, nasceu da confluência de pequenos partidos ou movimentos. Tem uma bancada minúscula de seis parlamentares.

Muitos brasileiros suspeitaram que, ao candidatar-se a deputado, Wyllys estava a tentar prolongar os seus 15 minutos de fama depois do Big Brother. Hoje não são poucos os que admiram a sua coragem e frontalidade política num Congresso hostil. É autor de projectos de lei em favor da descriminalização do aborto, da legalização do comércio e consumo de canabis, e da legalização da prostituição. Nunca conseguiu aprovar nenhum. “Mas eu tinha a certeza que não aprovaria. Projectos menos polémicos que esses demoram duas, três legislaturas para serem aprovados. Imagina um projecto dessa natureza”, diz. O que o move, então? “Eu sabia que, ao apresentar o projecto de legalização da cannabis, ele não seria aprovado de imediato, mas iria detonar um debate que vai preparar a sociedade para ser aprovado. Desde que eu lancei esse projecto, a Folha de S. Paulo fez um editorial favorável à legalização. Os grupos de activistas pela legalização aumentaram — inclusive, mães de crianças com epilepsia que precisam de cannabidiol, um derivado da maconha [marijuana], criaram um movimento chamado Repense. Quando eu apresentei a Proposta de Emenda Constitucional do casamento civil igualitário, nós não aprovámos lá na Câmara. Mas o debate que provocámos e a campanha que fizemos na sociedade fez com que o Supremo Tribunal Federal garantisse o casamento. Não aprovámos no Congresso, mas foi uma conquista da sociedade através do judicial. A performance de um deputado não é medida só pela quantidade de leis que aprova. Até porque ele aprova uma lei num conjunto de discussões e debates com outros deputados. O meu debate ajudou a aprovar leis importantes e a impedir que leis ruins fossem aprovadas.”

Homofobia que mata

O Brasil, nação do Carnaval, expoente de uma sexualidade libertária, sem limites, é também o país onde os homicídios provocados pela homofobia atingem níveis alarmantes (318 vítimas em 2015) e o mais mortífero do mundo para transsexuais. Uma desigualdade social gritante e os atrasos educacionais do Brasil são terreno fértil para a perpetuação e reforço dos preconceitos. “A homofobia vigora muito mais onde você não tem a chance de desconstruir ela”, diz Jean Wyllys. O Brasil é um país de maioria católica, com uma comunidade evangélica em crescimento — estima-se que 22% da população é evangélica. “Essas religiões fazem um contraponto ao que a educação deveria fazer. Se a educação deveria desconstruir as faltas certezas, a religião reafirma as falsas certezas. E se a gente não tem um estado de direito forte que garanta o acesso das pessoas a uma educação de qualidade e a bens culturais, as religiões triunfam e as falsas certezas permanecem. Talvez por isso o Brasil seja um país em que a homofobia se expressa mais do que noutros países em que as democracias são mais sólidas, em que o Estado é laico.” As igrejas evangélicas têm 92 deputados no Congresso, entre bispos e pastores, uma autêntica frente religiosa que trava avanços sociais e se posiciona como tampão dos direitos civis da comunidade LGBT. 

A conversa com Jean Wyllys decorre numa sexta-feira à tarde, véspera do tiroteio numa discoteca gay em Orlando, na Florida, em que 49 pessoas foram mortas em função da sua orientação sexual. Muitos dos crimes homofóbicos registados no Brasil são extremamente violentos. “Furam os olhos. Arrancam os órgãos sexuais e enfiam na boca. Para o assassino, não basta só aquela vítima. Ele quer incidir sobre a comunidade à qual pertence aquela pessoa. Então não basta matar. Tem que ir além. Tem que profanar o corpo e deixar um recado para toda a comunidade.” A maior parte dos criminosos, diz, não chegam a ser punidos ou recebem penas brandas, por causa de uma “homofobia institucional”. Muitos homossexuais fazem o que Wyllys chama “uma gestão esquizofrénica” das suas vidas: vivem a sua orientação sexual de forma clandestina, sem que as suas famílias saibam. Quando um crime acontece, a polícia vai falar em primeiro lugar com a família. ‘E vai perguntar: ‘O seu filho é gay?’ A família vai dizer que não. Eles até desconfiam que o filho é gay, mas têm vergonha, então vão dizer que não. O policial raramente ouve os amigos e, se ouvir e os amigos apontarem a motivação homofóbica, o delegado vai imediatamente desqualificar e dizer que foi um latrocínio, um roubo seguido de morte. O delegado faz isso porque— é um mecanismo muito subtil de como funciona o preconceito — tem desapreço pela homossexualidade, não gosta de gays, não quer que o filho dele seja gay, acha que homossexual é nojento. Ao negar a motivação homofóbica, ele nega para si mesmo que seria capaz de matar pelo mesmo motivo. Resultado: dá uma linha de investigação para o crime que jamais chega aos assassinos. No Brasil, a maior parte dos crimes homofóbicos não foram concluídos, não chegaram a lado nenhum, os algozes não foram descobertos. E, em muitos outros casos em que foram descobertos, receberam pena branda. Os juízes entenderam quando eles argumentaram que foram atacados pelos gays: ‘Ele tentou transar comigo, por isso eu matei ele.’ A vida humana passa a valer menos do que o suposto assédio que o gay teria feito. Isso é o que chamo de homofobia institucional.”

A cuspidela

Jean Wyllys é um alvo permanente de ofensas e comentários homofóbicos na Internet. Os seus assessores de comunicação passam muito tempo desmentindo rumores difamatórios, como a ideia que Wyllys propôs uma emenda constitucional para limpar a Bíblia de qualquer conteúdo homofóbico ou que pretende tornar o ensino do islamismo obrigatório nas escolas brasileiras. Um dos boatos mais recentes é o de que culpou os cristãos pelo ataque na discoteca gay de Orlando. O facto de serem nonsense não tem sido filtro suficiente para matar esses rumores à nascença.

Jean Wyllys e Jair Bolsonaro têm protagonizado uma guerra muito mediática, sobretudo desde a votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, no dia 17 de Abril. Bolsonaro, 61 anos, é um extremista de direita que defende a pena de morte e que diz que preferia que um dos seus filhos morresse num acidente a ser homossexual. Foi o deputado mais votado no Rio de Janeiro, o mesmo estado que elegeu Jean Wyllys. É pré-candidato à Presidência da República em 2018. Na sua declaração de voto a favor doimpeachment de Dilma homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais temíveis torturadores da ditadura militar brasileira. Pouco depois, chegou a vez de Jean Wyllys votar contra o impeachment. A sua intervenção foi inflamada e colérica. “Eu estou constrangido de participar dessa farsa, dessa eleição indirecta conduzida por um ladrão, urdida por um traidor conspirador e apoiada por torturadores, covardes, analfabetos políticos e vendidos”, declarou, sob uma chuva de vaias. Quando Wyllys terminou e deixou o microfone, Bolsonaro, que estava perto, dirigiu-lhe insultos homofóbicos, chamando-lhe “queima-rosca” e dizendo “tchau, querida”.

Wyllys reagiu cuspindo em Bolsonaro. “Há seis anos, desde que eu entrei na Câmara dos Deputados, que esse senhor me insulta nas sessões das comissões e no plenário, chama-me os nomes mais horríveis, e faz as colocações mais grotescas, constrangedoras em relação à minha sexualidade. E todos os outros deputados, mesmo os progressistas, mesmo os mais próximos a mim, tendem a naturalizar isso. Tendem a tratar isso como, no máximo, da ordem da brincadeira, da graça. ‘Não, ele é uma caricatura, não leve em conta.’ Foi exactamente por ser tratado dessa maneira ao longo dos anos que o fascismo cresceu no Brasil e hoje ele tem 8% das intenções de voto para a Presidência da República. Enquanto ele insultava os homossexuais, as pessoas não se incomodavam, as pessoas riam. Afinal de contas, as pessoas contam piadas machistas, mesmo dizendo que não são homofóbicas. Elas usam a homossexualidade para sacanear os amigos. Nos estádios elas chamam o adversário de ‘viado’ [maricas]. Então, por que vão se incomodar com o que o Bolsonaro está fazendo? Entretanto, o alvo dele deixou de ser só os homossexuais. Passou a ser as mulheres, passou a ser os negros. Essa é a questão do fascismo: ele é insidioso, ele vai seduzindo as pessoas. E sempre começa com o público mais vulnerável, aquele que pode ser facilmente convertido em inimigo público. Não me arrependo de ter cuspido e cuspiria outra vez na cara dele. E acho que, como disse Agualusa num artigo [no jornalO Globo], foi uma cuspidela redentora. Porque foi um acto que incidiu sobre uma pessoa mas na verdade acabou incidindo sobre um colectivo, sobre aquele espetáculo grotesco, sobre aquele congresso nacional, sobre o conservadorismo, sobre o atraso, o obscurantismo. Então, não tenho por que me arrepender”, ri-se.

Recebe ameaças de morte desde o primeiro mês do seu mandato. Diz que toma precauções quando participa em eventos públicos. “Tem seguranças estrategicamente colocados. A minha agenda só é divulgada depois, quando eu já estou no evento, para não dar tempo de nenhum planeamento ou coisa do tipo.” Muitos dos seus admiradores temem que se canse um dia. “Não vou mentir para você e dizer que eu já não pensei em desistir. Pensei, sim. Houve momentos duros em que as ameaças se intensificaram e chegaram até à minha família, em que eu pensei: ‘Você não é o Super-Homem, páre com isso.’ Mas, ao mesmo tempo, outra voz diz: ‘Tenha responsabilidades, também, pelo que você fez.’ Não que eu vá chegar ao limite do sacrifício. Não tenho vocação para o heroísmo. Eu sou demasiado humano, tenho defeitos e assim gosto de me apresentar para as pessoas. Por isso é que não me arrependo do cuspe.”

No seu telemóvel, colocado em cima da mesa, chovem mensagens durante a entrevista, que se estende por uma hora, mas em momento nenhum Jean Wyllys se distrai ou pede para olhá-las.

Filho de uma lavadeira e de um pai que virou alcóolico, Wyllys nasceu na Bahia, na extrema pobreza, mas não deixou que isso encurtasse as suas ambições — num país onde pobres e nordestinos são vistos com desprezo. Como Lula da Silva, a sua história é bem brasileira.

“Não era para eu estar aqui. Passei a infância inteira abaixo da linha da miséria. Passando fome, sabe? Comecei a trabalhar aos dez anos de idade, vendendo nas ruas, para ajudar a minha família. Antes disso, quando estava para completar um ano, tive uma crise de desnutrição agravada por uma disenteria, e os meus pais acharam que eu estava morto. O meu pai saiu de casa para comprar um caixão de bebé. Eu não tinha sido baptizado ainda. A minha mãe chamou dois vizinhos, que já morreram inclusive, Dona Didi e Seu Maximino, para dar umas palavras, para eu não morrer pagão. E quando eles puseram a vela na minha mão para dizer as palavras, a cera da vela caiu na minha mão e eu chorei. E aí minha mãe viu que eu não estava morto. A pobreza, o alcoolismo do meu pai… Não me deixaram uma pessoa ressentida, rancorosa. Mas sou uma pessoa que tem consciência dessa história e por que é que eu tenho de lutar por um mundo mais justo, um mundo melhor. Você entendeu?” Esboça um sorriso. “E sendo gay. É isso.”

 https://www.publico.pt/mundo/noticia/a-solidao-de-jean-wyllys-num-pais-homofobico-1735753?page=-1

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Eu fui Charlie e não sou gay?




 
Se na morte dos cartoonistas do Charlie Hebdo esteve em causa a liberdade de expressão seria normal que na matança do Pulse estivesse em causa a homofobia. Mas, estranhamente, o carácter homofóbico do ataque quase foi expulso do debate político norte-americano. É um pormenor, um facto que não mereceu grande reflexão política. O ódio de Omar Mateen aos homossexuais foi antes substituído pelo ódio de Donald Trump aos muçulmanos. Para a direita norte-americana, o problema é a existência de muçulmanos no seu território. Para a esquerda é a facilidade em obter armas. Desta vez, poucos parecem querer dizer que eles somos nós. Porque para isso era preciso que muitos dos que gostam de alardear os “valores ocidentais” vencessem a sua agressiva homofobia. Quando um colunista do The New York Times escreveu que Omar Mateen pode ter dado a vitória a Trump enganou-se. Trump nunca poderiam ter gritado “I’m gay” como gritaria “Je suis Charlie”. Foram os media que tornaram quase irrelevante a motivação deste atentado, permitindo que um homofóbico usasse o sangue dos homossexuais para juntar o seu ódio aos gays ao seu ódio aos muçulmanos. Assim, o ódio está sempre a facturar .
 
Dizia-me, hás uns anos, uma ativista lésbica israelita de Haifa: “O ódio que separa palestinianos e israelitas teve um momento de paz: quando se tentou fazer uma marcha do orgulho gay em Jerusalém. Só uma coisa une os rabis e os mulás em Jerusalém: o ódio aos homossexuais. Todos devem isto à comunidade LGBT: criou um ponto de convergência em entre gente que em tudo o resto se odeia.” A homofobia é o mais poderoso dos ódios. Mais do que o racismo ou do que o preconceito social. Mais do que o ódio religioso ou do que o machismo (apesar de ser seu parente próximo). Porque ele lida com os mais profundos dos nossos medos e as mais inquietantes das nossas inseguranças.
A coisa mais falsa de todas as falsidades que se dizem e escrevem quando se dizem e escrevem quando se desenha o retrato do “ocidente” é a ideia de que, ao contrário de outros, somos maioritariamente tolerantes com a homossexualidade. Não somos. E o muito que conquistámos, depois de décadas de batalhas perdidas e vítimas que sofrem em silêncio, não o conquistámos graças à nossa matriz cristã. Conquistámos contra ela, retirando às igrejas o poder e construindo estados laicos.
[...]
Daniel Oliveira, Expresso, 2016-06-14
 
 

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Não sou Orlando, sou LGBT

Orlando não foi o alvo principal. O alvo principal é o mesmo alvo de quando chamas paneleiro ao teu colega, “contra-natura” ao teu filho ou à tua neta; o mesmo alvo de quando insultas um casal de mulheres na rua; é o alvo de quando achas que “homossexuais está bem, mas bichas é que não”
 
Texto de Ricardo Gouveia • 14/06/2016 - 12:43
 
Foi, alegadamente, o tiroteio mais mortífero da história dos Estados Unidos, onde a violência armada é uma realidade brutal. De acordo com as organizações Gun Violence Archive e Mass Shooting Tracker, ao 164.º dia do ano de 2016, 207 pessoas tinham sido mortalmente feridas, em cerca de 176 tiroteios, 133 destes considerados “em massa”. 
Podemos, para já, abster-nos de comentar a política absurda dos EUA a respeito da posse de arma, para nos focarmos no seguinte: o tiroteio mais mortífero da história de um país campeão em tiroteios foi direccionado a pessoas LGBT, tendo sido também o maior massacre de ódio direccionado a pessoas LGBT desde o nazismo. 
Após o choque, a tristeza, a revolta e a frustração, importa fazer algumas reflexões. 
Domingo à noite, no canal "Sky News", em Inglaterra, o jornalista do "Guardian", Owen Jones, assumidamente gay, abandonou o estúdio durante o comentário político que nessa estação se fazia acerca do massacre, após o moderador e a sua colega de painel terem insistido que este era um crime, “contra pessoas que se queriam divertir, como no Bataclan”. Não há mortes mais graves que outras, é certo; mas os crimes não são todos iguais. Este foi um ataque a pessoas LGBT, um ataque homo-bi-transfóbico. É, portanto, um crime de ódio, e o crime de ódio tem, nos Estados Unidos, como em Portugal e em tantos outros países do mundo, um enquadramento legal específico. Porquê? Porque a motivação do crime não nasce nem morre com a organização ou indivíduo criminoso, correspondendo a um fenómeno de preconceito que se revela nos maiores, mas também nos mais aparentemente insignificantes actos de violência. Porque ele é dirigido a quem já sente o ódio no seu dia-a-dia. Porque ele se integra num ciclo de violência e de discriminação que é permanente: nos gestos e nas palavras, nas famílias e nas escolas, no trabalho, na doença e na rua. Porque ele afecta as pessoas que não foram mortalmente vitimadas como em nenhum outro crime: incute-nos o medo, inibe o exercício da nossa liberdade, aumenta um terror que conhecemos bem, afecta-nos a todos e a todas que pertencemos ao grupo social ao qual é dirigido o ataque. Porque "'terrorismo direccionado a pessoas LGBT' é uma redundância” por si só. 
Importa fazer referência ao espaço onde decorre o ataque. Bem sei que há por aí muito boa gente, de esquerda até, que não compreende o porquê e para quê de espaços culturais ou recreativos direccionados a pessoas LGBT. Que fique claro: é por isto. Se és gay, lésbica, bissexual, trans, queer, sabes o que é avaliar, em todos os lugares onde vais, se estás seguro, se estás a salvo, se corres risco de ser insultada, desprezada e agredida; já te coibiste de expressar um simples afecto ou carinho; já tiveste medo de parecer demasiado bicha ou demasiado fufa. Se és LGBT, sabes que há espaços onde te sentes mais seguro, protegido, menos sozinha, mais respeitada e livre de seres como és. Foi num destes lugares que ocorreu o massacre, em Orlando. Num espaço seguro, de gente como nós, com quem rimos e dançamos longe de quem nos julga e inclusive, que confiamos que nos irá proteger se a homo-bi-transfobia ali entrar; sentimos, embora sempre com contornos diferentes, o mesmo perigo iminente que espreita lá fora. Por tudo isto, hoje sentimos um medo acrescido. 
Há cerca de um ano, celebrava-se a conquista da igualdade no acesso ao casamento, nos Estados Unidos. Muitas e muitos de nós acrescentámos um filtro arco-íris à nossa fotografia de perfil, celebrando, assim, o fim de uma discriminação legal. Um ano depois, choramos a morte de mais de 50 pessoas LGBT no seu espaço seguro. Por essenciais que sejam as alterações legais, pela esperança e o alento que transmitem, quase tanto como pela mudança efectiva nas vidas das pessoas, é importante perceber que esse é o mínimo dos mínimos, é o princípio da nossa luta. O resto está por fazer, estamos cá para isso. 
Não sou Orlando. Orlando não foi o alvo principal. O alvo principal é o mesmo alvo de quando chamas paneleiro ao teu colega, “contra-natura” ao teu filho ou à tua neta; o mesmo alvo de quando insultas um casal de mulheres na rua; é o alvo de quando achas que “homossexuais está bem, mas bichas é que não”, ou “façam a vossa vida mas longe de mim”. É a versão terrorista de um terror que se sente todos os dias. É fácil ser-se Orlando ou rezar por Orlando, mas não é isso que está em causa. E ser-se lésbica, gay, bissexual, trans, queer, intersexo ou assexual? Quantos de nós estão dispostos a ser LGBT, contra a violência e o ódio? 
Se és LGBT, pelo fim da violência e do ódio perpetrado contra pessoas LGBT, vem marchar connosco este sábado, dia 18 de Junho, às 17h, no Príncipe Real, em Lisboa. Vem continuar uma luta que não se esgota na lei, que quer sempre mais, que se chama Orgulho porque ele é o único escudo que nos permite unir e organizar contra o medo, a vergonha e a violência.
 
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Há uns tempos um amigo perguntava-me: "o que é isso de ser figura pública? Já se qualificam como figuras públicas, as meninas apanhadas a fazer amor no Main?"
Dificilmente. Por mais que já se lhes conheça alguns ângulos mortos.
Conheço pessoas que dizem ser "figura pública por profissão". Ou seja, existem, respiram, de forma... Pública. O seu trabalho é esse: oxigenar o sangue à frente dos outros.
Tudo bem. Cada um respira como quer. Menos aqueles que acabam mortos por não respirarem como é suposto.
E não estou aqui a fazer uma graça com asmáticos. Morreram 50 pessoas em Orlando - terra da Disney - que ousaram ser quem são dentro de um local que imaginavam seguro.
No fundo, respiravam. Lá na vida deles. Ligeiramente entrincheirados numa discoteca lá "deles".
Para sempre "meio entrincheirados".
Porque é sempre assim, não é? Morreram "aqueles". Aqueles sírios. Aqueles turcos. Aquelas nigerianas raptadas e violadas pelo Boko Haram. Aqueles paneleiros que quiseram abanar-se ao som de Ariana Grande.
Não digo paneleiros para chocar. Digo-o porque as palavras têm vida; memória. Digo-o porque esses paneleiros são iguais a ti que estás a ler isto.
E são completamente iguais a mim; são pessoas.
Por circunstâncias escolhidas e herdadas, sou uma figura pública - por mais que o termo me faça rir.
Contudo, não desconto no IRS com croquetes e não apareço muitas vezes nas revistas que acabam esquecidas em salas de espera. Esse não é o meu trabalho.
O meu trabalho é público. Seja na televisão, ou na rádio, mas gosto de pensar que existe para promover discussão.
É por isso que escolho ter o desplante de falar disto às quase 60 mil pessoas que seguem esta página.
Coincide gostar de homens. Mas gosto mais de que toda a gente possa ser o que quiser, onde quiser, de que forma quiser, sem esperar um balázio na testa.
Não me parece pedir muito.
E eles não pediram muito. Quiseram só estar à vontade.
Não quero pôr um # a trendar.
Quero só que penses como, ao fomentar o ódio, vamos todos parar ao mesmo forno.
É só uma questão de tempo.
Não rezes por Orlando. Trata só os outros com o respeito que gostarias que tivessem por ti.
 
Rui M Pêgo, Facebook, 13/6 às 13:32


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Archbishops issue joint statement in response to Orlando shootings

Monday 13th June 2016
Archbishops of Canterbury and York call for solidarity with LGBTI people after the attack in Orlando. 

"After Sunday’s attack in Orlando as Christians we must speak out in support of LGBTI people, who have become the latest group to be so brutally targeted by the forces of evil. We must pray, weep with those affected, support the bereaved, and love without qualification.
"The obligation to object to these acts of persecution, and to support those LGBTI people who are wickedly and cruelly killed and wounded, bereaved and traumatised, whether in Orlando or elsewhere, is an absolute call on our Christian discipleship. It arises from the unshakeable certainty of the gracious love of God for every human being.
"Now, in this time of heartbreak and grief, is a time for solidarity. May God our Father give grace and comfort to all who mourn, and divine compassion to us all."
http://www.archbishopofcanterbury.org/articles.php/5735/archbishops-issue-joint-statement-in-response-to-orlando-shootings

 
 
 
Um facto incontornável que cristãos e simpatizantes do cristianismo têm de enfrentar é a circunstância de o cânon de textos que constitui o Novo Testamento conter afirmações claríssimas da mais óbvia homofobia. Estamos todas e todos em estado de choque com o que aconteceu em Orlando. Mas vivemos num país de tradição católica, religião fundada numa Escritura que afirma sem lugar para dúvidas que os homossexuais são "merecedores de morte" (Romanos 1:32).
Chocamo-nos com o horrendo Estado Islâmico a atirar gays dos prédios, mas esquecemo-nos que a literatura religiosa dos primeiros séculos do cristianismo afirmava a seguinte punição depois da morte para homossexuais de ambos os sexos: serem perpetuamente atirados de altos rochedos, de forma contínua, incessante (Apocalipse de Pedro).
A escritura cristã canónica é homofóbica; a apócrifa também. O apócrifo Evangelho de Judas tem tiradas homofóbicas, não menos que a epistolografia de Paulo (tanto a autêntica como a que foi falsificada em nome do apóstolo).
O cristianismo precisa de uma reflexão profunda sobre o seu papel, ao longo dos séculos, no incremento da homofobia na sociedade ocidental. Não culpem o islão, por favor. O cristianismo não é diferente.
Ou tem uma diferença: Jesus. 
E tem a graça de, pelo menos nos 4 evangelhos canónicos, estarmos perante textos religiosos livres de homofobia.
 
 
 

 


 
Ontem aconteceu Orlando de outra maneira. Ontem, não foi notícia o Disneyworld. Não quero abusar das palavras, mas não consigo seguir como se nada tivesse acontecido. Choca-me a brutidade daquela matança. Choca-me todo o tipo de estupidez, mas aquela que procura fundamentação religiosa ainda me escandaliza mais. Choca-me o extremismo islâmico e todos os outros tipos de extremismo religioso, coisa que os EUA conhecem tão bem e alimentam também tão ferozmente. A desumanidade é um enigma que não decifro inteiramente. 

Depois da brutidade e da matança, vem a imbecilidade, em onda, como réplicas daquele primeiro impacto, vergonhosas réplicas de ódio e maldade. E isto, confesso, acho que ainda me fere mais. Porque explico melhor a brutidade de uma pessoa que faz aquilo do que as reacções de milhares de pessoas nas redes sociais que confirmam o terror e batem palmas. É como uma onda imbecil, igualmente desumana. 


Para uns, o inimigo é o islão; para outros, o inimigo são os gays. Quando perceberemos que o inimigo, afinal, está dentro de nós, e é um monstro mesquinho e preconceituoso, que alimentamos com doses generosas de ignorância e medo? 


Às vezes faz-nos falta saber donde vêm as palavras. Fobia vem do grego "fobos", que significa medo, pânico. Islamofobia, Homofobia, e qualquer outra fobia, é uma criação do medo. É uma cedência ao medo. E poucas coisas nos fazem ser mais terríveis e impiedosos do que o medo diante do desconhecido. É às escuras que desferimos os nossos golpes mais mortais. Quando estamos às cegas, brandimos as espadas e as lanças com um vigor tão desordenado que nos torna perigosamente mortais. 


É de medo que falamos. Dos medos que nos habitam, das fobias que nos dominam e nos levam à impiedade. E, acima de tudo, dos monstros - também dentro de nós! - que estes medos alimentam e que acabam por fazer tanto mal. 


E, como resposta de um crente em Deus, o Misericordioso, ao homem que fez a matança naquela discoteca, e a todos os que conseguem arranjar argumentos para aplaudir um pecado tão grave, partilho de novo uma reflexão que fiz para a homilia há umas semanas. Um apontamento sobre a homofobia, e o que Jesus disse sobre isso. Publiquei na página "Plano B" no facebook, mas volto a pôr aqui o texto, comentário ao texto evangélico em que um centurião romano manda pedir a Jesus que lhe cure um servo com quem ele vivia em intimidade (Lc 7, 1-10).

O homem era pagão. Não só pagão, mas romano. Não só romano, mas centurião. Está o cenário todo montado para que um Profeta lhe mande dar uma volta. Um chefe militar do império colonizador, e parece que tinha "um servo a quem estimava muito". Quer dizer, se vamos a traduzir mesmo o que está no original, a coisa em português fica assim: "que vivia na intimidade dele". A palavra grega que está traduzida por "estimava muito" é "entímos", origem do vocábulo "íntimo", em português. 

Ou seja: mais esta!


Entendamo-nos, então. Segundo a cultura militar romana, era proibido um centurião ser casado. Ter mulher e filhos seria uma dificuldade para o cargo militar que ocupava. Entretanto, tinha-se tornado comum e bem aceite que os centuriões tivessem junto de si jovens rapazes, como seus servos, com quem partilhavam a intimidade. Não podemos avaliar estas coisas segundo critérios da nossa cultura actual, evidentemente. Este costume era bem aceite, estava encaixado na estrutura militar, e em nada se assemelhava a predação sexual ou pederastia. Tempos. 

O que interessa aqui é percebermos quem é este centurião e o motivo pelo qual ele não quer que Jesus vá lá a casa. Se entre os romanos as relações homossexuais não levantavam nenhum problema moral, não era assim entre os judeus. A lei judaica era muito explícita na condenação à morte que mereciam todos os que fossem acusados de relações homossexuais. Era uma imoralidade gravíssima. 

Se parecia que a descrição daquele homem, a olhos judaicos, não podia piorar, fomos apanhados de surpresa. Pagão. Colono. Chefe militar. E imoral. 

Bem vindo ao admirável mundo de Jesus! 

Alguma coisa teria de muito especial este homem, porque os próprios anciãos de Cafarnaum intercedem por ele. Ou era muito generoso e sensível, ou era um diplomata hábil. Construir sinagoga para os judeus podia ser as duas coisas: generosidade ou técnica de colonização. Todos os impérios usam prendas para amansar quem têm pela rédea. Percebes porque se chamam "prendas"?...

O que é certo é que intercedem por ele, e Jesus sabia quem era e do que se tratava. E não encontramos na sua boca uma palavra de condenação, nem uma recusa. É admirável contemplarmos, nestas passadas dos evangelhos, o que não está lá. O que Jesus não disse. O que Jesus não fez. O que lá não está diz-nos muito do que Jesus é e da maneira como se posiciona diante das pessoas. 

Não só não o condena nem rejeita o seu recado, não só não o ignora nem vulgariza o seu sofrimento, como lhe dá um louvor. "Nunca vi tão grande fé, nem em Israel!" Jesus diz isto de um pagão, chefe militar dos colonizadores, que lhe mandou recado movido pelo amor que tinha àquele servo com quem vivia em intimidade. Nós que somos de vez em quando tão dados a homo e outras fobias, talvez precisássemos de conhecer os evangelhos um bocadinho melhor.  

Já agora: o louvor da Fé. A mim toca-me profundamente o motivo pelo qual Jesus louva a Fé daquele estrangeiro. Porque ele, o estrangeiro, intuiu qualquer coisa fundamental, e Jesus gostou disso. A Fé é Obediência. É por isso que a Fé daquele centurião é grande e boa e louvável, porque ele entende a Fé como Obediência: um diz, o outro faz; um manda, o outro obedece. 

É este carácter obediencial da Fé que nos falta tantas vezes! Perdemo-nos em devoções sem motivo nem porquê, deixamo-nos enganar facilmente por causa da ignorância da nossa Tradição e do desconhecimento das Escrituras, pensamos que a Fé se reduz a um sentimento ou a uma referência teórica a determinados valores universais, e foge-nos o essencial: ter Fé é Obedecer a Jesus Cristo.  

Ele diz, a gente faz.
Ele faz, a gente imita.
Ele pede, a gente alegra-se.
Ele gosta, a gente deseja. 

A sua paixão foi o Reino de Deus.
Ainda é.
Por outras palavras: que Deus mande!
Que a gente viva como Deus manda!
Manda quem pode. Obedece quem deve. 
 

Foi há pouquinho, apenas três versículos antes, neste evangelho de Lucas, que Jesus desabafou uma das suas queixas mais profundas: "Porque é que vocês me andam sempre a chamar 'Senhor, Senhor', mas não fazem o que eu mando?!" 

Grande era a Fé daquele homem. Foi isso que Jesus viu. Foi disso que Jesus falou. Foi com isso que Jesus se interessou. 

Indje
http://derrotarmontanhas.blogspot.pt/2016/06/sobre-orlando-sobre-fobias-e-um-texto.html
 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Pode um desejo imenso






Tinham chegado a uma espécie de pequena clareira, onde se encontrava o edifício redondo, de cor escura, a que Concha chamara a ermida. Na verdade, era uma das capelinhas que, da varanda com vista para o convento em casa dos Buissard Coutinho, se viam a subir o declive da serra, cada uma no seu degrau. Nuno olhou à sua volta. A vista: toda verde; toda azul.

– Sítio lindo – murmurou.

O silêncio. Como resposta ao aumento momentâneo do calor, as cigarras calaram por segundos as suas estridulações. Imóveis, os arvoredos em redor exalavam um perfume acre, ao mesmo tempo apetecível e repugnante: um aroma de esteva e de tomilho, onde parecia imiscuir-se um cheiro pungente a esperma e saliva. Sobreveio uma leve aragem. As cigarras retomaram o seu canto, agora num tom mais agudo, mais estridente que antes.

– Bom, vou entrar. – Concha dirigiu-se à porta da capelinha e remexeu na fechadura.

A porta abriu. Apenas o limiar transposto, Concha sumiu-se imediatamente na penumbra, na escuridão que, para quem tinha os olhos encandeados pela luz daquela manhã, formava uma cortina impenetrável. Por sua vez, Nuno também se aproximou da ermida, mas ficou à porta, indeciso se haveria ou não de entrar. Olhando para o interior, discernia-se vagamente uma decoração em azulejos. Nuno viu de repente uma coisa que o interessou e entrou na sombra fresca da capela.

Agora o calor, que ardia lá fora, já não passava de recordação. Mesmo o foco dourado, em que borboleteavam ínfimas poeiras, retinha do ar livre a luz, apenas; não o calor. E embora iluminasse a zona da parede que chamara a atenção de Nuno, esse feixe de luz nada subtraía à frescura dos azulejos. A frescura que, à guisa de bálsamo, já lhe acalmava o ardor dos arranhões nas mãos e nos braços.

SE ÉS CRISTO, SALVA-TE. A legenda escrita a azul, desgarrada do escárnio que lhe informava o contexto na Sagrada Escritura, parecia encerrar em cinco palavras tudo o que havia para dizer acerca de Deus, por um lado, e da condição humana, por outro; tanto se aplicava às chagas de Cristo como ao instrumentário da Paixão, que Nuno via representado nos azulejos à sua frente: lança, túnica, esponja. E, descendo do sobrenatural para o comezinho, as mesmas cinco palavras exprimiam, entendidas sob outro prisma, tudo o que havia a dizer acerca dos pequenos problemas por que, na solidão daquela serra (dentre todas montanha sagrada de eremitas e de poetas), estavam a passar uma mulher em “idade difícil”, com o marido há anos no Brasil e com o filho a perder-se algures em Lisboa; e um jovem que, ao tomar ali a decisão de largar tudo, se obrigava a assumir perante si mesmo que encerrara o capítulo das namoradas, que era capaz de ir contra os desejos dos pais, que ia ficar com uma fama de que, até morrer, nunca mais se livraria, que tinha a capacidade de arriscar tudo, de pôr a sua vida toda em causa em prol de um jovem como ele que lhe dissera repetidas vezes que era só amizade e que a componente de afectividade física não fazia daquela relação o amor que Nuno procurava.

Já mais habituado à escuridão, Nuno reparou, sem surpresa (pois os seus olhos também estavam marejados de lágrimas), que, em pé ao seu lado, diante do enorme Cristo crucificado que ocupava toda uma parede da ermida, Concha chorava com a cara enterrada nas mãos. Recalcando o medo de que ela o repelisse, Nuno atreveu-se a pôr-lhe a mão no ombro. Concha estendeu devagar o braço e colocou a mão sobre a mão de Nuno.

E sem fazer nada para impedir o choro – remédio de tanta coisa que ficava para trás... –, Nuno elevou os olhos e fitou o rosto ensanguentado da estátua pregada na cruz. Vieram-lhe ao espírito os versos do frade arrabidense em que sempre se revira: “luz sem luz, vida sem vida, sol sem curso”.

Isso fora a sua vida. Isso era o que ficava para trás. Doravante, o mote iria ser outro. “Menos contradição, mais clara vista”.

 

Frederico Lourenço, Pode um desejo imenso, Cotovia, 2006, 5ª edição, pp. 96-98

 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

É importante foder (ou não foder)?




 
 
É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.

 

O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d’ir urinar.

 

Isso eu o quis dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
“O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é
”Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por mim até).

 

Também aquela do “outrora-agora” e do “ah poder ser tu sendo eu
” foi um bom trabalho.
Para continuar tudo co’a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.
 

 

Mário Cesariny de Vasconcelos, O virgem Negra - Fernando Pessoa explicado às criancinhas Naturais e Estrangeiras, Assírio & Alvim, 1989

domingo, 12 de junho de 2016

INVEJA E COMPETIÇÃO




Quem já conviveu com uma pessoa perversa percebeu a presença constante da inveja e flagrante desejo de ter coisas que você tem; de ser você. Há uma inexplicável sensação diária de uma espécie de concorrência velada ao longo de toda a relação, nas mínimas coisas.

Pensando nisso, decidi compartilhar alguns exemplos de como eu vivi essa inveja e competição. Você tem histórias assim para contar?

Nos anos de convivência e até hoje, a pessoa perversa narcisista da minha trajetória tinha uma verdadeira obsessão por ter tudo o que eu tinha. O que não podia ter, fazia em modo que eu destruísse, vendesse ou perdesse.

Além disso, tratava rapidamente de minimizar minhas vitórias ou cobri-las com um comentário negativo, malicioso ou vitimista. Se fossem coisas, ele as desejava em silêncio. Jamais fazia menção a elas para elogiar, apenas para se lamentar por não tê-las ou sê-las.

Queria ter uma conta no banco em que eu tinha. Não sossegou enquanto eu não lhe consegui o "status". Precisava dos mesmos seguros, os mesmos investimentos, o mesmo gerente. Tudo. Ainda que eu minimizasse o fato dizendo que era reflexo de um cargo importante que eu ocupava antes de conhecê-lo, para ele, aquilo era uma afronta; uma diminuição de sua importância e precisava ser superada.

Falava com cólera dos países que queria conhecer. Argumentava amargurado: "Você rodou o mundo, agora é minha vez". Nunca tinha o espírito de "Que bom que conhece o mundo! Como foi a trabalho, vamos viajar de novo, para vermos tudo juntos, agora de férias!?". Não. Ao invés disso tinha rancor.

Parecia que eu tinha uma dívida com ele por ter feito coisas que ele não tinha feito. Queria ter um carro de uma certa marca alemã que eu tive. Vitimizava-se: "Você já teve a sua XXX, agora é minha vez!" Quando conseguiu, depois de 2 anos de contato zero, mandou me avisar, como se me importasse que carro alguém dirige ou deixa de dirigir.

Eu, que com perverso aprendi a por para fora a minha reserva adquirida de veneno, para sacanear, perguntei:

Ah é? E ele já comprou os pneus? A pessoa ficou surpresa e perguntou: Como sabe que comprou pneus???

Respondi na lata: "Porque mesquinho como é e com o exclusivo desejo de imitar e não de ter o que realmente gosta e pode ter, não teria tido coragem de comprar uma zero km. Diga-lhe que fiz esse comentário."

Não sei o desfecho, mas desistiu de me mandar recados...

Quando eu tinha uma ideia boa, diante dos amigos ele dizia que "nós" tínhamos tido aquela ideia. Longe deles, a ideia merecia críticas, desmotivação e esquecimento.

Outro dia alguém veio me contar que o cara talvez seguisse minha página porque decidiu fazer um curso de Coaching que nada tem a ver com sua profissão e menos ainda, com o seu caráter. O importante é não ficar por baixo, não importa o que ser coach significa...

Obviamente surtaria se soubesse que minha formação foi por uma escola de coaching diversa daquela que escolheu. Provavelmente cancelaria a inscrição e tentaria pela mesma, não estou exagerando.

Daí pensei: Bom, se o negócio é tentar se apoderar das minhas características, ser eu ou ter coisas que tenho, mando avisar: daqui um mês vou mudar de sexo. Vai encarar?