Mostrar mensagens com a etiqueta Sexismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sexismo. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Frederico Lourenço - crónica





Gianecchini e o filósofo francês

Duas notícias lidas hoje deram-me que pensar. Uma foi a novidade explosiva (que toda a gente já sabia há muito anos): que Reynaldo Gianecchini - deixem-me acertar no eufemismo certo - já teve «romances com homens».

A segunda notícia deixou-me menos perplexo, mas tem a ver - já explico porquê - com a primeira. O distinto filósofo francês Bernard Pivot tweetou - para choque genuíno de muitas pessoas - que a jovem activista Greta Thunberg desilude no que toca à fantasia que heterossexuais da geração dele associam a mulheres suecas.

Ao que parece, para o filósofo, ela não é suficientemente sexy; não só lhe faltará (estou a fantasiar agora) a morfologia corporal de Anita Ekberg, mas falta-lhe aquilo que, desde tempos imemoriais, os homens heterossexuais consideram obrigação óbvia das mulheres: vestirem-se, arranjarem-se, comportarem-se para agradar aos homens.

Todos somos meros seres humanos e ninguém é perfeito. Objectificar quem achamos lindo é algo de inelutável, porque é inconsciente. Eu já objectifiquei, nas minhas fantasias, Reynaldo Gianecchini? Quantas vezes! Sempre o achei (para o meu gosto) o paradigma máximo da beleza masculina. E é algo com que o meu marido André, que não idolatra como eu a beleza de Gianecchini, se pode rir comigo. Trata-se de uma objectificação, apesar de tudo, inocente. E se calhar desconcertante para homens heterossexuais que me estejam a ler: «então os gajos também se objectificam uns aos outros?»

Um dos temas que se discute a propósito da timidíssima saída do armário por parte de Gianecchini é que nenhum gay tem obrigação de sair do armário; que todos temos direito à nossa privacidade, porque ninguém obriga um heterossexual a declarar publicamente a sua heterossexualidade.

Ok. Talvez porque tantos e tantos heterossexuais outra coisa não fazem do que fazer, permanentemente, essa declaração. Uma das coisas que sempre me incomodou na universidade é a maneira como muitos dos meus colegas heterossexuais esticam a corda, por assim dizer, nas «bocas» que «mandam» de teor objectificante relativamente a pessoas do sexo oposto. Esses comportamentos são internamente defendidos em circuito hétero: não só os próprios se desculpam com «eu ainda sou dos antigos que gosta de mulheres» (como quem diz «não adiro à moda de ser gay»), como outros dizem sobre eles «pronto, ele gosta de mulheres - isso para mim não é defeito».

Na verdade, na nossa sociedade, nenhum homem heterossexual é obrigado a declarar publicamente «eu sou heterossexual», porque o faz, no fundo, diariamente, de muitas maneiras diferentes.

É o que está a fazer o grande intelectual francês, que exprime desilusão pelo facto de Greta Thunberg ficar aquém do seu conceito do que uma sueca devia ser. É o que faz o professor universitário que chega à aula e cumprimenta as alunas com «estão boas - ou são boas?»

A heterossexualidade masculina vive desde sempre esse estatuto de «entitlement», que só no século XX começou a ser posto em causa pelos movimentos de libertação feminina e pelo movimento LGBT. Homens heterossexuais podem declarar a sua heterossexualidade com cada gesto e cada palavra do dia a dia; mas homens homossexuais vêm expor-se «desnecessariamente» quando afirmam, com dignidade e sem objectificação de outrem, a sua homossexualidade.

Vivemos (e viveremos ainda) no mundo dos parâmetros duplos, é certo.

Seja como for: a Reynaldo Gianecchini transmito os meus parabéns e quero deixar claro que respeito o tempo dele para fazer o que fez.

Ao filósofo francês só posso dizer que a afirmação de heterossexualidade através de bocas foleiras sobre suecas já passou do tempo.

Venha a próxima polémica!

Frederico Lourenço, 2019-10-01


 

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Masculinidade tóxica



 
Sôbolos rios que vão 

Masculinidade tóxica. Este conceito tem adquirido o seu espaço na discussão mediática (e não só) quando se fala sobre o modo como certos comportamentos machistas influem negativamente na vida de pessoas humanas que não são homens adultos com comportamento de «macho alfa»: refiro-me a mulheres, a crianças e também a homens com défice desse tipo de masculinidade, aos quais se chamaram muitos nomes ao longo da História humana, mas a quem hoje chamamos gays ou queers ou outra coisa assim.

Ao longo da História, as principais vítimas da masculinidade tóxica foram as mulheres e as crianças. As mulheres pela forma como foram objectificadas, vistas como propriedade do pai, do marido ou do dono (no caso de serem escravas). Todos sabem como eu amo profundamente a poesia de Homero, mas sinto sempre um mal estar enorme quando leio aqueles versos em que Aquiles, ao celebrar jogos fúnebres em honra do seu amigo Pátroclo, institui um campeonato de boxe, em que ao vencedor cabe o prémio de um artefacto em metal, que valia doze bois. O segundo prémio (para o pugilista vencido, portanto) era uma mulher, excelente tecelã, cujo valor no mercado era de quatro bois (Ilíada 23.702-705). Como se não bastasse esta objectificação da mulher - que, sendo escrava no acampamento grego em Tróia, era uma cativa que tinha sido levada para a escravatura depois do saque de uma cidade ali à volta - ainda por cima ela é vista como valendo menos do que uma trípode e, humilhação suprema, é o SEGUNDO PRÉMIO, dado ao atleta vencido.

Que vida seria a dessa mulher? A que sofrimentos seriam sujeitas essas escravas? Violência de todo o tipo, claro: eram abusadas sexualmente (isso está logo escancarado no verso 31 do Canto 1 da Ilíada); certamente seriam espancadas se não obedecessem aos donos e não trabalhassem como eles queriam. Tinham condições de vida, nalguns casos, que lembram o campo de concentração nazi em que os prisioneiros tinham de produzir um número certo de artefactos por dia; se o não fizessem, eram chicoteados de forma bárbara. Esse regime de trabalho forçado das escravas está patente na Odisseia 20.109-110.

Mas o pior sofrimento das cativas era perder os filhos no momento de serem capturadas. Esse é o pior crime de guerra da Antiguidade, do qual temos vários ecos no Antigo Testamento e na literatura grega. Toda a gente conhece o caso do filho de Heitor e de Andrómaca, lançado das muralhas de Tróia para cima das pedras lá em baixo. Por vezes pensamos que isso foi uma crueldade excepcional. Não foi excepcional. Era normal.

Quando uma cidade era saqueada na Antiguidade, a população adulta que tinha sobrevivido ao cerco e ao saque da cidade era levada para a escravatura. As mulheres deixavam de ter qualquer identidade própria: já não eram filhas dos seus pais, já não eram esposas dos seus maridos: eram agora escravas de um dono. A maior crueldade era que deixavam de ser mães das crianças pequenas que tinham, porque essas crianças eram simplesmente mortas, muitas vezes com a barbaridade de serem apanhadas pelos pés e atiradas com a cabeça contra paredes ou pedras.

Porquê? Porque os novos donos dessas mulheres agora escravas, segundo o código da sua masculinidade tóxica, não iam ficar com filhos de outros homens a seu cargo. As novas escravas iriam a partir de agora engravidar dos donos e criar esses filhos como escravos dele. Os filhos de gravidezes anteriores tinham de morrer.

No Salmo 137 (na Vulgata, Salmo 136), ouvimos os lamentos dilacerantes dos judeus deportados para a Babilónia. «Sôbolos rios que vão...» (como escreveu Camões; «Super flumina Babylonis», na lindíssima versão da Vulgata). O último versículo deste salmo é chocante: pois os judeus bendizem e consideram bem-aventurado o soldado que pegar nos filhos pequeninos dos babilónios e os esmagar contra as pedras.

A desculpa dos judeus é que foram eles próprios vítimas dessas atrocidades por parte de assírios e de babilónios. A culpa? Essa cabe inteiramente à masculinidade tóxica. Não há volta a dar.

Ontem celebrámos os 50 anos de Stonewall. Não se trata apenas de mudar as mentalidades em relação aos direitos LGBT. Trata-se também de pensar que podemos querer uma sociedade em que os valores do machismo patriarcal não têm de ser dominantes. No «Daily Telegraph» de hoje, um alto funcionário do Banco de Inglaterra culpa o excesso de testosterona nos mercados de capitais pelos crimes financeiros em que os grandes bancos do mundo ficam com buracos e com fraudes de biliões. Na opinião dele, devia haver mais mulheres a trabalhar nos mercados de capitais e nas bolsas de valor. Felizmente, hoje uma mulher - até para o Banco de Inglaterra - vale mais do que quatro bois. 

Frederico Lourenço, 2019-06-29
 

 
MASCULINIDADE TÓXICA
 
É a masculinidade tóxica enraizada no nosso caldo cultural que mata mulheres em números todos os anos insuportáveis, este ano a deixar-nos sem voz, em desespero e culpa coletiva.
Há várias masculinidades, mas continua a persistir a tal masculinidade tóxica, porque a sociedade ainda empodera – porque não desarma – os homens que na rua, no local de trabalho e em casa olham a mulher como o sexo neutro.
A mulher é o que os homens definiram ao longo da história: o seu papel, em casa, na rua ou mesmo numa estrutura organizativa não é um lugar de reclamação própria, mas um reflexo. Um reflexo, porque para a masculinidade tóxica as mulheres são – ainda que inconscientemente – propriedade, obedientes, recetoras menores de opiniões maiores, objetos sexuais, gente que se trata mal porque “homem é homem, é da natureza”. A masculinidade tóxica implica uma orgulhosa recusa de lidar com emoções, essa coisa de mulheres.
A masculinidade tóxica é apegada ao preconceito, é homofóbica, é misógina, odeia mulheres na proporção em que admira homens quanto a um mesmo comportamento. Isso é visível no duplo padrão em que ainda vivemos em matéria de liberdade sexual: por todo o lado as “putas” e os “garanhões”, essa dualidade.
A masculinidade tóxica bebe da moral religiosa bafienta muita da sua base para rebaixar as mulheres a destinatárias de uma moralidade própria. De resto, faz parte do caldo recusar direitos de maternidade a casais de lésbicas, por exemplo, que isto de ter filhos sem tutela masculina é a loucura.
É neste país que vivemos, onde nos corpos e na expressão da nossa inteligência somos alvos de sexismo e de misoginia. Não há nenhuma mulher que não saiba o que isto é. Umas saberão de graus maiores e outras de menores, mas todas sabemos o que é ser menos, não apenas nas relações interpessoais, mas em estruturas organizativas e na sociedade em geral.
Os juízes e as juízas não nascem em Marte, bebem deste caldo cultural, e se a advertência ao Juiz Neto Moura soube a pouco – obviamente não devia ser juiz -, a verdade é que nos mexemos, ouvimos de nós a condescendência tóxica habitual enquanto exigíamos uma tomada de posição do CSMJ, mas pela primeira vez todas e todos os juízes prontos a pôr de lado a laicidade do estado e a igualdade de género estão advertidos.
Talvez a masculinidade tóxica que afirma a igualdade em abstrato, mas dá cabo de nós quando combatemos as causas profundas deste caldo cultural, pense duas vezes daqui para a frente antes de enxovalhar quem recusa livrinhos escolares diferenciados por sexo ou quem reclama pela liberdade das crianças na escolha dos seus brinquedos.
Talvez, perante nove mulheres mortas neste início do ano, as pessoas que dizem “feminismo, mas”, as pessoas que dizem “ah, mas há homens que também são vítimas”, percebam que não há um fenómeno social de homicídio conjugal de homens em contexto de violência doméstica. Há homens vítimas de violência doméstica, e ela tem de ser combatida, mas a expressão monstruosa da violência dos homens exercida sobre as mulheres não tem simetria possível – daí ser fenómeno -, e não há correspondente masculino para a palavra “femicídio”.
Não há um caldo cultural que leve as mulheres a estruturarem o que é um homem, pronto.
Temos uma boa lei.
Está a ser feito um investimento crescente na Rede nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica, bem como nos protocolos de proximidade e na formação específica dos vários intervenientes.
Fundamental é a aposta, desde 2017, na estratégia nacional de educação para a cidadania.
Porque o objetivo é mesmo zero mortes, zero casas de abrigo (por desnecessidade): isto implica uma aposta feroz na mudança de mentalidades. Acabar com a masculinidade tóxica com a ajuda de homens e mulheres que querem, mesmo, sem adversativas, para bem de todos, o fim desta insuportável subjugação das mulheres.
 
Isabel Moreira, Expresso, 2019-02-16
https://expresso.pt/blogues/blogue_contrasemantica/2019-02-16-Masculinidade-toxica
 

domingo, 22 de setembro de 2019

Rapazes e ballet: o preconceito interno



Hoje, dei-me conta de uma tempestade no Instagram, onde sigo muitas personalidades internacionais do mundo do ballet (que é, como sabem os que me lêem, uma das minhas grandes paixões). Num programa televisivo nos EUA, alguém referiu de forma trocista o facto de o Príncipe George (filho de William e Kate) estar a ter aulas de ballet.

Todos sabemos o que está por trás dessa troça: a convicção, ainda mantida por tanta gente em 2019, de que os meninos que aprendem ballet desaprendem a sua «correcta» identidade heterossexual. Ballet - segundo esse estereótipo - é só para meninas e para gays. Pior: o ballet torna os meninos gays.

A ideia por trás desta paranóia é algo que nunca me deixa de surpreender: no fundo, no inconsciente de tanta gente, a homossexualidade masculina parece ser um chamamento tão aliciante que, se um rapaz não for daí desviado, inevitavelmente por aí enveredará. Para isso parece servir o futebol e os outros desportos; para isso parece servir a educação dos pais, que têm de incutir comportamentos certos de masculinidade. Por isso o ballet é um problema.

Porque é um problema - continua a ser um problema em 2019 - quando um rapaz decide que quer aprender ballet.

Há bailarinos gays? Há.

Há bailarinos héteros? Há. (Hoje, se calhar, até são a maioria.)

A realidade profissional do ballet mostra-nos que os bailarinos se dividem, tal como o resto da Humanidade, em heterossexuais, homossexuais, bissexuais etc. Não é uma questão que tenha a ver com o ballet em si. Sempre houve os gays como Nureyev; sempre houve os héteros como Baryshnikov; e sempre será assim.

No entanto, é fácil sentirmos pena dos héteros, pelo modo como nunca se livram da fama/suspeita: ainda me lembro da primeira vez que ouvi o nome Mikhail Baryshnikov nos anos 70 e como a pessoa que o mencionou (a professora de ballet da minha irmã) disse que ele fingia ser um grande conquistador de mulheres (que conceito de heterossexualidade, «by the way»...), mas na verdade era um gay encapotado.

Quantos e quantos bailarinos héteros não têm sofrido desse estigma de que a sua heterossexualidade é uma capa para esconder outra coisa? E quantos hoje em dia não sobre-compensam com a projecção de uma imagem de macho que quase se torna caricata? Enchem o seu Instagram com fotos de desportos «machos» (futebol, basquete, etc.), com carros de alta velocidade, com motos, com surf - com tudo o que possa desfazer a imagem convencionalmente associada a um homem que dança ballet.

Mas há aqui, a meu ver, uma homofobia subjacente que me incomoda. Tal como me incomoda o argumento das pessoas que querem defender o direito dos meninos a fazer ballet, dizendo que é uma actividade muito «masculina» e muito «atlética». Irrita-me sempre ouvir que «é preciso muita força, é preciso muito músculo», para saltar, para levantar as bailarinas, etc.

O argumento parece ser que, contrariamente ao suposto preconceito, o ballet masculino é, na verdade, algo de intrinsecamente heterossexual. Só porque a sua prática exige o atletismo e a força que, segundo esse ponto de vista, é garantia de heterossexualidade. Como se um homossexual não pudesse ser detentor de tais qualidades: atletismo e força.

Por isso, por muito que eu me solidarize com o bullying a que rapazes e homens heterossexuais são sujeitos por fazerem ballet, não posso deixar de me solidarizar ainda mais com os bailarinos gays.

Pois estes não só sofrem bullying da parte dos preconceituosos e ignorantes fora do universo do ballet. Sofrem bullying cada vez que alguém, no interior do mundo do ballet, vem a público dizer que o facto de um rapaz ou homem dançar ballet «não é o que as pessoas pensam», porque é algo de «muito másculo» e de «muito atlético».

Como se «muito másculo» é «muito atlético» fossem expressões antónimas de «gay».

O que este discurso quer dizer - o que a sobre-compensação dos bailarinos héteros projectando caricatamente imagem de macho quer dizer - é que, dentro do próprio mundo do ballet, o preconceito contra o bailarino gay (ainda) existe.

Frederico Lourenço, 2019-08-23

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Um bloco de atividades para rapazes e outro para meninas

- polémica -
 

 
 

Parecer Técnico da CIG relativo aos conteúdos dos Blocos de Atividades da Porto Editora

 
 
Lisboa, 23 de agosto de 2017 
 
 
Assunto: Parecer Técnico sobre os conteúdos dos Blocos de Atividades para Rapazes e para Meninas dos 4 aos 6 anos - Porto Editora (2016) 
 
1. Enquadramento 
 
O princípio da igualdade é um princípio fundamental da Constituição da República Portuguesa de 1976. Revisões posteriores reforçaram alguns aspetos desse princípio, em particular a revisão de 1997 (Lei Constitucional n.º 1/97, de 20 de setembro) e a revisão de 2005 (Lei Constitucional n.º 1/2005, de 12 de agosto). 
  • Artigo 9.º: São tarefas fundamentais do Estado, entre outras, a promoção da igualdade entre homens e mulheres.
  • Artigo 13.º: Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual. 
 
A Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) é o organismo nacional responsável pela promoção e defesa da igualdade entre mulheres e homens, procurando responder às profundas alterações sociais e políticas da sociedade em matéria de cidadania e igualdade de género. Assim, é o organismo responsável por garantir a execução das políticas públicas no domínio da cidadania, da promoção e defesa da igualdade de género e do combate à violência doméstica e de género e ao tráfico de seres humanos, cabendo-lhe a coordenação dos respetivos instrumentos - os Planos Nacionais. 
 
 De entre as atribuições da CIG, sublinham-se: 
  • Promover a educação para a cidadania e a realização de ações tendentes à tomada de consciência cívica relativamente à identificação das situações de discriminação e das formas de erradicação das mesmas; 

  • Elaborar recomendações gerais relativas a boas práticas de promoção de igualdade de género, designadamente ao nível da publicidade, do funcionamento de estruturas educativas, de formação e da organização da trabalho no sector público e privado, bem como atestar a conformidade com essas boas práticas; 

  • Receber queixas relativas a situações de discriminação ou de violência com base no género e apresentá-las, sendo caso disso, através da emissão de pareceres e recomendações, junto das autoridades competentes ou das entidades envolvidas. 
 
Nota ‑ Seguem ainda, em anexo, algumas recomendações de organismos internacionais que vinculam o Estado português.
 
 
2. Análise técnica dos Blocos de Atividades para "Rapazes" e para "Meninas" (Porto Editora, 2016) 
 
 
Alguns conceitos base  
(In Guião de Educação Género e Cidadania- Pré-escolar, CIG, 2015. Ver também Madeline Heilman (2001) e Conceição Nogueira e Luísa Saavedra (2007), citados na mesma obra.)
 
Sexo: o termo sexo é usado para distinguir os indivíduos com base na sua pertença a uma das categorias biológicas: sexo feminino e sexo masculino (página 12). 
 
Género: o termo género é usado para descrever inferências e significações atribuídas aos indivíduos a partir do conhecimento da sua categoria sexual de pertença. Trata-se, neste caso, da construção de categorias sociais decorrentes das diferenças anatómicas e fisiológicas (página 12).
 
Assim, o termo sexo pertence ao domínio da biologia e o conceito de género inscreve-se no domínio da cultura e remete para a construção de significados sociais. 
 
Estereótipos de género: os estereótipos constituem conjuntos bem organizados de crenças acerca das características das pessoas que pertencem a um grupo particular. Os estereótipos de género (mais do que qualquer outro tipo de estereótipos), apresentam um forte poder normativo, na medida em que (...) consubstanciam uma visão prescritiva, (...) dos comportamentos (papéis de género) que ambos os sexos deverão exibir (página 26). 
 
A nossa análise incidiu sobre as seguintes questões: 
 
a) Reforço da Segregação de Género:
 
A primeira reflexão sobre estes blocos prende-se com a própria existência de dois blocos, um para o sexo masculino, outro para o sexo feminino, ambos para o mesmo grupo etário (4 a 6 anos). Desde logo, esta segregação não permite que as meninas tenham acesso às atividades que são propostas para os rapazes, e vice-versa, reforçando assim as mensagens que são transmitidas a cada um dos sexos.
 
Por outro lado, reforça-se ainda a segregação quando o bloco dos meninos não prevê interação com meninas e vice-versa. 
 
Parecer: Esta segregação contraria o princípio de igualdade de oportunidades independentemente do sexo a que se pertence.
 
Recomendação: As atividades deverão estar contidas num único bloco de atividades para meninas e meninos dos 4-6 anos, tal como acontece no sistema de ensino em que os manuais são comuns para meninas e meninos em cada grau de escolaridade, permitindo a umas e a outros experimentar todas as possibilidades que a realidade oferece, para assim poder fazer as suas escolhas de forma livre e informada. 
 
 
b) Reforço dos Estereótipos de Género: 
 
Muito embora as atividades propostas sejam, aparentemente, semelhantes, as ilustrações apresentadas diferem consoante o sexo a que se dirigem, reforçando os estereótipos de género. A escolha diferenciada do tipo de atividades a desenvolver por meninas e meninos, constitui uma mensagem clara de reforço de papéis de género estereotipados, contrariando os objetivos de eliminação gradual dos estereótipos sociais de género que pré-definem o que é suposto ser e fazer um rapaz e uma rapariga, condicionando, no futuro, as suas opções pessoais e profissionais.
 
A título de exemplo, refira-se: 
  • As capas, para além das cores diferentes (azul para "Rapazes" e cor-de-rosa para "Meninas") apresentam diferentes imagens que nos remetem para diferentes tipos de atividades, além de se referirem a eles por "rapazes" e a elas por "meninas". As dos meninos mais pragmáticas e de realização no exterior/espaço público (bolas, foguetões, carros, barcos, berlindes), as das meninas mais recatadas, viradas para o interior/espaço privado (bolos, adornos, bonecas, peluches). 

  • logo na primeira atividade, em que se pretende reconhecer e identificar a vogal A, a situação retratada na publicação dirigida aos meninos remete para atividades no exterior (campo, árvore, ancinho, águia, etc.), enquanto na publicação dirigida às meninas surgem cinco objetos todos eles ligados a atividades domésticas (leite, manteiga, iogurte, alface e maçã). 

  • uma atividade, em que se pretende reconhecer e identificar conceitos (triste e feliz), em que às meninas se propõe encontrar a sua boneca perdida no parque, e ao menino se propõe encontrar a escavadora com que brincava; 

  • uma outra atividade, destinada a desenvolver a motricidade fina e a coordenação oculomotora, às meninas propõe-se que pintem as unhas da mão apresentada no bloco (como faz a mãe), enquanto para os meninos é proposto que pintem um barco de piratas; 

  • uma outra atividade, destinada a promover a atenção e a concentração, (...) e identificar conceitos: de frente e de costas, as meninas são convidadas a pintar a imagem de um bailado a que terão ido assistir, e que é composto apenas por meninas bailarinas; no caso dos meninos devem pintar os jogadores de um jogo de futebol a que foram assistir com o pai; 

  • ou, ainda, outra atividade destinada a reconhecer e organizar uma sequência lógica-temporal, em que às meninas se propõe ajudar a mãe a preparar o lanche, e aos meninos que ordenem imagens de um cientista a construir um robô.
De sublinhar que ao longo de todas as propostas contidas nos Blocos de Atividades, a própria imagem dos meninos e das meninas que acompanham as legendas das atividades reforça os estereótipos de "passividade/recato" das meninas por oposição a "ação e movimento físico" dos meninos; 
 
Parecer: A escolha deste tipo de imagens diferenciadas para meninas e para meninos acentua estereótipos de género que estão na base de desigualdades profundas dos papéis sociais das mulheres e dos homens na nossa sociedade, contrariando o princípio de igualdade de tratamento e não discriminação entre mulheres e homens. 
 
Recomendação: a revisão dos conteúdos deverá garantir que as imagens veiculadas nas atividades, não reproduzem estereótipos de género discriminatórios. Por exemplo uma só atividade poderá incluir meninas e meninos a pintarem um barco. 
 
 
c) Diferenciação por sexo do grau de dificuldade das atividades: 
 
As publicações apresentam ainda diferentes graus de dificuldade em algumas das atividades propostas para meninas e meninos. Da nossa análise resulta que, do total das atividades propostas, 6 têm resolução mais difícil no Bloco de Atividades para meninos, enquanto apenas 3 têm resolução mais difícil no Bloco de Atividades das meninas. 
 
A título de exemplo: 
  • numa atividade em que se pretende que identifiquem quadrados de tamanhos diferentes, aos meninos é-lhes mostrado um conjunto de 16, enquanto que às meninas são apresentados apenas 6 quadrados; 

  • de referir, igualmente, uma atividade em que é pedida a distinção entre lápis e canetas, em que no caso dos meninos se encontram espalhados e misturados, e no caso das meninas estão já separados e arrumados em diferentes estojos; 

  • isto, além dos exemplos amplamente divulgados nas redes sociais e na comunicação social, do diferente grau de dificuldade dos labirintos apresentados nas atividades. 
 
Parecer: O facto de haver um maior número de atividades com maior grau de dificuldade no Bloco de Atividades para meninos poderá reforçar a ideia de que há desigualdade nas capacidades cognitivas de meninos e meninas. 
 
Recomendação: Que se adote apenas 1 Bloco de Atividades para crianças dos 4-6 anos para que todas possam praticar todos os exercícios de igual forma. 
 
A Presidente
 
Teresa Fragoso 
 

 
Anexo
 
Algumas Orientações de Organismos Internacionais que vinculam o Estado português: 
 
 
Organização das Nações Unidas: 
 
De acordo com a Plataforma de Ação de Pequim, os Governos devem incentivar e apoiar devidamente as organizações nos seus esforços para promover mudanças nas atitudes e práticas negativas para com as raparigas; desenvolver e adotar curricula, materiais didáticos e livros escolares que ajudem a melhorar a autoimagem das raparigas, a sua vida e as suas oportunidades de emprego particularmente nas áreas onde as mulheres têm estado tradicionalmente sub-representadas; e encorajar as instituições educativas e os media para que adotem e projetem uma imagem equilibrada e não estereotipada das raparigas e dos rapazes.
 
 
A Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheres {CEDAW) estabelece, no seu artigo 10.º que os Estados partes devem tomar todas as medidas apropriadas para a eliminação de qualquer conceção estereotipada dos papéis dos homens e das mulheres. 
 
 
Parlamento Europeu:
 
A Resolução sobre a eliminação dos estereótipos de género na União Europeia refere que os papéis tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres e os estereótipos de género continuam a influenciar fortemente a divisão dos papéis entre mulheres e homens no espaço doméstico, no local de trabalho e na sociedade em geral, sendo as mulheres frequentemente representadas como as pessoas que cuidam da casa e dos filhos/as, enquanto os homens são representados como as pessoas que trazem dinheiro e que protegem; refere ainda que os estereótipos de género tendem a perpetuar o status quo dos obstáculos herdados à consecução da igualdade entre homens e mulheres e a limitar o leque de opções de desenvolvimento pessoal e profissional das mulheres, impedindo-as de concretizar plenamente todas as suas potencialidades, enquanto indivíduos e agentes económicos, e constituindo, por conseguinte, fortes obstáculos à consecução da igualdade entre mulheres e homens; insiste na importância de promover a igualdade entre as mulheres e os homens desde a infância para lutar eficazmente contra os estereótipos; e Realça a necessidade de elaborar políticas que coloquem a tónica na desconstrução dos estereótipos de género desde a mais tenra idade.
 
 
Exemplo de materiais pedagógicos promotores de igualdade de género no pré-escolar: 
 
Para cumprimento da sua missão, a CIG editou os Guiões de Educação, Género e Cidadania, para todos os níveis de ensino que são instrumentos de apoio à integração das questões de género nas práticas educativas, com vista à eliminação dos estereótipos de género que predefinem o que é suposto um rapaz e uma rapariga fazerem. 
 
Face ao impacto deste Guiões no sistema educativo, a Comissão Europeia Instituto Europeu para a Igualdade de Género - considerou-os, em 2012, como uma Boa prática: 
 
 

 
 
Ricardo Araújo Pereira comprou os livros “para miúdos espertos e miúdas estúpidas”
TVI, 27-08-2017




Humorista arrasa a polémica da última semana com os blocos de atividades da Porto Editora e a opção do Governo em recomendar a retirada destes do mercado.



menino*menina




Truques pró menino e prá menina
Francisco Louçã, 29-08-2017

O [...] truque é o “deita-me poeira para os olhos”. É o caso dos “meninos e meninas”, que se tornou tema favorito da brigada neoconservadora e dos trumpificadores.




 Reconheço que o governo permitiu desastradamente a politização desse conflito com uma editora e não tenho nenhuma simpatia pela ideia de uma norma que defina livros aconselháveis. Mas a questão de saber se livros que apresentam os meninos como garbosos candidatos à aventura de piratas e as meninas como nenúfares caminhando para rainhas convêm aos nossos filhos, essa sim, diz mais sobre os pais do que sobre os filhos.




O PÚBLICO resumia assim os livros: “No conjunto das 62 actividades propostas, existem seis cuja resolução é mais difícil no livro dos rapazes e três que apresentam um grau de dificuldade superior no das meninas. Mas a maior parte das actividades reproduzem uma série de velhos estereótipos. Apenas alguns exemplos: eles brincam com dinossauros, com carrinhos e vão ao futebol, enquanto elas brincam com novelos de lã, ajudam as mães e vão ao ballet; eles pintam piratas, elas desenham princesas”.




O que é que se lê nos trumpificadores? Escândalo, as meninas até aparecem melhor tratadas do que os rapazes. Não percebo bem como é que essa distinção entusiasma esses pais (querem os filhos mal tratados?) e justifica que diferença de tratamento (acham que as meninas sonham e os meninos fazem?). Mas tenho um conselho para lhes dar: se pensam que as vossas filhas vão ser felizes com vestidos de princesas preparem-se para um choque. Elas vão querer mesmo ter uma profissão e uma vida.