quarta-feira, 15 de junho de 2016

Eu fui Charlie e não sou gay?




 
Se na morte dos cartoonistas do Charlie Hebdo esteve em causa a liberdade de expressão seria normal que na matança do Pulse estivesse em causa a homofobia. Mas, estranhamente, o carácter homofóbico do ataque quase foi expulso do debate político norte-americano. É um pormenor, um facto que não mereceu grande reflexão política. O ódio de Omar Mateen aos homossexuais foi antes substituído pelo ódio de Donald Trump aos muçulmanos. Para a direita norte-americana, o problema é a existência de muçulmanos no seu território. Para a esquerda é a facilidade em obter armas. Desta vez, poucos parecem querer dizer que eles somos nós. Porque para isso era preciso que muitos dos que gostam de alardear os “valores ocidentais” vencessem a sua agressiva homofobia. Quando um colunista do The New York Times escreveu que Omar Mateen pode ter dado a vitória a Trump enganou-se. Trump nunca poderiam ter gritado “I’m gay” como gritaria “Je suis Charlie”. Foram os media que tornaram quase irrelevante a motivação deste atentado, permitindo que um homofóbico usasse o sangue dos homossexuais para juntar o seu ódio aos gays ao seu ódio aos muçulmanos. Assim, o ódio está sempre a facturar .
 
Dizia-me, hás uns anos, uma ativista lésbica israelita de Haifa: “O ódio que separa palestinianos e israelitas teve um momento de paz: quando se tentou fazer uma marcha do orgulho gay em Jerusalém. Só uma coisa une os rabis e os mulás em Jerusalém: o ódio aos homossexuais. Todos devem isto à comunidade LGBT: criou um ponto de convergência em entre gente que em tudo o resto se odeia.” A homofobia é o mais poderoso dos ódios. Mais do que o racismo ou do que o preconceito social. Mais do que o ódio religioso ou do que o machismo (apesar de ser seu parente próximo). Porque ele lida com os mais profundos dos nossos medos e as mais inquietantes das nossas inseguranças.
A coisa mais falsa de todas as falsidades que se dizem e escrevem quando se dizem e escrevem quando se desenha o retrato do “ocidente” é a ideia de que, ao contrário de outros, somos maioritariamente tolerantes com a homossexualidade. Não somos. E o muito que conquistámos, depois de décadas de batalhas perdidas e vítimas que sofrem em silêncio, não o conquistámos graças à nossa matriz cristã. Conquistámos contra ela, retirando às igrejas o poder e construindo estados laicos.
[...]
Daniel Oliveira, Expresso, 2016-06-14
 
 

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Não sou Orlando, sou LGBT

Orlando não foi o alvo principal. O alvo principal é o mesmo alvo de quando chamas paneleiro ao teu colega, “contra-natura” ao teu filho ou à tua neta; o mesmo alvo de quando insultas um casal de mulheres na rua; é o alvo de quando achas que “homossexuais está bem, mas bichas é que não”
 
Texto de Ricardo Gouveia • 14/06/2016 - 12:43
 
Foi, alegadamente, o tiroteio mais mortífero da história dos Estados Unidos, onde a violência armada é uma realidade brutal. De acordo com as organizações Gun Violence Archive e Mass Shooting Tracker, ao 164.º dia do ano de 2016, 207 pessoas tinham sido mortalmente feridas, em cerca de 176 tiroteios, 133 destes considerados “em massa”. 
Podemos, para já, abster-nos de comentar a política absurda dos EUA a respeito da posse de arma, para nos focarmos no seguinte: o tiroteio mais mortífero da história de um país campeão em tiroteios foi direccionado a pessoas LGBT, tendo sido também o maior massacre de ódio direccionado a pessoas LGBT desde o nazismo. 
Após o choque, a tristeza, a revolta e a frustração, importa fazer algumas reflexões. 
Domingo à noite, no canal "Sky News", em Inglaterra, o jornalista do "Guardian", Owen Jones, assumidamente gay, abandonou o estúdio durante o comentário político que nessa estação se fazia acerca do massacre, após o moderador e a sua colega de painel terem insistido que este era um crime, “contra pessoas que se queriam divertir, como no Bataclan”. Não há mortes mais graves que outras, é certo; mas os crimes não são todos iguais. Este foi um ataque a pessoas LGBT, um ataque homo-bi-transfóbico. É, portanto, um crime de ódio, e o crime de ódio tem, nos Estados Unidos, como em Portugal e em tantos outros países do mundo, um enquadramento legal específico. Porquê? Porque a motivação do crime não nasce nem morre com a organização ou indivíduo criminoso, correspondendo a um fenómeno de preconceito que se revela nos maiores, mas também nos mais aparentemente insignificantes actos de violência. Porque ele é dirigido a quem já sente o ódio no seu dia-a-dia. Porque ele se integra num ciclo de violência e de discriminação que é permanente: nos gestos e nas palavras, nas famílias e nas escolas, no trabalho, na doença e na rua. Porque ele afecta as pessoas que não foram mortalmente vitimadas como em nenhum outro crime: incute-nos o medo, inibe o exercício da nossa liberdade, aumenta um terror que conhecemos bem, afecta-nos a todos e a todas que pertencemos ao grupo social ao qual é dirigido o ataque. Porque "'terrorismo direccionado a pessoas LGBT' é uma redundância” por si só. 
Importa fazer referência ao espaço onde decorre o ataque. Bem sei que há por aí muito boa gente, de esquerda até, que não compreende o porquê e para quê de espaços culturais ou recreativos direccionados a pessoas LGBT. Que fique claro: é por isto. Se és gay, lésbica, bissexual, trans, queer, sabes o que é avaliar, em todos os lugares onde vais, se estás seguro, se estás a salvo, se corres risco de ser insultada, desprezada e agredida; já te coibiste de expressar um simples afecto ou carinho; já tiveste medo de parecer demasiado bicha ou demasiado fufa. Se és LGBT, sabes que há espaços onde te sentes mais seguro, protegido, menos sozinha, mais respeitada e livre de seres como és. Foi num destes lugares que ocorreu o massacre, em Orlando. Num espaço seguro, de gente como nós, com quem rimos e dançamos longe de quem nos julga e inclusive, que confiamos que nos irá proteger se a homo-bi-transfobia ali entrar; sentimos, embora sempre com contornos diferentes, o mesmo perigo iminente que espreita lá fora. Por tudo isto, hoje sentimos um medo acrescido. 
Há cerca de um ano, celebrava-se a conquista da igualdade no acesso ao casamento, nos Estados Unidos. Muitas e muitos de nós acrescentámos um filtro arco-íris à nossa fotografia de perfil, celebrando, assim, o fim de uma discriminação legal. Um ano depois, choramos a morte de mais de 50 pessoas LGBT no seu espaço seguro. Por essenciais que sejam as alterações legais, pela esperança e o alento que transmitem, quase tanto como pela mudança efectiva nas vidas das pessoas, é importante perceber que esse é o mínimo dos mínimos, é o princípio da nossa luta. O resto está por fazer, estamos cá para isso. 
Não sou Orlando. Orlando não foi o alvo principal. O alvo principal é o mesmo alvo de quando chamas paneleiro ao teu colega, “contra-natura” ao teu filho ou à tua neta; o mesmo alvo de quando insultas um casal de mulheres na rua; é o alvo de quando achas que “homossexuais está bem, mas bichas é que não”, ou “façam a vossa vida mas longe de mim”. É a versão terrorista de um terror que se sente todos os dias. É fácil ser-se Orlando ou rezar por Orlando, mas não é isso que está em causa. E ser-se lésbica, gay, bissexual, trans, queer, intersexo ou assexual? Quantos de nós estão dispostos a ser LGBT, contra a violência e o ódio? 
Se és LGBT, pelo fim da violência e do ódio perpetrado contra pessoas LGBT, vem marchar connosco este sábado, dia 18 de Junho, às 17h, no Príncipe Real, em Lisboa. Vem continuar uma luta que não se esgota na lei, que quer sempre mais, que se chama Orgulho porque ele é o único escudo que nos permite unir e organizar contra o medo, a vergonha e a violência.
 
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Há uns tempos um amigo perguntava-me: "o que é isso de ser figura pública? Já se qualificam como figuras públicas, as meninas apanhadas a fazer amor no Main?"
Dificilmente. Por mais que já se lhes conheça alguns ângulos mortos.
Conheço pessoas que dizem ser "figura pública por profissão". Ou seja, existem, respiram, de forma... Pública. O seu trabalho é esse: oxigenar o sangue à frente dos outros.
Tudo bem. Cada um respira como quer. Menos aqueles que acabam mortos por não respirarem como é suposto.
E não estou aqui a fazer uma graça com asmáticos. Morreram 50 pessoas em Orlando - terra da Disney - que ousaram ser quem são dentro de um local que imaginavam seguro.
No fundo, respiravam. Lá na vida deles. Ligeiramente entrincheirados numa discoteca lá "deles".
Para sempre "meio entrincheirados".
Porque é sempre assim, não é? Morreram "aqueles". Aqueles sírios. Aqueles turcos. Aquelas nigerianas raptadas e violadas pelo Boko Haram. Aqueles paneleiros que quiseram abanar-se ao som de Ariana Grande.
Não digo paneleiros para chocar. Digo-o porque as palavras têm vida; memória. Digo-o porque esses paneleiros são iguais a ti que estás a ler isto.
E são completamente iguais a mim; são pessoas.
Por circunstâncias escolhidas e herdadas, sou uma figura pública - por mais que o termo me faça rir.
Contudo, não desconto no IRS com croquetes e não apareço muitas vezes nas revistas que acabam esquecidas em salas de espera. Esse não é o meu trabalho.
O meu trabalho é público. Seja na televisão, ou na rádio, mas gosto de pensar que existe para promover discussão.
É por isso que escolho ter o desplante de falar disto às quase 60 mil pessoas que seguem esta página.
Coincide gostar de homens. Mas gosto mais de que toda a gente possa ser o que quiser, onde quiser, de que forma quiser, sem esperar um balázio na testa.
Não me parece pedir muito.
E eles não pediram muito. Quiseram só estar à vontade.
Não quero pôr um # a trendar.
Quero só que penses como, ao fomentar o ódio, vamos todos parar ao mesmo forno.
É só uma questão de tempo.
Não rezes por Orlando. Trata só os outros com o respeito que gostarias que tivessem por ti.
 
Rui M Pêgo, Facebook, 13/6 às 13:32


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Archbishops issue joint statement in response to Orlando shootings

Monday 13th June 2016
Archbishops of Canterbury and York call for solidarity with LGBTI people after the attack in Orlando. 

"After Sunday’s attack in Orlando as Christians we must speak out in support of LGBTI people, who have become the latest group to be so brutally targeted by the forces of evil. We must pray, weep with those affected, support the bereaved, and love without qualification.
"The obligation to object to these acts of persecution, and to support those LGBTI people who are wickedly and cruelly killed and wounded, bereaved and traumatised, whether in Orlando or elsewhere, is an absolute call on our Christian discipleship. It arises from the unshakeable certainty of the gracious love of God for every human being.
"Now, in this time of heartbreak and grief, is a time for solidarity. May God our Father give grace and comfort to all who mourn, and divine compassion to us all."
http://www.archbishopofcanterbury.org/articles.php/5735/archbishops-issue-joint-statement-in-response-to-orlando-shootings

 
 
 
Um facto incontornável que cristãos e simpatizantes do cristianismo têm de enfrentar é a circunstância de o cânon de textos que constitui o Novo Testamento conter afirmações claríssimas da mais óbvia homofobia. Estamos todas e todos em estado de choque com o que aconteceu em Orlando. Mas vivemos num país de tradição católica, religião fundada numa Escritura que afirma sem lugar para dúvidas que os homossexuais são "merecedores de morte" (Romanos 1:32).
Chocamo-nos com o horrendo Estado Islâmico a atirar gays dos prédios, mas esquecemo-nos que a literatura religiosa dos primeiros séculos do cristianismo afirmava a seguinte punição depois da morte para homossexuais de ambos os sexos: serem perpetuamente atirados de altos rochedos, de forma contínua, incessante (Apocalipse de Pedro).
A escritura cristã canónica é homofóbica; a apócrifa também. O apócrifo Evangelho de Judas tem tiradas homofóbicas, não menos que a epistolografia de Paulo (tanto a autêntica como a que foi falsificada em nome do apóstolo).
O cristianismo precisa de uma reflexão profunda sobre o seu papel, ao longo dos séculos, no incremento da homofobia na sociedade ocidental. Não culpem o islão, por favor. O cristianismo não é diferente.
Ou tem uma diferença: Jesus. 
E tem a graça de, pelo menos nos 4 evangelhos canónicos, estarmos perante textos religiosos livres de homofobia.
 
 
 

 


 
Ontem aconteceu Orlando de outra maneira. Ontem, não foi notícia o Disneyworld. Não quero abusar das palavras, mas não consigo seguir como se nada tivesse acontecido. Choca-me a brutidade daquela matança. Choca-me todo o tipo de estupidez, mas aquela que procura fundamentação religiosa ainda me escandaliza mais. Choca-me o extremismo islâmico e todos os outros tipos de extremismo religioso, coisa que os EUA conhecem tão bem e alimentam também tão ferozmente. A desumanidade é um enigma que não decifro inteiramente. 

Depois da brutidade e da matança, vem a imbecilidade, em onda, como réplicas daquele primeiro impacto, vergonhosas réplicas de ódio e maldade. E isto, confesso, acho que ainda me fere mais. Porque explico melhor a brutidade de uma pessoa que faz aquilo do que as reacções de milhares de pessoas nas redes sociais que confirmam o terror e batem palmas. É como uma onda imbecil, igualmente desumana. 


Para uns, o inimigo é o islão; para outros, o inimigo são os gays. Quando perceberemos que o inimigo, afinal, está dentro de nós, e é um monstro mesquinho e preconceituoso, que alimentamos com doses generosas de ignorância e medo? 


Às vezes faz-nos falta saber donde vêm as palavras. Fobia vem do grego "fobos", que significa medo, pânico. Islamofobia, Homofobia, e qualquer outra fobia, é uma criação do medo. É uma cedência ao medo. E poucas coisas nos fazem ser mais terríveis e impiedosos do que o medo diante do desconhecido. É às escuras que desferimos os nossos golpes mais mortais. Quando estamos às cegas, brandimos as espadas e as lanças com um vigor tão desordenado que nos torna perigosamente mortais. 


É de medo que falamos. Dos medos que nos habitam, das fobias que nos dominam e nos levam à impiedade. E, acima de tudo, dos monstros - também dentro de nós! - que estes medos alimentam e que acabam por fazer tanto mal. 


E, como resposta de um crente em Deus, o Misericordioso, ao homem que fez a matança naquela discoteca, e a todos os que conseguem arranjar argumentos para aplaudir um pecado tão grave, partilho de novo uma reflexão que fiz para a homilia há umas semanas. Um apontamento sobre a homofobia, e o que Jesus disse sobre isso. Publiquei na página "Plano B" no facebook, mas volto a pôr aqui o texto, comentário ao texto evangélico em que um centurião romano manda pedir a Jesus que lhe cure um servo com quem ele vivia em intimidade (Lc 7, 1-10).

O homem era pagão. Não só pagão, mas romano. Não só romano, mas centurião. Está o cenário todo montado para que um Profeta lhe mande dar uma volta. Um chefe militar do império colonizador, e parece que tinha "um servo a quem estimava muito". Quer dizer, se vamos a traduzir mesmo o que está no original, a coisa em português fica assim: "que vivia na intimidade dele". A palavra grega que está traduzida por "estimava muito" é "entímos", origem do vocábulo "íntimo", em português. 

Ou seja: mais esta!


Entendamo-nos, então. Segundo a cultura militar romana, era proibido um centurião ser casado. Ter mulher e filhos seria uma dificuldade para o cargo militar que ocupava. Entretanto, tinha-se tornado comum e bem aceite que os centuriões tivessem junto de si jovens rapazes, como seus servos, com quem partilhavam a intimidade. Não podemos avaliar estas coisas segundo critérios da nossa cultura actual, evidentemente. Este costume era bem aceite, estava encaixado na estrutura militar, e em nada se assemelhava a predação sexual ou pederastia. Tempos. 

O que interessa aqui é percebermos quem é este centurião e o motivo pelo qual ele não quer que Jesus vá lá a casa. Se entre os romanos as relações homossexuais não levantavam nenhum problema moral, não era assim entre os judeus. A lei judaica era muito explícita na condenação à morte que mereciam todos os que fossem acusados de relações homossexuais. Era uma imoralidade gravíssima. 

Se parecia que a descrição daquele homem, a olhos judaicos, não podia piorar, fomos apanhados de surpresa. Pagão. Colono. Chefe militar. E imoral. 

Bem vindo ao admirável mundo de Jesus! 

Alguma coisa teria de muito especial este homem, porque os próprios anciãos de Cafarnaum intercedem por ele. Ou era muito generoso e sensível, ou era um diplomata hábil. Construir sinagoga para os judeus podia ser as duas coisas: generosidade ou técnica de colonização. Todos os impérios usam prendas para amansar quem têm pela rédea. Percebes porque se chamam "prendas"?...

O que é certo é que intercedem por ele, e Jesus sabia quem era e do que se tratava. E não encontramos na sua boca uma palavra de condenação, nem uma recusa. É admirável contemplarmos, nestas passadas dos evangelhos, o que não está lá. O que Jesus não disse. O que Jesus não fez. O que lá não está diz-nos muito do que Jesus é e da maneira como se posiciona diante das pessoas. 

Não só não o condena nem rejeita o seu recado, não só não o ignora nem vulgariza o seu sofrimento, como lhe dá um louvor. "Nunca vi tão grande fé, nem em Israel!" Jesus diz isto de um pagão, chefe militar dos colonizadores, que lhe mandou recado movido pelo amor que tinha àquele servo com quem vivia em intimidade. Nós que somos de vez em quando tão dados a homo e outras fobias, talvez precisássemos de conhecer os evangelhos um bocadinho melhor.  

Já agora: o louvor da Fé. A mim toca-me profundamente o motivo pelo qual Jesus louva a Fé daquele estrangeiro. Porque ele, o estrangeiro, intuiu qualquer coisa fundamental, e Jesus gostou disso. A Fé é Obediência. É por isso que a Fé daquele centurião é grande e boa e louvável, porque ele entende a Fé como Obediência: um diz, o outro faz; um manda, o outro obedece. 

É este carácter obediencial da Fé que nos falta tantas vezes! Perdemo-nos em devoções sem motivo nem porquê, deixamo-nos enganar facilmente por causa da ignorância da nossa Tradição e do desconhecimento das Escrituras, pensamos que a Fé se reduz a um sentimento ou a uma referência teórica a determinados valores universais, e foge-nos o essencial: ter Fé é Obedecer a Jesus Cristo.  

Ele diz, a gente faz.
Ele faz, a gente imita.
Ele pede, a gente alegra-se.
Ele gosta, a gente deseja. 

A sua paixão foi o Reino de Deus.
Ainda é.
Por outras palavras: que Deus mande!
Que a gente viva como Deus manda!
Manda quem pode. Obedece quem deve. 
 

Foi há pouquinho, apenas três versículos antes, neste evangelho de Lucas, que Jesus desabafou uma das suas queixas mais profundas: "Porque é que vocês me andam sempre a chamar 'Senhor, Senhor', mas não fazem o que eu mando?!" 

Grande era a Fé daquele homem. Foi isso que Jesus viu. Foi disso que Jesus falou. Foi com isso que Jesus se interessou. 

Indje
http://derrotarmontanhas.blogspot.pt/2016/06/sobre-orlando-sobre-fobias-e-um-texto.html
 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Pode um desejo imenso






Tinham chegado a uma espécie de pequena clareira, onde se encontrava o edifício redondo, de cor escura, a que Concha chamara a ermida. Na verdade, era uma das capelinhas que, da varanda com vista para o convento em casa dos Buissard Coutinho, se viam a subir o declive da serra, cada uma no seu degrau. Nuno olhou à sua volta. A vista: toda verde; toda azul.

– Sítio lindo – murmurou.

O silêncio. Como resposta ao aumento momentâneo do calor, as cigarras calaram por segundos as suas estridulações. Imóveis, os arvoredos em redor exalavam um perfume acre, ao mesmo tempo apetecível e repugnante: um aroma de esteva e de tomilho, onde parecia imiscuir-se um cheiro pungente a esperma e saliva. Sobreveio uma leve aragem. As cigarras retomaram o seu canto, agora num tom mais agudo, mais estridente que antes.

– Bom, vou entrar. – Concha dirigiu-se à porta da capelinha e remexeu na fechadura.

A porta abriu. Apenas o limiar transposto, Concha sumiu-se imediatamente na penumbra, na escuridão que, para quem tinha os olhos encandeados pela luz daquela manhã, formava uma cortina impenetrável. Por sua vez, Nuno também se aproximou da ermida, mas ficou à porta, indeciso se haveria ou não de entrar. Olhando para o interior, discernia-se vagamente uma decoração em azulejos. Nuno viu de repente uma coisa que o interessou e entrou na sombra fresca da capela.

Agora o calor, que ardia lá fora, já não passava de recordação. Mesmo o foco dourado, em que borboleteavam ínfimas poeiras, retinha do ar livre a luz, apenas; não o calor. E embora iluminasse a zona da parede que chamara a atenção de Nuno, esse feixe de luz nada subtraía à frescura dos azulejos. A frescura que, à guisa de bálsamo, já lhe acalmava o ardor dos arranhões nas mãos e nos braços.

SE ÉS CRISTO, SALVA-TE. A legenda escrita a azul, desgarrada do escárnio que lhe informava o contexto na Sagrada Escritura, parecia encerrar em cinco palavras tudo o que havia para dizer acerca de Deus, por um lado, e da condição humana, por outro; tanto se aplicava às chagas de Cristo como ao instrumentário da Paixão, que Nuno via representado nos azulejos à sua frente: lança, túnica, esponja. E, descendo do sobrenatural para o comezinho, as mesmas cinco palavras exprimiam, entendidas sob outro prisma, tudo o que havia a dizer acerca dos pequenos problemas por que, na solidão daquela serra (dentre todas montanha sagrada de eremitas e de poetas), estavam a passar uma mulher em “idade difícil”, com o marido há anos no Brasil e com o filho a perder-se algures em Lisboa; e um jovem que, ao tomar ali a decisão de largar tudo, se obrigava a assumir perante si mesmo que encerrara o capítulo das namoradas, que era capaz de ir contra os desejos dos pais, que ia ficar com uma fama de que, até morrer, nunca mais se livraria, que tinha a capacidade de arriscar tudo, de pôr a sua vida toda em causa em prol de um jovem como ele que lhe dissera repetidas vezes que era só amizade e que a componente de afectividade física não fazia daquela relação o amor que Nuno procurava.

Já mais habituado à escuridão, Nuno reparou, sem surpresa (pois os seus olhos também estavam marejados de lágrimas), que, em pé ao seu lado, diante do enorme Cristo crucificado que ocupava toda uma parede da ermida, Concha chorava com a cara enterrada nas mãos. Recalcando o medo de que ela o repelisse, Nuno atreveu-se a pôr-lhe a mão no ombro. Concha estendeu devagar o braço e colocou a mão sobre a mão de Nuno.

E sem fazer nada para impedir o choro – remédio de tanta coisa que ficava para trás... –, Nuno elevou os olhos e fitou o rosto ensanguentado da estátua pregada na cruz. Vieram-lhe ao espírito os versos do frade arrabidense em que sempre se revira: “luz sem luz, vida sem vida, sol sem curso”.

Isso fora a sua vida. Isso era o que ficava para trás. Doravante, o mote iria ser outro. “Menos contradição, mais clara vista”.

 

Frederico Lourenço, Pode um desejo imenso, Cotovia, 2006, 5ª edição, pp. 96-98

 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

É importante foder (ou não foder)?




 
 
É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.

 

O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d’ir urinar.

 

Isso eu o quis dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
“O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é
”Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por mim até).

 

Também aquela do “outrora-agora” e do “ah poder ser tu sendo eu
” foi um bom trabalho.
Para continuar tudo co’a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.
 

 

Mário Cesariny de Vasconcelos, O virgem Negra - Fernando Pessoa explicado às criancinhas Naturais e Estrangeiras, Assírio & Alvim, 1989

domingo, 12 de junho de 2016

INVEJA E COMPETIÇÃO




Quem já conviveu com uma pessoa perversa percebeu a presença constante da inveja e flagrante desejo de ter coisas que você tem; de ser você. Há uma inexplicável sensação diária de uma espécie de concorrência velada ao longo de toda a relação, nas mínimas coisas.

Pensando nisso, decidi compartilhar alguns exemplos de como eu vivi essa inveja e competição. Você tem histórias assim para contar?

Nos anos de convivência e até hoje, a pessoa perversa narcisista da minha trajetória tinha uma verdadeira obsessão por ter tudo o que eu tinha. O que não podia ter, fazia em modo que eu destruísse, vendesse ou perdesse.

Além disso, tratava rapidamente de minimizar minhas vitórias ou cobri-las com um comentário negativo, malicioso ou vitimista. Se fossem coisas, ele as desejava em silêncio. Jamais fazia menção a elas para elogiar, apenas para se lamentar por não tê-las ou sê-las.

Queria ter uma conta no banco em que eu tinha. Não sossegou enquanto eu não lhe consegui o "status". Precisava dos mesmos seguros, os mesmos investimentos, o mesmo gerente. Tudo. Ainda que eu minimizasse o fato dizendo que era reflexo de um cargo importante que eu ocupava antes de conhecê-lo, para ele, aquilo era uma afronta; uma diminuição de sua importância e precisava ser superada.

Falava com cólera dos países que queria conhecer. Argumentava amargurado: "Você rodou o mundo, agora é minha vez". Nunca tinha o espírito de "Que bom que conhece o mundo! Como foi a trabalho, vamos viajar de novo, para vermos tudo juntos, agora de férias!?". Não. Ao invés disso tinha rancor.

Parecia que eu tinha uma dívida com ele por ter feito coisas que ele não tinha feito. Queria ter um carro de uma certa marca alemã que eu tive. Vitimizava-se: "Você já teve a sua XXX, agora é minha vez!" Quando conseguiu, depois de 2 anos de contato zero, mandou me avisar, como se me importasse que carro alguém dirige ou deixa de dirigir.

Eu, que com perverso aprendi a por para fora a minha reserva adquirida de veneno, para sacanear, perguntei:

Ah é? E ele já comprou os pneus? A pessoa ficou surpresa e perguntou: Como sabe que comprou pneus???

Respondi na lata: "Porque mesquinho como é e com o exclusivo desejo de imitar e não de ter o que realmente gosta e pode ter, não teria tido coragem de comprar uma zero km. Diga-lhe que fiz esse comentário."

Não sei o desfecho, mas desistiu de me mandar recados...

Quando eu tinha uma ideia boa, diante dos amigos ele dizia que "nós" tínhamos tido aquela ideia. Longe deles, a ideia merecia críticas, desmotivação e esquecimento.

Outro dia alguém veio me contar que o cara talvez seguisse minha página porque decidiu fazer um curso de Coaching que nada tem a ver com sua profissão e menos ainda, com o seu caráter. O importante é não ficar por baixo, não importa o que ser coach significa...

Obviamente surtaria se soubesse que minha formação foi por uma escola de coaching diversa daquela que escolheu. Provavelmente cancelaria a inscrição e tentaria pela mesma, não estou exagerando.

Daí pensei: Bom, se o negócio é tentar se apoderar das minhas características, ser eu ou ter coisas que tenho, mando avisar: daqui um mês vou mudar de sexo. Vai encarar?

sábado, 11 de junho de 2016

SERÁ QUE ESTOU EXAGERANDO?

 
Quando se percorre a árdua estrada de se conscientizar que você está vivendo um relacionamento destrutivo e não um conto de fadas, vive-se um número sem fim de fases e momentos de altos e baixos, permeados de certezas e incertezas que parecem enlouquecer.
De repente, num dia cheio de enorme desconforto na relação, você se deparou com um texto dessa página que lhe fez ter um choque de realidade. Foi como se o quarto estivesse escuro e você encontrasse o interruptor. Foi como descortinar a janela de uma sala fria e sombria para ver que lá fora o dia está claro e faz sol. A luz de cega, mas alivia o medo de não saber o que tem diante dos olhos. O dia lindo convida, você ainda não sabe como chegar lá fora, mas consegue ver que está claro.
Comigo não foi diferente. Me lembro com exatidão a primeira fez que li sobre perversão narcísica. Foi um tapa na cara que parecia ter me desfigurado para sempre. Foi a morte da inocência e o início da vida adulta. Eu mal podia acreditar que ali, num texto escrito por outra pessoa que não me conhecia, pudesse estar descrita a minha vida, as minhas emoções e o pior: as características do meu parceiro que eu imaginei fosse perfeito e para toda vida.
Os dias que se sucederam foram de obsessão no mais puro sentido da palavra. Eu precisava saber tudo. Não existia mais nada em português além daquele artigo. A palavra narcisismo jogada no Google dava sempre em histórias sobre o mito Narciso ou qualquer coisa ligada a excesso de amor por si mesmo. Não era nada disso. Era sobre a minha vida ali e era tudo muito feio.
Parti em busca de conhecimento e encontrei uma fonte rica nos EUA. Foi ali que descobri o que havia por trás de toda aquela brutalidade velada que eu vivi. Foi ali que redescobri minha própria identidade e quão fundo eu a havia enterrado.
Mas espere! O objetivo principal desse texto não é contar parte de minha experiência, e sim explorar um aspecto desse meu processo de descoberta: a dúvida. A um certo ponto, eu, exausta de tanto descobrir, me sentei, chorei e pensei: E se eu estiver exagerando? E se ele não for um perverso narcisista? E se o perverso for eu? Estou fazendo diagnósticos? Se ele for, como tratar?
Foi preciso ainda muito estudo, exercício de amor próprio, além da observação fria e destacada do comportamento de meu ex, para chegar às respostas.
Já de início, entendi que não é possível identificar alguém emocionalmente normal (não perverso) dentro do conteúdo abordado nessa página. Quando essa leitura faz todo sentido do mundo e o leitor se vê nas situações, enxergando cada movimento da pessoa perversa que lhe assombra a vida, simplesmente não é possível que seja uma mera coincidência.
Então percebi que se eu fosse realmente a pessoa perversa não estaria naquela situação deplorável a que cheguei e menos ainda, teria consciência de minha perversidade. Saberia dela, mas não a entenderia como algo reprovável e sim necessária para minha sobrevivência. Estaria não ali buscando respostas, mas sugando um novo alvo e arquitetando um modo de transformar a vida do meu ex num inferno.
Se fosse perversa, estaria atolada em mim e em meus interesses, e não focada em ajudá-lo, culpando-me. Ao invés disso, eu doía todo o estresse pós traumático que aqueles anos deixaram e que parecia nunca ter fim. Aprendi rápido que culpa, remorso, empatia e admissão de falhas não são características de pessoas perversas. Eu as tinha, ele não.
Daí compreendi que, independente de um possível diagnóstico acertado, a violência silenciosa da qual fui alvo, a espiral constante de loucura, acusações, instabilidade, rejeição, abandono e medo que vivi, não eram coisas aceitáveis, não importava de quem estivessem vindo.
Aprendi que, narcisista ou não, aquilo pouco importava. O que realmente deveria me incomodar era o grau de malignidade que aquilo trazia para minha vida e meu funcionamento como indivíduo. Coloquei na cabeça que saber o que essas características significam deveria servir como norte para dar rumo à minha vida e não à vida dele.
Por fim, um dia em que ainda resistia, com choros compulsivos embaixo do chuveiro, dei um grito comigo mesma no espelho e perguntei: Quem você quer ajudar? Essa pessoa te pediu ajuda? Ela acha que precisa de ajuda? Ela deseja essa mudança? Ela acha que o problema está com ela ou com você? Você quer ajudá-la e curá-la, enquanto quem está ajudando a curar você? Quem, afinal, precisa de ajuda? Perguntas duras, respostas duras.
Aceitei com dor que minha dúvida em relação à pessoa perversa com a qual convivi tinha duas razões principais e ambas tinham a ver com minha mania de “enfermeira”:
1. Queria ter certeza que, se era mesmo um transtorno, por que eu não conseguiria “ajudá-lo”? Ele precisava de ajuda! Lá estava eu de novo tentando estar na posição da boazinha mártir que tudo suporta e tudo transforma e que, portanto, só um louco não a manteria sempre por perto. Queria ajudar, cuidar, curar, transformar um homem porque eu era incapaz de fazer isso por mim mesma.
2. Constatei que, ao assumir para mim as culpas e o papel de perverso da relação, eu o tirava da posição de intratável, incurável, irremediável, mau. Eu o mantinha imaculado e lindo. Eu o havia idealizado demais, não queria destruir o príncipe que eu havia construído com tanto esmero. Era bem mais fácil destruir a mim mesma. Assumir o papel do bandido, me fazer castigar e depois trabalhar duro para reconquistar o homem perfeito.
Constatei incrédula e ferida, que pessoas que são como eu era passam a vida toda se agredindo para preservar e agradar os outros e que naquele momento eu ainda não queria fazer diferente. Sentia medo de ser fazer o que nunca tinha feito: focar e cuidar de mim. Queria a minha zona de conforto. Queria manter intacta minha autossabotagem.
Foi com trabalho duro, muita leitura, muito estudo, luta interna, contato zero e certeza de que, fosse o que fosse, eu não queria mais aquilo para minha vida, que consegui me dar respostas: “Não é problema seu o que ele é ou deixa de ser. Você é problema seu. Você importa. Você merece mais e melhor. Ninguém que não reconhece seu valor merece ocupar espaço em sua vida ou gastar seus melhores anos.” Acreditei nelas e segui.
Talvez você leitor esteja vivendo o mesmo dilema, por motivos semelhantes ou não, não importa. O que importa é que hoje é o momento certo de se CONSCIENTIZAR. É a hora de parar de se autossabotar para proteger, preservar, encobrir alguém oco, que não tem absolutamente nada a lhe oferecer.
Você repete aos quatro ventos que viveu uma linda história de amor e que só agora as coisas ficaram feias. Você se agarra firme à ideia que, apesar de tudo, aquela é uma pessoa boa e os momentos bons foram tantos que justificam sua enésima tentativa.
Você faz lindos desenhos o tempo todo e faz um esforço colossal para que aquela pessoa se torne esse ser que existe aí dentro de seu mundo imaginário, tão distante daquele que tem diante dos olhos quando humilha você ou goza quando você liga 500 vezes na tentativa de desfazer um mal entendido, sem que ninguém responda.
Você acredita que se se esforçar um pouco mais, fará a pessoa feliz e, de consequência, também será feliz. Sua fichas estão todas nela e, para você, desistir é perder todas, é acreditar que ninguém quer ou ama você e que toda sua oportunidade de ser feliz vai morrer ali. Você não sabe que tudo de bom que a vida tem para lhe dar vai ser destruído se não sair correndo dessa posição. Você bate o pé, faz birra e fica.
Você quer que essa pessoa tenha algo a oferecer, mas sabe que ela não tem. Você sabe disso desde o início. Você busca desesperadamente algo que dê sentido à essa relação e não encontra. Você faz tudo e agora senta aqui para ler este texto estando tomada(o) por uma exaustão indescritível.
No fundo sabe que não vai conseguir. Sabe que a pessoa real nada tem a ver com a imaginária. A saída fácil é se culpar para limpar o outro. A saída dolorosa é admitir que amou uma fraude, aceitar os fatos, juntar os pedaços e começar de novo com foco na única pessoa cujo diagnóstico deve de fato interessar: você.