quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Vou pôr anúncio obsceno no diário





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António Franco Alexandre | syrinx, ficção pastoral


I

Vou pôr anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro da água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.









Patrick Pottier, Benoît I
Crayon papier calque - format A4



II

Debaixo do colchão tenho guardado
o coração mais limpo desta terra
como um peixe lavado pela água
da chuva que me alaga interiormente
Acordo cada dia com um corpo
que não aquele com que me deitei
e nunca sei ao certo se sou hoje
o projecto ou memória do que fui
Abraço os braços fortes mas exactos
que à noite me levaram onde estou
e, bebendo café, leio nas folhas
das árvores do parque o tempo que fará
Depois irei ali além das pontes
vender, comprar, trocar, a vida toda acesa;
mas com cuidado, para não ferir
as minhas mãos astutas de princesa.



Patrick Pottier, Athlète IV - série de 8 pièces numérotées. Terre cuite patinée



IV


Não são nunca de cetim, amarelo cetim,
cetim de seda talvez (é possível) os lençóis
quando a casa é de lençol, televisão quadrada
a olhar para a cama, no canal enigma,
e às vezes há uma piscina geriátrica no tecto
cadeiras e mesas voltadas ao contrário
o vento em baixo a raspar o tejo
leite mal passado no frigorífico (porque
A Mulher está ausente) e retratos dos filhos
a patinar no jardim. Tem quase a tua idade.
Imagino, e já não gosto dos bonitos.
Melhor é rápido, à esquina
só com o lençol de cimento,
ou o brusco pesadelo
de mãos e pernas torcidas, que não dura, dá vantagem,
mas deixa o corpo dorido.







Patrick Pottier, Pulsion
" Envie irrésistible "
Terre cuite chamottée patinée
Pièce unique - H33 x L14 x P15 cm


VI

As palavras pouco importam: um murro
no estômago, uma vez, alguns pontapés,
chumbo na escola a português, pra mais depressa ver
como se trama a vida, silenciosamente.
Quando se canta é diferente, a voz
pode quebrar-se contra o corpo, e quebra
alguma coisa por detrás da boca
como uma mão mirabolante e escura
que se viesse, dentro, na explosão
de pedaços de carne incandescente.
Acontece também cantar calado, ou com a boca
fundida nos lençóis, pra me esquecer de quem
agora me cavalga por um jantar no poço,
passeio de automóvel, duche morno,
e depois as moedas que se deixam
caídas no passeio como estrelas.



Patrick Pottier, Masque de l'ange
Terre cuite patinée - pièce unique
H38 x L30 x P8 cm





Patrick Pottier, Jockstrap
Terre cuite patinée - pièce unique
H20 x L30 x P25 cm


x

Deito fora cavalo, pó, e fumo,
e juro não comer, nem ser, ou ter
outro suor de gente no meu ventre
por cem dias ao menos; ou seja, enquanto
a voz me ouvir, no fax das alturas.
Bem sabeis que não sei amar ninguém
e trago a boca cheia de mãos turvas
e me esqueci do nome de princesa;
que nada do que sou me sabe a certo
nem mesmo a errado, injusto ou justo;
e nunca saberei teologia,
astrologia, física celeste,
o bastante que explique o nascimento
a profusão das árvores e gente
que diz bom-dia quando a gente passa
e, indiferente, segue em frente.


 

Patrick Pottier, Avec le temps...
"Plus le malheur est grand, plus il est grand de vivre"
Terre cuite patinée, disque et socle métal rouillé
Pièce unique - H170 x L70 x P20 cm


XI


Está tudo errado, tudo, ou quase: na verdade, apenas
um salto quântico de computador,
um fio trocado na electrónica mente
que manda nos horóscopos, e já se perde
a metamorfose de outro sapo;
não encomendei! não pedi! não quero
no lugar reservado à favorita imagem
este caso-problema que se droga e vende
e tem de todo errada a identidade,
a idade, o sexo, a cara indiferente.
Quando abre a boca avisto com terror
a língua, inteira, rósea, e gengivas com dentes
capazes de ladrar, de me morder,
de em público me dizer inexistente,
de me abrir pelo meio e me tirar
tudo o que tenho, como um ladrão demente.


Patrick Pottier, Le nageur
Terre cuite - 8 pièces numérotées
H31 x L18 x P12 cm


XIX


Já tudo te ensinei, das equações elípticas
ao pastiche de pã; só não ouso
abrir-te a arca do puro e do impuro,
do bem e mal que nos separa e ata.
Por um lençol ou lenço vou sentir
ciúme e escuridão e medo abjecto
de te perder, de te ganhar, de ter
nas minhas mãos o fecho do teu pranto.
Já só posso aprender: a, como tu, cantar
sem voz nem duro rosto de palavras,
a abrir a porta que nunca ninguém viu,
a descobrir, mas sós, a fenda azul do céu.
Hás-de esquecer-me, como me esqueci
do amor mais claro que jamais vivi,
para que a rima cesse e ao longe se ouçam
passar pela floresta os instrumentos.


António Franco Alexandre, Quatro Caprichos,
«syrinx, ficção pastoral»,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1999




Patrick Pottier, Le lutteur. Terre cuite - 8 pièces numérotées






António Franco Alexandre, natural de Viseu, estudou Matemáticas e Filosofía, e é profesor desta última materia na Facultade de Letras de Lisboa. É un poeta innovador, cun estilo ben diferenciado do dos seus coetáneos e unha temática vinculada á vital cidade de Lisboa.
Son os seus libros Quatro Caprichos (1999) e  Duende (2002) os máis premiados, publicados con fidelidade, como toda a súa obra, na editora Assírio & Alvim.
Como mostra do seu quefacer poético vou centrarme nun texto do libro Uma Fábula (2001):

Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.

En ausencia do outro, fican as palabras. O amor está no pensamento, no poema -capaz, por outra parte, de ser a súa xusta expresión, segundo o poeta- que nos inventa. Poema críptico, como moitos de A. Franco, no que a complexidade do tema se manifesta nun contraste latente que paira polos versos: capacidade ou impotencia na expresividade do amor, coma se só nun tempo futuro fose posíbel amarnos, na palabra, no poema, do que formamos parte ao sermos "mera fábula".
Antón Fortes Torres,Poesía contemporánea europea gay”,
http://www.terraetempo.com/artigo.php?artigo=99&seccion=5, 2010-02-27.



 

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Michael Cunningham

Escrevo para leitores que estão interessados em ser expostos a uma enorme variedade de experiências, independentemente da orientação sexual.






Ao Cair da Noite (Gradiva, trad. Ana Falcão Bastos) é o mais recente romance de Michael Cunningham (1952), autor de As Horas (1998), com o qual garantiu os prémios Pulitzer e PEN/Faulkner.




MICHAEL CUNNINGHAM em entrevista a SARA FIGUEIREDO COSTA para a revista LER (2011)

Em Ao Cair da Noite acompanhamos um casal incapaz de comunicar para lá da banalidade do quotidiano. Essa incapacidade resulta do facto de haver coisas que não temos como partilhar, uma espécie de solidão inevitável?
Sim, independentemente das relações que possamos estabelecer, há uma parte em que estamos profundamente sozinhos. E isso é tão maravilhoso como assustador.
Essa é uma das motivações para a escrita?
Em grande parte. É muito difícil, ou mesmo impossível, falar dessa zona que não temos como partilhar. Somos criaturas misteriosas e há uma parte, aquilo a que as pessoas religiosas chamariam «alma» e que eu não sei ao certo como chamar, que não é explicável perante os outros. Mas pode escrever-se a partir daí, e é isso que faço.
Os dois personagens principais de Ao Cair da Noite, Peter e Rebecca, vivem uma parte considerável da sua vida em função das aparências, entre festas e roupas caras. É o retrato de uma certa sociedade nova-iorquina?
De uma parte da sociedade, sim. Estas são pessoas tremendamente privilegiadas, com belas casas, roupas de marca, empregos bem pagos. Mas depois há o outro lado disto, que espero retratar no próximo livro...
[...]

A ideia de procura, de demanda, acaba por ser um denominador comum a todos os seus livros. É um dos motores do seu trabalho, ou o processo de contar uma história sobrepõe-se a isso?
Eu quero contar uma história. Mas estou profundamente interessado no desejo difuso que o ser humano sente perante aquilo que o mundo não pode dar-lhe. Numa conversa recente com leitores, perguntaram-me porque é que os meus personagens parecem querer sempre mais do que aquilo que podem ter. Pedi às pessoas na assistência que levantassem a mão caso não desejassem mais do que aquilo que tinham, e claro que não houve mãos no ar. Faz parte da nossa condição querer mais, e não necessariamente mais casas ou roupas...
Como acontece com Peter, neste romance.
Sim, e por isso é que decidi situar este romance num ambiente cheio de pessoas privilegiadas materialmente, para se perceber que tal não é suficiente. É claro que as pessoas que vivem na rua têm como principal desejo e preocupação a próxima refeição. E se isso estiver assegurado, sempre? Nunca é suficiente.
É por isso que Peter, tal como Laura, de As Horas, por exemplo, parecem tão perdidos, querendo algo que não têm a certeza de querer realmente?
Sim, os meus personagens estão sempre à procura de uma sensação de satisfação, na sua vida e no próprio mundo, que insiste em iludi-los. Peter acaba por descobrir que aquilo que realmente quer está mesmo à sua frente, e que tem de olhar para aquilo que tem, a sua mulher e a sua vida. Porque se de repente deixarmos tudo para trás, assim como quem quer fugir com o circo, acabamos no mesmo sítio, a pensar no motivo pelo qual continuamos insatisfeitos e a querer algo que nos preencha.
Não há outra saída?
Acredito que é a única saída: mergulhar no que temos. Esta é a minha vida e vou vivê-la o melhor que posso.
Então, qual é o objectivo de criar personagens que estão constantemente à procura de uma saída, de outra vida, de um sentido que não é o seu?
Bem, talvez porque os meus personagens ainda não perceberam que a única saída é viverem a sua vida. [Risos.]

os meus personagens ainda não perceberam
que a única saída é viverem a sua vida



Os seus livros reflectem frequentemente sobre a fronteira entre aquilo a que chamamos «vida» e aquilo que entendemos por «arte», e fazem-no misturando os dois lados, como acontece em As Horas, Os Dias Exemplares e neste Ao Cair da Noite. Identifica-se com o atravessar constante de uma fronteira que não deixa de ser imaginária?
Claramente. Talvez porque, de certo modo, é isso que faço quando escrevo, Escreve-se sempre sobre aquilo que se conhece, e aquilo que conheço melhor é o espaço entre o meu desejo de escrever um grande romance e os limites daquilo que realmente posso fazer. Uma das dificuldades de escrever um romance é esta: andamos ali às voltas com uma ideia, e parece-nos que vai ser o melhor livro alguma vez escrito, e vai abarcar tudo aquilo que conhecemos ou conseguimos imaginar. Mas depois o livro está pronto e, por muito bom que seja, nunca é o livro que imaginámos.
Nunca?
Nunca. Uma vez mais, é algo que faz parte da condição humana, a nossa imaginação supera aquilo que o mundo pode dar-nos, seja o amor ou um processo criativo. Queremos mais. Se um extraterrestre alcançasse a Terra e quisesse saber qual a coisa que melhor define os humanos, diria que é isso: queremos sempre mais, seja do que for.
[...]
Para além de Thomas Mann, que outros escritores são referências fundamentais para o seu trabalho?
Virginia Woolf, claro. Sobretudo pelo trabalho da linguagem, porque até ter lido Virginia Woolf não tinha a menor ideia daquilo que se podia fazer com uma frase. Estudei numa escola pública, em Los Angeles, e os meus professores não foram extraordinários. Digamos que, até uma certa altura, apenas estava familiarizado com as frases declarativas mais básicas. E foi nessa altura que alguém me ofereceu Mrs. Dalloway, e percebi que era possível fazer coisas extraordinárias com a linguagem. Era um miúdo e a ideia com que fiquei foi que o que Virginia Woolf fazia com a linguagem era parecido com o que Jimmy Hendrix fazia com a guitarra, e isso marcou-me muito. Flaubert é outra referência importante. E depois há outros escritores que não são tão «mortos e veneráveis», como Dennis Johnson, a que regresso com frequência.
[...]
Sente-se confortável com a ideia de ter os seus livros na secção de «Literatura LGBT», como acontece em Portugal?
Sinto-me um pouco dividido em relação a isso. Por um lado, acho importante que se defina um corpus ficcional sobre gays e lésbicas, pelo menos porque neste preciso momento podem estar jovens, numa livraria, à procura de livros que falem deles, que lhes permitam um contacto com realidades que podem ser as suas. E para isso pode ser importante que haja uma secção bem delimitada, caso contrário não vão encontrá-los. Por outro lado acho que sou, antes de tudo, um escritor, e só depois um escritor homossexual. Escrevo para leitores que estão interessados em ser expostos a uma enorme variedade de experiências, independentemente da orientação sexual. Leio livros sobre pessoas homossexuais e pessoas heterossexuais, sobre mulheres, sobre negros, porque através da leitura quero poder viver num mundo mais alargado. E espero isso mesmo dos meus leitores. Os livros deviam estar todos na mesma secção, mas a separação não é exactamente prejudicial, porque os livros são livros, e porque não deixo de pensar na imagem de um rapazinho um bocado perdido e envergonhado, que entra numa livraria sem saber o que procurar...
[...]
Extracto da entrevista a Michael Cunningham
para a revista LER nº 101 - 2ª série, Abril de 2011

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Richard Zimler



Richard Zimler é um judeu laico, homossexual, nascido em Nova Iorque em 1956 e agora também portuense.



ENTREVISTA DE CARLOS VAZ MARQUES (2009)


A sua identidade judaica, de que já falámos, está presente em todos os seus romances; a sua identidade homossexual, embora de um modo mais discreto, também surge quase sempre.
Sim. Evidentemente, isso resulta, se calhar, da minha maneira de ser.
A minha questão é esta: pode-se dizer que é um autor de literatura gay?
Não, não sou. Para mim, ser um escritor gay implicava certas coisas: focar sempre essa temática, querer fazer parte daquele gueto. E eu não quero.
A literatura gay é um gueto?
Ainda é. Escrevo sobre a cultura judaica não porque ache que ela é mais importante ou mais interessante mas simplesmente porque esse é o meu pano de fundo e conheço-o bem.
Esse argumento não poderia ser usado por si também em relação à temática gay?
Talvez. Mas acho que ainda é diferente. A cultura judaica tem quatro mil anos de existência. A cultura gay ainda está em construção. E é uma construção um bocado artificial. Se, com estes livros, só conseguisse Ieitores judeus ficava deprimido. Porque acho que escrevo sobre as grandes questões da vida: sobre a identidade, morte, vida, amor, tudo isso. Para mim, o judaísmo é simplesmente uma porta pela qual posso entrar para falar de tudo. Se escrevesse um romance gay ‑ e já escrevi ‑ era igual.
Já escreveu um romance gay?
Não foi publicado em Portugal. Foi publicado nos Estados Unidos. Chama-se Unholy Ghosts.
É muito curioso que seja o seu único romance nunca editado em Portugal. Porque é que nunca o publicou cá?
Escrevi-o em 1996, falei com a minha editora portuguesa e ela pensou, nessa altura ‑ estamos a falar de 1996 ‑, que o romance era demasiado frontal.
Isso foi logo a seguir ao êxito de O Último Cabalista de Lisboa.
Foi. Enquanto O Último Cabalista de Lisboa estava a ser recusado pelos editores americanos ‑ houve vinte e quatro que recusaram publicar o livro ‑, naquele período de dois anos da minha depressão, escrevi esse outro livro. É sobre um jovem português, seropositivo, grande talento de guitarra clássica, com muitos problemas na sua família. Ele tem um professor americano de guitarra e o professor pensa: «Este jovem com tanto talento provavelmente vai morrer jovem, portanto é muito importante conseguir para ele o melhor professor possível, para que ele avance rapidamente, possa dar concertos e ter uma vida antes de morrer.» O livro é quase um road-movie. O professor americano, o jovem e o pai ‑ que está lá para o proteger ‑ vão de Lisboa para Madrid à procura de um professor super talentoso.



Onde é que o romance se torna um romance gay e muito frontal, como disse?
O jovem é gay e o professor é gay. O pai não é. Mas mesmo neste caso falo das grandes questões da vida e da morte. Curiosamente, há um ano fui contactado por uma senhora que quer fazer o seu doutoramento sobre esse livro.
Uma portuguesa?
Uma portuguesa. Está a traduzir o livro para português para fazer esse trabalho. Se calhar, depois disso a gente vai publicá-lo. Adoro esse livro.
Portanto, a razão para ele ainda não ter sido publicado não foi o Richard ter achado que ele não seria tão bom como os outros que escreveu.
Não. É um bom livro. Se calhar se o escrevesse hoje mudava algumas coisas. Mas é um bom livro. É muito frontal, não tem aqueles jogos latinos: nele as pessoas dizem o que pensam. Há cenas que são quase como Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? Cenas de uma violência emocional muito forte. Não há violência física, mas a violência emocional entre aquelas três personagens é muito forte. Tem muito humor negro também. Já foi publicado em Itália.
Acha que é um livro que poderia chocar sensibilidades ainda hoje, em Portugal?
Não. Agora não chocava ninguém. Felizmente. Portugal mudou muito nos últimos 10 ou 15 anos.
Apesar de esse ser o seu único romance assumidamente gay há sempre um elemento ou outro nos seus livros em que essa sua identidade está presente. Fá-lo deliberadamente?
Para mim é nada mais, nada menos do que isto: homossexuais e lésbicas existem. Então, têm de fazer parte de qualquer história. Podem ser personagens centrais ou podem ser personagens periféricas. Não interessa. Mas os homossexuais faziam parte da vida do gueto de Varsóvia. Curiosamente, chegou uma altura em que me interroguei: «Bom, vou explorar isso ou não?» Depois, li um livro que é o diário de Mary Berg, uma jovem americana que vivia no gueto de Varsóvia. Ela sobreviveu. Vivia na zona mais chique do gueto. O gueto também tinha zonas piores e melhores. Ela vivia na Rua de Siena, comia bem e tinha uma vida o mais normal possível naquelas circunstâncias. Mary Berg descreve no diário um tio dela que é homossexual. Não utiliza esta palavra mas toda a gente da família sabe que ele tem um amante e tratam este tio de uma maneira normal. Ninguém fala da situação mas ela está lá. Então, disse para mim: «Vou pôr isto no livro porque isto também fazia parte do gueto.»
Há uma literatura gay?
Há. Embora ache que a cultura gay ‑ isto vai ser uma crítica – ainda não tem a maturidade suficiente para dar um passo em frente.
Porquê?
Digo isto porque vi muitos filmes gay, recentemente [Richard Zimler fez parte do júri do Queer Lisboa, o Festival de Cinema Gay e Lésbico], e muitos deles ainda focam o sexo. Sexo, sexo, sexo. As cenas de sexo ou são bem feitas ou são horríveis e estúpidas. Normalmente é isso que acontece.
Escrever sobre sexo também é um exercício de alto risco.
É muito difícil. Cenas de sexo em romances ‑ e às vezes nos filmes – são a parte mais seca de qualquer filme ou livro. Muito poucos escritores sabem escrever sobre sexo. Modéstia à parte, acho que tenho nos meus livros várias cenas de sexo bem escritas, bem desenvolvidas e inteligentes. Mas acho que isso é raro. O meu conselho para muitos jovens escritores é que evitem isso. A não ser que tenham coragem de escrever sobre sexo de uma maneira muito diferente daquilo que se vê nos filmes ou na televisão.
Isto vinha a propósito de dizer que a cultura gay ainda está em desenvolvimento.
Eles ainda falam de coisas que vi nos anos 1970. Há muitos escritores que ainda pensam que é muito chocante escrever uma cena de amor brutal entre dois homens numa casa de banho... Desculpa lá! Já vi isso tantas vezes. Já vivi isso em São Francisco. Isso já não choca ninguém, hoje em dia. Escrever só para chocar? Escrever para poder dizer «Vou fazer isto apesar de todos os preconceitos»? Para mim, isso é um sinal de imaturidade da literatura gay e da cultura gay. Entra-se numa livraria gay e a secção de pornografia e livros eróticos é enorme. A secção de verdadeira literatura é muito pequena.
Há algum autor de literatura gay que considere especialmente bom?
Diria que há autores de literatura que, por acaso, são gays. Ou que por acaso são judeus. Para mim, o rótulo não interessa. Ou é um bom livro ou é um mau livro. Ponto final. Digo, às vezes, que só os maus livros têm nacionalidade. Não quero que os meus livros tenham nacionalidade.

Richard Zimler, «Um americano no Porto» (extracto)
in revista LER nº 85, Novembro de 2009





Poderá também gostar de ler:

Ilha Teresa
RICHARD ZIMLER
Lisboa, Dom Quixote, 2011
(tradução de José Lima)


Parece haver uma tentativa de escrever para um público específico, o adolescente, o que à partida é um risco, talvez por não fazer sentido escrever para a adolescência; talvez porque escrever para o mais íntimo de nós não se compadeça com idades, géneros, sexualidades, cre­dos, modos de pensar o humano. A partir de certa idade precisamos de estímulos que não se servem numa bandeja.
A tematização consentida da escrita, numa atitude engajada, preocupa-se demasiado em colocar no caminho do leitor um enredo de composição intrincada, mas fácil (reverberado em tantos textos e em muito filme reproduzido em tardes de domingo televisivo) no caso: a jovem portuguesa de 15 anos, que acompanha os pais na emigração para os EUA, que se dá mal com a mãe ‑ bruta e distante ‑, que tem um irmão mais novo que protege, que tem um amigo, muito amigo, brasileiro, gay e que é humilhado por um colega praticante de taekwondo, que fica órfã de pai ‑ muito carinhoso e complacente ‑, recebendo a mãe uma indemnização que dá para viverem quatro anos sem trabalhar. Teresa esforça-se por aprender o inglês, joga na equipa de basquete do colégio, escreve haikus com o amigo, muito amigo, que lhe dá a conhecer música clássica, pensa a dado momento no suicídio e, em consequência, põe o irmão em perigo e tudo acaba bem porque a vida é uma aprendizagem e as coisas más e os erros, etc, servem para nos fortalecer sobretudo se estivermos atentos e quem não passa por elas não cresce e...
Por tudo isto, importa pouco a agilidade da escrita, a marca da diferença de ser e estar dos dois personagens centrais da narrativa ou o registo de uma suposta espontaneidade adolescente.

Dóris Graça Dias, “Richard Zimler. Risco adolescente”
in Revista LER nº 104, Julho/Agosto 2011
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domingo, 10 de julho de 2011

Homens: realmente parvos... ou infetados pelo vírus silly season?


Separámo-nos há oito meses. Recebo uma mensagem no telemóvel a oferecer amizade. Para deixarmos os rancores de lado. Mas, eu nunca tive rancor. Magoado, sim. “Ainda estou a fazer luto de ti”, respondo.
Do outro lado: "apenas amizade, porque tenho namorado".
Sem comentários.



Ricardo Cinalli, The Plate (1997-98)


Homens: realmente parvos... ou infetados pelo vírus silly season?
Texto de Paula Cosme Pinto
Estamos em plena silly season e ou é impressão minha ou o mundo dos saltos rasos decidiu levar a definição demasiado a peito e está a entrar numa espiral generalizada de verdadeira palermice... aguda.
Todos os dias recebo telefonemas que começam com a frase: "Nem vais acreditar no que ele fez!". Ora é o 'ex' que manda SMS dois anos depois para dizer "Não consigo parar de pensar em ti"; ou o tal divorciado que não tem coragem para uma conversa, mas manda recados através das amigas para justificar o injustificável: voltar para a ex-mulher sem se ter lembrado de avisar; ou o que dorme com duas ao mesmo tempo e, quando é apanhado, jura a pés juntos que pretendia contar a ambas.
Depois de um habitual rol de mentiras, que nós fingimos insistentemente em não perceber porque estamos demasiado apaixonadas e com a ingénua esperança de que "desta vez será diferente", a cereja no topo do bolo vem com a habitual resposta: "Estou tão confuso!". Sei que me vão acusar de estar a generalizar, mas confesso que começo a achar que esta frase vem no guião interno masculino sobre como apelar à pena depois de meter a pata na poça.

As 10 mentiras que os homens mais contam


Ando eu a pensar nisto e mandam-me casualmente por email um artigo com as "10 mentiras que os homens mais contam". Quem nunca ouviu umas destas pérolas? 

1. Isto não é o que parece! - Nunca é, certo?

2. Nunca tinha sentido isto antes! - Podia ser o Zezé Camarinha a dizer isto que nós continuamos a acreditar... isso é que é impressionante.

3. Não quero acabar contigo, quero só um tempo.
- Ter coragem para terminar uma relação é uma maçaaaada!

4. Ela é só uma amiga! - Não dizer que é praticamente uma irmã é uma sorte.

5. Depois eu ligo-te. - É como nas entrevistas de emprego: nós depois voltamos a contactá-la.

6. Já há muito tempo que eu e a minha mulher não nos envolvemos. - Pois, e eu sou o Pai Natal...

7. Só estou à espera de que os meus filhos cresçam para me separar - Há desculpas bem melhores para evitar pressões do terceiro elemento...

8. Estou tão confuso!
- Ui, e que pena que eu tenho de ti...

9. Fiquei sem bateria no telemóvel. - Curioso que isto aconteça quando desaparecem misteriosamente...

10. O problema não és tu, sou eu.
- É tão cliché que é a minha preferida.
 




Já não é uma questão de idade. Tenham 28, 35 ou 42 anos, as mentiras são sempre as mesmas. Como se viessem num manual decorado com exímia desde a escola primária. Também não sei se é um problema de género: a verdade é que as mulheres não são santas. São apenas mais subtis.

Choca-me esta era da mentira compulsiva. A falta de capacidade de se meter as cartas na mesa e assumir - dando real uso àquilo que se tem entre as pernas - as consequências dos atos. Opta-se pelo facilitismo. Pelo conforto, em prol do medo de se ficar sozinho. Pela vida morna, onde os picos de temperatura existem com o fruto proibido. Pelas mentirinhas de algibeira, ditas apenas "porque não se quer magoar ninguém". Já ninguém arrisca tudo. Nem muito menos é totalmente honesto: a sinceridade foi condenada à morte.

Em plena silly season, páro para pensar e surge-me a questão: afinal quem é mais "silly" no meio disto tudo? Quem mente descaradamente... ou quem teima em (ainda) acreditar?



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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Ann Telnaes (cartoonista)







 Ann Telnaes (EUA), Pulitzer Prize-winning political cartoonist for The Washington Post




















                                                  Ann Telnaes, 21/03/2011
 




Michele Bachmann and Rick Santorum sign marriage fidelity pledge.





    Num casamento gay, o funcionário do registo civil pergunta: "Aceita este homem (o bispo) como seu representante legalmente eleito?"

    Um dos noivos aponta para o sacerdote que segura um panfleto anti-casamento homossexual e diz-lhe: "Você está a ir além das suas competências."










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