sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Michael Cunningham

Escrevo para leitores que estão interessados em ser expostos a uma enorme variedade de experiências, independentemente da orientação sexual.






Ao Cair da Noite (Gradiva, trad. Ana Falcão Bastos) é o mais recente romance de Michael Cunningham (1952), autor de As Horas (1998), com o qual garantiu os prémios Pulitzer e PEN/Faulkner.




MICHAEL CUNNINGHAM em entrevista a SARA FIGUEIREDO COSTA para a revista LER (2011)

Em Ao Cair da Noite acompanhamos um casal incapaz de comunicar para lá da banalidade do quotidiano. Essa incapacidade resulta do facto de haver coisas que não temos como partilhar, uma espécie de solidão inevitável?
Sim, independentemente das relações que possamos estabelecer, há uma parte em que estamos profundamente sozinhos. E isso é tão maravilhoso como assustador.
Essa é uma das motivações para a escrita?
Em grande parte. É muito difícil, ou mesmo impossível, falar dessa zona que não temos como partilhar. Somos criaturas misteriosas e há uma parte, aquilo a que as pessoas religiosas chamariam «alma» e que eu não sei ao certo como chamar, que não é explicável perante os outros. Mas pode escrever-se a partir daí, e é isso que faço.
Os dois personagens principais de Ao Cair da Noite, Peter e Rebecca, vivem uma parte considerável da sua vida em função das aparências, entre festas e roupas caras. É o retrato de uma certa sociedade nova-iorquina?
De uma parte da sociedade, sim. Estas são pessoas tremendamente privilegiadas, com belas casas, roupas de marca, empregos bem pagos. Mas depois há o outro lado disto, que espero retratar no próximo livro...
[...]

A ideia de procura, de demanda, acaba por ser um denominador comum a todos os seus livros. É um dos motores do seu trabalho, ou o processo de contar uma história sobrepõe-se a isso?
Eu quero contar uma história. Mas estou profundamente interessado no desejo difuso que o ser humano sente perante aquilo que o mundo não pode dar-lhe. Numa conversa recente com leitores, perguntaram-me porque é que os meus personagens parecem querer sempre mais do que aquilo que podem ter. Pedi às pessoas na assistência que levantassem a mão caso não desejassem mais do que aquilo que tinham, e claro que não houve mãos no ar. Faz parte da nossa condição querer mais, e não necessariamente mais casas ou roupas...
Como acontece com Peter, neste romance.
Sim, e por isso é que decidi situar este romance num ambiente cheio de pessoas privilegiadas materialmente, para se perceber que tal não é suficiente. É claro que as pessoas que vivem na rua têm como principal desejo e preocupação a próxima refeição. E se isso estiver assegurado, sempre? Nunca é suficiente.
É por isso que Peter, tal como Laura, de As Horas, por exemplo, parecem tão perdidos, querendo algo que não têm a certeza de querer realmente?
Sim, os meus personagens estão sempre à procura de uma sensação de satisfação, na sua vida e no próprio mundo, que insiste em iludi-los. Peter acaba por descobrir que aquilo que realmente quer está mesmo à sua frente, e que tem de olhar para aquilo que tem, a sua mulher e a sua vida. Porque se de repente deixarmos tudo para trás, assim como quem quer fugir com o circo, acabamos no mesmo sítio, a pensar no motivo pelo qual continuamos insatisfeitos e a querer algo que nos preencha.
Não há outra saída?
Acredito que é a única saída: mergulhar no que temos. Esta é a minha vida e vou vivê-la o melhor que posso.
Então, qual é o objectivo de criar personagens que estão constantemente à procura de uma saída, de outra vida, de um sentido que não é o seu?
Bem, talvez porque os meus personagens ainda não perceberam que a única saída é viverem a sua vida. [Risos.]

os meus personagens ainda não perceberam
que a única saída é viverem a sua vida



Os seus livros reflectem frequentemente sobre a fronteira entre aquilo a que chamamos «vida» e aquilo que entendemos por «arte», e fazem-no misturando os dois lados, como acontece em As Horas, Os Dias Exemplares e neste Ao Cair da Noite. Identifica-se com o atravessar constante de uma fronteira que não deixa de ser imaginária?
Claramente. Talvez porque, de certo modo, é isso que faço quando escrevo, Escreve-se sempre sobre aquilo que se conhece, e aquilo que conheço melhor é o espaço entre o meu desejo de escrever um grande romance e os limites daquilo que realmente posso fazer. Uma das dificuldades de escrever um romance é esta: andamos ali às voltas com uma ideia, e parece-nos que vai ser o melhor livro alguma vez escrito, e vai abarcar tudo aquilo que conhecemos ou conseguimos imaginar. Mas depois o livro está pronto e, por muito bom que seja, nunca é o livro que imaginámos.
Nunca?
Nunca. Uma vez mais, é algo que faz parte da condição humana, a nossa imaginação supera aquilo que o mundo pode dar-nos, seja o amor ou um processo criativo. Queremos mais. Se um extraterrestre alcançasse a Terra e quisesse saber qual a coisa que melhor define os humanos, diria que é isso: queremos sempre mais, seja do que for.
[...]
Para além de Thomas Mann, que outros escritores são referências fundamentais para o seu trabalho?
Virginia Woolf, claro. Sobretudo pelo trabalho da linguagem, porque até ter lido Virginia Woolf não tinha a menor ideia daquilo que se podia fazer com uma frase. Estudei numa escola pública, em Los Angeles, e os meus professores não foram extraordinários. Digamos que, até uma certa altura, apenas estava familiarizado com as frases declarativas mais básicas. E foi nessa altura que alguém me ofereceu Mrs. Dalloway, e percebi que era possível fazer coisas extraordinárias com a linguagem. Era um miúdo e a ideia com que fiquei foi que o que Virginia Woolf fazia com a linguagem era parecido com o que Jimmy Hendrix fazia com a guitarra, e isso marcou-me muito. Flaubert é outra referência importante. E depois há outros escritores que não são tão «mortos e veneráveis», como Dennis Johnson, a que regresso com frequência.
[...]
Sente-se confortável com a ideia de ter os seus livros na secção de «Literatura LGBT», como acontece em Portugal?
Sinto-me um pouco dividido em relação a isso. Por um lado, acho importante que se defina um corpus ficcional sobre gays e lésbicas, pelo menos porque neste preciso momento podem estar jovens, numa livraria, à procura de livros que falem deles, que lhes permitam um contacto com realidades que podem ser as suas. E para isso pode ser importante que haja uma secção bem delimitada, caso contrário não vão encontrá-los. Por outro lado acho que sou, antes de tudo, um escritor, e só depois um escritor homossexual. Escrevo para leitores que estão interessados em ser expostos a uma enorme variedade de experiências, independentemente da orientação sexual. Leio livros sobre pessoas homossexuais e pessoas heterossexuais, sobre mulheres, sobre negros, porque através da leitura quero poder viver num mundo mais alargado. E espero isso mesmo dos meus leitores. Os livros deviam estar todos na mesma secção, mas a separação não é exactamente prejudicial, porque os livros são livros, e porque não deixo de pensar na imagem de um rapazinho um bocado perdido e envergonhado, que entra numa livraria sem saber o que procurar...
[...]
Extracto da entrevista a Michael Cunningham
para a revista LER nº 101 - 2ª série, Abril de 2011

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Richard Zimler



Richard Zimler é um judeu laico, homossexual, nascido em Nova Iorque em 1956 e agora também portuense.



ENTREVISTA DE CARLOS VAZ MARQUES (2009)


A sua identidade judaica, de que já falámos, está presente em todos os seus romances; a sua identidade homossexual, embora de um modo mais discreto, também surge quase sempre.
Sim. Evidentemente, isso resulta, se calhar, da minha maneira de ser.
A minha questão é esta: pode-se dizer que é um autor de literatura gay?
Não, não sou. Para mim, ser um escritor gay implicava certas coisas: focar sempre essa temática, querer fazer parte daquele gueto. E eu não quero.
A literatura gay é um gueto?
Ainda é. Escrevo sobre a cultura judaica não porque ache que ela é mais importante ou mais interessante mas simplesmente porque esse é o meu pano de fundo e conheço-o bem.
Esse argumento não poderia ser usado por si também em relação à temática gay?
Talvez. Mas acho que ainda é diferente. A cultura judaica tem quatro mil anos de existência. A cultura gay ainda está em construção. E é uma construção um bocado artificial. Se, com estes livros, só conseguisse Ieitores judeus ficava deprimido. Porque acho que escrevo sobre as grandes questões da vida: sobre a identidade, morte, vida, amor, tudo isso. Para mim, o judaísmo é simplesmente uma porta pela qual posso entrar para falar de tudo. Se escrevesse um romance gay ‑ e já escrevi ‑ era igual.
Já escreveu um romance gay?
Não foi publicado em Portugal. Foi publicado nos Estados Unidos. Chama-se Unholy Ghosts.
É muito curioso que seja o seu único romance nunca editado em Portugal. Porque é que nunca o publicou cá?
Escrevi-o em 1996, falei com a minha editora portuguesa e ela pensou, nessa altura ‑ estamos a falar de 1996 ‑, que o romance era demasiado frontal.
Isso foi logo a seguir ao êxito de O Último Cabalista de Lisboa.
Foi. Enquanto O Último Cabalista de Lisboa estava a ser recusado pelos editores americanos ‑ houve vinte e quatro que recusaram publicar o livro ‑, naquele período de dois anos da minha depressão, escrevi esse outro livro. É sobre um jovem português, seropositivo, grande talento de guitarra clássica, com muitos problemas na sua família. Ele tem um professor americano de guitarra e o professor pensa: «Este jovem com tanto talento provavelmente vai morrer jovem, portanto é muito importante conseguir para ele o melhor professor possível, para que ele avance rapidamente, possa dar concertos e ter uma vida antes de morrer.» O livro é quase um road-movie. O professor americano, o jovem e o pai ‑ que está lá para o proteger ‑ vão de Lisboa para Madrid à procura de um professor super talentoso.



Onde é que o romance se torna um romance gay e muito frontal, como disse?
O jovem é gay e o professor é gay. O pai não é. Mas mesmo neste caso falo das grandes questões da vida e da morte. Curiosamente, há um ano fui contactado por uma senhora que quer fazer o seu doutoramento sobre esse livro.
Uma portuguesa?
Uma portuguesa. Está a traduzir o livro para português para fazer esse trabalho. Se calhar, depois disso a gente vai publicá-lo. Adoro esse livro.
Portanto, a razão para ele ainda não ter sido publicado não foi o Richard ter achado que ele não seria tão bom como os outros que escreveu.
Não. É um bom livro. Se calhar se o escrevesse hoje mudava algumas coisas. Mas é um bom livro. É muito frontal, não tem aqueles jogos latinos: nele as pessoas dizem o que pensam. Há cenas que são quase como Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? Cenas de uma violência emocional muito forte. Não há violência física, mas a violência emocional entre aquelas três personagens é muito forte. Tem muito humor negro também. Já foi publicado em Itália.
Acha que é um livro que poderia chocar sensibilidades ainda hoje, em Portugal?
Não. Agora não chocava ninguém. Felizmente. Portugal mudou muito nos últimos 10 ou 15 anos.
Apesar de esse ser o seu único romance assumidamente gay há sempre um elemento ou outro nos seus livros em que essa sua identidade está presente. Fá-lo deliberadamente?
Para mim é nada mais, nada menos do que isto: homossexuais e lésbicas existem. Então, têm de fazer parte de qualquer história. Podem ser personagens centrais ou podem ser personagens periféricas. Não interessa. Mas os homossexuais faziam parte da vida do gueto de Varsóvia. Curiosamente, chegou uma altura em que me interroguei: «Bom, vou explorar isso ou não?» Depois, li um livro que é o diário de Mary Berg, uma jovem americana que vivia no gueto de Varsóvia. Ela sobreviveu. Vivia na zona mais chique do gueto. O gueto também tinha zonas piores e melhores. Ela vivia na Rua de Siena, comia bem e tinha uma vida o mais normal possível naquelas circunstâncias. Mary Berg descreve no diário um tio dela que é homossexual. Não utiliza esta palavra mas toda a gente da família sabe que ele tem um amante e tratam este tio de uma maneira normal. Ninguém fala da situação mas ela está lá. Então, disse para mim: «Vou pôr isto no livro porque isto também fazia parte do gueto.»
Há uma literatura gay?
Há. Embora ache que a cultura gay ‑ isto vai ser uma crítica – ainda não tem a maturidade suficiente para dar um passo em frente.
Porquê?
Digo isto porque vi muitos filmes gay, recentemente [Richard Zimler fez parte do júri do Queer Lisboa, o Festival de Cinema Gay e Lésbico], e muitos deles ainda focam o sexo. Sexo, sexo, sexo. As cenas de sexo ou são bem feitas ou são horríveis e estúpidas. Normalmente é isso que acontece.
Escrever sobre sexo também é um exercício de alto risco.
É muito difícil. Cenas de sexo em romances ‑ e às vezes nos filmes – são a parte mais seca de qualquer filme ou livro. Muito poucos escritores sabem escrever sobre sexo. Modéstia à parte, acho que tenho nos meus livros várias cenas de sexo bem escritas, bem desenvolvidas e inteligentes. Mas acho que isso é raro. O meu conselho para muitos jovens escritores é que evitem isso. A não ser que tenham coragem de escrever sobre sexo de uma maneira muito diferente daquilo que se vê nos filmes ou na televisão.
Isto vinha a propósito de dizer que a cultura gay ainda está em desenvolvimento.
Eles ainda falam de coisas que vi nos anos 1970. Há muitos escritores que ainda pensam que é muito chocante escrever uma cena de amor brutal entre dois homens numa casa de banho... Desculpa lá! Já vi isso tantas vezes. Já vivi isso em São Francisco. Isso já não choca ninguém, hoje em dia. Escrever só para chocar? Escrever para poder dizer «Vou fazer isto apesar de todos os preconceitos»? Para mim, isso é um sinal de imaturidade da literatura gay e da cultura gay. Entra-se numa livraria gay e a secção de pornografia e livros eróticos é enorme. A secção de verdadeira literatura é muito pequena.
Há algum autor de literatura gay que considere especialmente bom?
Diria que há autores de literatura que, por acaso, são gays. Ou que por acaso são judeus. Para mim, o rótulo não interessa. Ou é um bom livro ou é um mau livro. Ponto final. Digo, às vezes, que só os maus livros têm nacionalidade. Não quero que os meus livros tenham nacionalidade.

Richard Zimler, «Um americano no Porto» (extracto)
in revista LER nº 85, Novembro de 2009





Poderá também gostar de ler:

Ilha Teresa
RICHARD ZIMLER
Lisboa, Dom Quixote, 2011
(tradução de José Lima)


Parece haver uma tentativa de escrever para um público específico, o adolescente, o que à partida é um risco, talvez por não fazer sentido escrever para a adolescência; talvez porque escrever para o mais íntimo de nós não se compadeça com idades, géneros, sexualidades, cre­dos, modos de pensar o humano. A partir de certa idade precisamos de estímulos que não se servem numa bandeja.
A tematização consentida da escrita, numa atitude engajada, preocupa-se demasiado em colocar no caminho do leitor um enredo de composição intrincada, mas fácil (reverberado em tantos textos e em muito filme reproduzido em tardes de domingo televisivo) no caso: a jovem portuguesa de 15 anos, que acompanha os pais na emigração para os EUA, que se dá mal com a mãe ‑ bruta e distante ‑, que tem um irmão mais novo que protege, que tem um amigo, muito amigo, brasileiro, gay e que é humilhado por um colega praticante de taekwondo, que fica órfã de pai ‑ muito carinhoso e complacente ‑, recebendo a mãe uma indemnização que dá para viverem quatro anos sem trabalhar. Teresa esforça-se por aprender o inglês, joga na equipa de basquete do colégio, escreve haikus com o amigo, muito amigo, que lhe dá a conhecer música clássica, pensa a dado momento no suicídio e, em consequência, põe o irmão em perigo e tudo acaba bem porque a vida é uma aprendizagem e as coisas más e os erros, etc, servem para nos fortalecer sobretudo se estivermos atentos e quem não passa por elas não cresce e...
Por tudo isto, importa pouco a agilidade da escrita, a marca da diferença de ser e estar dos dois personagens centrais da narrativa ou o registo de uma suposta espontaneidade adolescente.

Dóris Graça Dias, “Richard Zimler. Risco adolescente”
in Revista LER nº 104, Julho/Agosto 2011
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domingo, 10 de julho de 2011

Homens: realmente parvos... ou infetados pelo vírus silly season?


Separámo-nos há oito meses. Recebo uma mensagem no telemóvel a oferecer amizade. Para deixarmos os rancores de lado. Mas, eu nunca tive rancor. Magoado, sim. “Ainda estou a fazer luto de ti”, respondo.
Do outro lado: "apenas amizade, porque tenho namorado".
Sem comentários.



Ricardo Cinalli, The Plate (1997-98)


Homens: realmente parvos... ou infetados pelo vírus silly season?
Texto de Paula Cosme Pinto
Estamos em plena silly season e ou é impressão minha ou o mundo dos saltos rasos decidiu levar a definição demasiado a peito e está a entrar numa espiral generalizada de verdadeira palermice... aguda.
Todos os dias recebo telefonemas que começam com a frase: "Nem vais acreditar no que ele fez!". Ora é o 'ex' que manda SMS dois anos depois para dizer "Não consigo parar de pensar em ti"; ou o tal divorciado que não tem coragem para uma conversa, mas manda recados através das amigas para justificar o injustificável: voltar para a ex-mulher sem se ter lembrado de avisar; ou o que dorme com duas ao mesmo tempo e, quando é apanhado, jura a pés juntos que pretendia contar a ambas.
Depois de um habitual rol de mentiras, que nós fingimos insistentemente em não perceber porque estamos demasiado apaixonadas e com a ingénua esperança de que "desta vez será diferente", a cereja no topo do bolo vem com a habitual resposta: "Estou tão confuso!". Sei que me vão acusar de estar a generalizar, mas confesso que começo a achar que esta frase vem no guião interno masculino sobre como apelar à pena depois de meter a pata na poça.

As 10 mentiras que os homens mais contam


Ando eu a pensar nisto e mandam-me casualmente por email um artigo com as "10 mentiras que os homens mais contam". Quem nunca ouviu umas destas pérolas? 

1. Isto não é o que parece! - Nunca é, certo?

2. Nunca tinha sentido isto antes! - Podia ser o Zezé Camarinha a dizer isto que nós continuamos a acreditar... isso é que é impressionante.

3. Não quero acabar contigo, quero só um tempo.
- Ter coragem para terminar uma relação é uma maçaaaada!

4. Ela é só uma amiga! - Não dizer que é praticamente uma irmã é uma sorte.

5. Depois eu ligo-te. - É como nas entrevistas de emprego: nós depois voltamos a contactá-la.

6. Já há muito tempo que eu e a minha mulher não nos envolvemos. - Pois, e eu sou o Pai Natal...

7. Só estou à espera de que os meus filhos cresçam para me separar - Há desculpas bem melhores para evitar pressões do terceiro elemento...

8. Estou tão confuso!
- Ui, e que pena que eu tenho de ti...

9. Fiquei sem bateria no telemóvel. - Curioso que isto aconteça quando desaparecem misteriosamente...

10. O problema não és tu, sou eu.
- É tão cliché que é a minha preferida.
 




Já não é uma questão de idade. Tenham 28, 35 ou 42 anos, as mentiras são sempre as mesmas. Como se viessem num manual decorado com exímia desde a escola primária. Também não sei se é um problema de género: a verdade é que as mulheres não são santas. São apenas mais subtis.

Choca-me esta era da mentira compulsiva. A falta de capacidade de se meter as cartas na mesa e assumir - dando real uso àquilo que se tem entre as pernas - as consequências dos atos. Opta-se pelo facilitismo. Pelo conforto, em prol do medo de se ficar sozinho. Pela vida morna, onde os picos de temperatura existem com o fruto proibido. Pelas mentirinhas de algibeira, ditas apenas "porque não se quer magoar ninguém". Já ninguém arrisca tudo. Nem muito menos é totalmente honesto: a sinceridade foi condenada à morte.

Em plena silly season, páro para pensar e surge-me a questão: afinal quem é mais "silly" no meio disto tudo? Quem mente descaradamente... ou quem teima em (ainda) acreditar?



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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Ann Telnaes (cartoonista)







 Ann Telnaes (EUA), Pulitzer Prize-winning political cartoonist for The Washington Post




















                                                  Ann Telnaes, 21/03/2011
 




Michele Bachmann and Rick Santorum sign marriage fidelity pledge.





    Num casamento gay, o funcionário do registo civil pergunta: "Aceita este homem (o bispo) como seu representante legalmente eleito?"

    Um dos noivos aponta para o sacerdote que segura um panfleto anti-casamento homossexual e diz-lhe: "Você está a ir além das suas competências."










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domingo, 26 de junho de 2011

Rudolf Brazda - como os nazis torturavam os homossexuais





É o último sobrevivente dos 100 mil homossexuais enviados para campos de concentração pelo regime nazi.

Aos 97 anos, é co-autor de um livro sobre a sua vida e foi agora condecorado com a Legião de Honra em França. | Texto: André Barbosa



“Havia sexo entre homens
nos campos de concentração”



Foi preso pelos nazis por ser homossexual e obrigado a usar uma farda com um triângulo cor-de-rosa.

Assistiu à execução de outros homens, foi forçado a dormir nu e bateram-lhe até lhe partirem os dentes.







Viu amigos em pilhas de cadáveres, foi humilhado na prisão e agredido por um oficial das SS. Mesmo assim, aos 97 anos, Rudolf Brazda afirma que teve muita sorte e foi feliz.

Está hospitalizado, por causa de uma queda, mas contou com a ajuda de Jean-Luc Schwab, co-autor do livro Itinéraire D'Un Triangle Rose (percurso de um triângulo rosa), para contar à revista SÁBADO, via email, como foi perseguido e detido três vezes pelos nazis por ser homossexual.

No campo de concentração de Buchenwald, escapou à morte com a ajuda de um kapo [capataz] de quem se tornou amigo.

Mesmo no meio da tortura, garante, havia lugar para o amor.

Só há dois anos, depois da morte do companheiro de cinco décadas, ganhou coragem para contar a sua história.

E nunca deixou de gostar do rosa, a cor do triângulo que tinha na farda que usou durante três anos.




(Photo by fellow ex-prisoner, Albert Stüber. From Rudolph's personal collection.)



Antes de a legislação contra os homossexuais ser agravada na Alemanha, em 1935, como é que a sociedade alemã tolerava os gays?
A minha mãe, por exemplo, aceitava muito bem a minha orientação sexual. Até organizei um "almoço de casamento" na casa dela, em Brossen [Leipzig, Alemanha], para celebrar a minha vida em comum com Werner, o meu primeiro amor. Infelizmente, o mesmo não aconteceu com a família dele. A mãe de Werner era católica e não aceitava a nossa relação. Sentia-me muito livre para me abrir sobre a minha sexualidade, antes de ser preso pela primeira vez, em 1937. Nos anos 30, ver dois rapazes a dançarem juntos num baile não era um escândalo.

Quando foi preso, era usado como correio entre amantes.
Na prisão de Altenburg, onde cumpri pena de prisão pela primeira vez, era um kalfaktor [biscateiro]. Isso envolvia, entre outras coisas, servir as refeições aos prisioneiros nas celas e como conhecia alguns deles, pediam-me para passar mensagens. Um dos truques consistia em escrever a mensagem num pequeno pedaço de papel e escondê-la num tubo de pasta de dentes que eu transportava para a cela do destinatário.

Foi humilhado na prisão?
Em Altenburg só fui humilhado uma vez, quando um dos guardas, um rapaz das SS, me gritou porque eu tinha falado demasiado alto no pátio. Disse-me que me iria bater com tanta força que iria rodar seis vezes sobre mim mesmo. Na prisão de Eger, onde cumpri a segunda pena, em 1938, foi mais duro porque o director detestava homossexuais. Antes de a porta da cela ser fechada, ele obrigava-me a deixar a minha roupa no exterior e dormir nu, porque achava que isso refrearia os meus impulsos homossexuais. De todas as pessoas que conheci na prisão, foi a que mais odiei.

Como eram os interrogatórios para apurar a sua sexualidade?
Havia quase sempre apenas um investigador na sala. Eles já tinham recolhido uma série de provas sobre a minha sexualidade, com base em testemunhos e cartas, e eu negava a minha orientação sexual. Depois, confrontavam-me com as provas e eu acabava por confessar. Outra vez, ameaçaram-me com um campo de concentração. Eu ficava tão nervoso quando percebia que eles sabiam mais do que eu pensava, que a confissão era um alívio.

Como era o dia-a-dia no campo de Buchenwald?
Era um campo de trabalhos forçados onde a morte nunca estava longe. Estive em dois kommandos [grupos de trabalho] diferentes: os que faziam a calçada, como quase toda a gente que chegava a Buchenwald, e alguns meses depois juntei-me aos que punham telhas no Bauhof [edifício principal]. Levantávamo-nos muito cedo, lavávamo-nos com água fria e fazíamos uma refeição rápida (pão, margarina e café). Depois faziam a chamada. Por volta das 7h íamos para os locais de trabalho, até à hora de almoço, entre as 11h e o meio-dia. Continuávamos a trabalhar até às 18h e depois reuníamo-nos para mais uma chamada. O jantar era pão e sopa, lavávamo-nos e às 21h tínhamos de estar a dormir.

Os homossexuais eram discriminados na prisão?
Nunca me senti discriminado pelos outros prisioneiros. Era muito mais importante passar despercebido junto dos oficiais das SS. Eles eram muito imprevisíveis e podiam molestar-nos sem razão. O meu kapo [capataz, que decidia se os prisioneiros viviam ou morriam], que era comunista, gostava do meu trabalho e dei-me bem com ele. Se não fosse ele, seria transferido para Dora, um campo muito pior que Buchenwald.

Acha que teve sorte?
Sim. Outro kapo comunista escondeu-me durante os últimos dias no campo, antes de a evacuação começar, e isso salvou-me a vida: muitas das pessoas que iam nas marchas de evacuação não regressavam, porque eram fuziladas. Não tive tanto azar como outros prisioneiros do triângulo rosa, que foram usados como porquinhos-da-índia em experiências médicas.

Havia espaço para amor e sexo?
O campo era como uma prisão enorme, sem mulheres, à excepção de um bordel anexo de acesso limitado a prisioneiros que tinham recompensas. Por isso, havia homens a satisfazerem-se sexualmente com outros homens, principalmente os que estavam física e emocionalmente frágeis. Uma vez vi dois homens, muito masculinos, a terem sexo num local discreto. Também tive alguns casos lá. Às vezes, durante a noite, alguém se enfiava na minha cama ou eu enfiava-me na cama de alguém.

Qual foi a pior coisa que viu?
Vi cenas horrorosas. Uma vez, eu e um amigo fomos obrigados a assistir à execução de soldados soviéticos num antigo estábulo, transformado numa falsa enfermaria. Estes prisioneiros eram levados a acreditar que iam ser examinados por um médico e afinal iam ser mortos. Também me recordo de ver o corpo de um conhecido numa pilha de cadáveres. Conheci-o antes de ser transferido para Dora. No último ano em que lá estive escapei por pouco de ser enviado para Dora, depois de ter respondido mal a um homem que afinal era um oficial das SS. Deu-me um violento murro na cara que me custou três dentes.





"O director da prisão,
que detestava homossexuais,
obrigava-me a dormir nu
porque achava que isso refrearia
os meus impulsos"



Ficou com aversão ao cor-de-rosa?
Nem por isso. O cor-de-rosa era associado a raparigas e foi usado pelos nazis para enxovalharem os prisioneiros homossexuais. Mas ainda gosto da cor e a maioria das minhas camisas são cor-de-rosa.

Tem dito que, mesmo passando por isso tudo, foi muito feliz.
Tenho tido sorte na vida, à excepção dos tempos em que passei na prisão e no campo. Nunca estive sozinho. Tive a sorte de partilhar a minha vida com alguns namorados. Com o último, Edi, estive 50 anos.

Mas Edi aconselhou-o a esquecer esse passado.
Quando regressei a Buchenwald, em 1965, Edi estava comigo e teve dificuldades de aceitar e acreditar em tudo o que tinha passado ali. Disse-me que o melhor era esquecer e concentrar-me no facto de estarmos juntos e felizes. Mas só em 2008, depois da morte dele, tive coragem de falar publicamente sobre o assunto.

Hoje que memórias o fazem chorar?
Quando estava no campo, quase me tornei imune à morte. Mas hoje, quando olho para trás, emociono-me ao pensar em coisas que vi, como pessoas que conheci e que foram mortas ou as torturas dolorosas.


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