domingo, 8 de abril de 2012

DRAMA EM TRÊS ATOS









ATO I

Ó gente da minha terra
Agora é que percebi
Essa tristeza que trago
Foi de vós que a recebi…

Recebo esta invetiva por SMS em forma de citação. Poderia ter sido eu a enviá-la. Quem ma enviou insiste em desresponsabilizar-se pelos seus atos.
Entanto, eu poderia responder assim:

Já fiz as pazes contigo;
E se algum ressentimento
Entre nós, pode surgir,
A culpa –
Não será do que fizermos
De hoje em diante,
‑ Apenas, possivelmente,
Do que os nossos corações
Teimarem
Muito em silêncio sentir.
Contudo,
Não poderemos protestar:
O sofrimento passa, meu amor;
Mas, a lembrança de ter sofrido
Quem é que a pode arrancar?

(in Canções e outros poemas, António Botto, p. 182)

Podemos não recordar os insultos; mas guarda-se deles um amargo de experiência, feia como uma cicatriz. E isto envelhece a alma, torna-a ruinosa e inútil.”
(verbete “Insultos” in Opera Omnia – Dicionário Imperfeito, Agustina Bessa Luís).


ATO II

“Há palavras que nos beijam”:

Ele ‑ De ti ontem me lembrava, deitado na minha cama gelada, agora o que eu nunca pensava era que estavas aos beijos na almofada.
Faz hoje 2 anos e 6 meses que entrou uma pessoa maravilhosa na minha vida. São quase mil dias juntos, com altos e baixos, eu e as minhas birras e o que a vida me fez, mas tu, sempre firme, sempre disposto a amar-me. Enfim… Se eu não souber dar valor a isso, então não sei dar valor a nada. Amo-te muito.

Contas os dias, os mil recantos para onde os olhos se acamam.
Não falarei de amor. Não falarei. Não direi a quantidade de cigarros inutilmente acendidos.
Como todas as noites, penso em ti e no que te irá na cabeça e no coração. Desejo-te uma boa noite, meu querido, sabendo que de uma maneira ou de outra estaremos sempre juntos.” (texto do guião de Equador)
*
O homem tem estado paranóico. Nestes últimos três dias fiquei em estado de choque com as acusações que faz. Até pediu que devolvesse as chaves. Fi-lo. Depois continuámos a trocar mensagens e de novo as acusações, a desconfiança.
Fiz um ultimato que o deixou a tremer: ou ia ao psiquiatra ou a relação acabava.
Uma semana antes eu tinha-me queixado de que ele andava arredado de mim, como se precisasse descansar de mim. Para se defender argumentou que era preciso dar espaço um ao outro (normalmente uma semana sozinho em cada mês!) e que não era necessário saber o que eu estava a fazer, pois confiava em mim. Ao passo que eu falava da necessidade de falar das experiências que vivêramos, comentar o comportamento das pessoas que encontráramos, fazer planos, lutar juntos, etc.
Passada uma semana, ele revela-se exatamente o oposto, mostrando-se atento e fazendo juízos de valor errados sobre movimentos meus.

A nossa relação é como um tronco sem membros e sem cabeça.
E se eu decidir viver a minha vida?

Ele ‑ Dia de chuva na ilha dos amores. Um dia ia-me atirando para debaixo de um comboio que passou por Coimbra B.

(Está sol. É início de Primavera.)
Já me ocorreu fazer uma compilação das tuas mensagens apocalípticas. Compor uma narrativa. Fôlegos e silêncios nos ouvidos.
E se agora um qualquer fulano intercetasse em Coimbra B o comboio em que viajo.
Ando a comunicar para o vazio. O que temos para retomar se nada se construiu? Sobre que alicerces, que estacas tenho que te segurem? Voltar a quê? A que ponto voltar para construir algo?


ATO III

Talvez registe as últimas frases absolutas que enviaste. E esta página será proscrita por muito tempo.
A vida será feita destas intermitências cada vez mais raras e sem brilho. Respiro fundo. Quem entrará na minha vida. Como fazer desse desejo um objetivo e um plano. O senhor que se segue.
Todas as noites, quando me deito, um só pensamento vem à mente: eu não deveria estar aqui. O meu lugar não é aqui. A história repete-se. Cruamente.

Havia um compromisso mútuo, tácito: a cada um cabe realizar a felicidade do outro.


Nos primeiros tempos dizias quase ininterruptamente:
Eu amo-te, eu amo-te, eu amo-te.
Nos primeiros tempos, tremias em cada toque da mensagem recebida.
Havia sempre vontade do abraço e do beijo.
Eu fui feliz assim.

É esta a parte do poema em que eu me deito. Aproximo-me da cama com a nostalgia dos hábitos que se não reatam.


EPÍLOGO

"A certeza que fica é que para a vida valer a pena é necessário amar e ser amado, e ter muito cuidado com o cristal de que os outros são feitos." (Nuno Lobo Antunes, "Sinto Muito")


[Setembro de 2006 a Setembro de 2010]

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O livro de Catulo

470 a.C.




Verânio, que eu prefiro a todos os meus amigos, ainda que fossem trezentos mil, é certo que regressaste a casa, aos teus irmãos que te adoram, à tua mãe velhinha? É certo, sim. Que notícia tão grata! Ver-te-ei são e salvo, ouvir-te-ei descrever, segundo é teu costume, os sítios, as guerras e as tribos da Ibéria e, estendendo o pescoço, beijar-te-ei os olhos e a face querida. Ó vós que sois felizes, quem há mais contente e ditoso do que eu?

Catulo (Caio Valério Catulo ‑ em latim: Gaius Valerius Catullus)
Verona, 87 ou 84 a.C. - 57 ou 54 a.C.
Catulo. Poesias. Texto estabelecido e traduzido por Agostinho da Silva
Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933.

 


Veranio, de entre todos mis amigos
el primero aunque fueran muchos miles,
¿has vuelto a casa junto a tus penates,
tu anciana madre y tus buenos hermanos?
Has vuelto. ¡Para mí qué gran noticia!,
pues sano te veré y oiré de Iberia
contar historias, pueblos y lugares,
como haces siempre, y tomándote el cuello,
tu alegre boca besaré y tus ojos.
Oh, de todos los hombres más felices
¿quién más feliz que yo? ¿quién más dichoso?




Peço-te que me digas, se te não contraria, onde é o teu esconderijo; procurei-te no Campo Menor, no Circo, entre todos os livros, no sagrado templo do grande Júpiter. Ao mesmo tempo, no passeio do Grande <Pompeio>, detive todas as raparigas que, no entanto, vi ficarem de rosto sereno. E reclamava-te assim: «O meu Camério, raparigas de má raça!». Uma respondeu, mostrando o peito nu: «Aqui está escondido nestes seios rosados». Mas, em verdade, aturar-te é um trabalho de Hércules, tanto é o desdém com te negas, amigo. Não; ainda que tomasse a forma do guarda de Creta, ou que fosse levado no voo de Pégaso, ou fosse Ladas ou Perseu de pés alados, ou a ligeira parelha branca de Reso; junta-lhes mesmo os voadores heróis de pés empenados e a impetuosidade dos ventos; ainda que mos desses todos juntos não deixaria de ficar cansado até à medula e comido de fadiga por andar à tua procura, meu amigo. Diz-me onde estás, revela-o sem medo, confia, não receies a luz <do dia>. Ainda te prendem as brancas raparigas?

Se retiveres a língua na boca cerrada perderás todos os frutos do teu amor: Vénus gosta das loquelas expansivas; mas, se quiseres, deixa-te estar calado, contanto que sejas confidente do meu amor.


Catulo (Caio Valério Catulo ‑ em latim: Gaius Valerius Catullus)
Verona, 87 ou 84 a.C. - 57 ou 54 a.C.
Catulo. Poesias. Texto estabelecido e traduzido por Agostinho da Silva
Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933.
  


 


Te suplico, si no es mucho pedir,
que muestres las tinieblas que te esconden.
Por ti pregunto en el Campo Menor,
por ti en el Circo y en las librerías,
por ti en el templo sagrado de Júpiter.
Amigo, en el paseo de Pompeyo
paré a la vez a todas las muchachas
aunque había en sus rostros mucha calma,
mas, con todo, ay, así te reclamaba:
« ¡Devolvedme a Camerio, mujerzuelas! ».
Y desnudando el seno dijo una:
«En mi pezón de rosa, ¡aquí se esconde!».
... Pero aguantar es ya labor de Hércules.
¿Con tal soberbia, amigo, me desdeñas?
Dime dónde has de estar, sal ya sin miedo,
entrégate a la luz con confianza.
¿Te retienen quizás niñas de leche?
Si en la boca tu lengua has sepultado
perderás del amor todos los frutos,
pues a Venus le alegran las palabras.
Aunque cierra la boca, si eso quieres,
mas dame parte al menos en tu amor.


Aquiles e o amante Pátroclo


Compadecendo-se, por fim, Zeus lança mão de outro artifício e muda-lhes para diante os órgãos genitais. […]
Ao mudar-lhes, pois, os órgãos genitais para diante, Zeus determinou que a geração humana passasse também a efetuar-se de uns para outros, mediante tais órgãos - na fêmea por intermédio do macho. E eis o que tinha em vista: se acaso o acoplamento se desse entre homem e mulher, o resultado seria procriarem e perpetuarem a espécie; se entre dois varões, haveria pelo menos a plenitude da união e, uma vez apaziguado o desejo, poderiam voltar às suas tarefas e interessar-se por outros aspetos da vida.
Dessa época longínqua data, sem dúvida alguma, a implantação do amor entre os homens - o amor que restabelece o nosso estado original e procura fazer de dois um só, curando assim a natureza humana.

Platão, Banquete, 191b-d

 

quarta-feira, 28 de março de 2012

HOMOSSEXUALIDADE NO ROMANCE PORTUGUÊS

Ensaio sobre a Angústia, Ed. Gradiva, 2012.
 
Joaquim Almeida Lima
  
João tem cinquenta anos e não se lembra de viver sem angústia. Logo em criança, nos mais simples episódios da vida, ela está presente, desgastando-o emocionalmente. Tudo se adensa quando percebe, já adolescente, que é homossexual. Na vida de João, a angústia é o sentimento que domina e o domina, e o que ele mais deseja é ter momentos de paz e serenidade, com a ajuda de quem com ele caminha de mão dada. A vida é mais das vezes uma dura prova, que merece ser contada.




A PRIMEIRA DÉCADA DO SÉCULO VIU CAIR DOIS TABUS LIGADOS AO ROMANCE DE COSTUMES

Evidenciando o hedonismo presente na nova narrativa portuguesa, expressão de um Portugal cosmopolita, plural e multicultural, a primeira década do século viu cair dois tabus ligados ao romance de costumes. O primeiro relacionado com a narrativa sobre a homossexualidade: Eduardo Pitta (Persona, 2000; 2ª ed. 2007, e Cidade Proibida, 2007), Frederico Lourenço (Pode um Desejo Imenso, 2002, O Curso das Estrelas, 2002, e À Beira do Mundo, 2003) e Henrique Levy (Praia Lisboa, 2010) fizeram cair o tabu relativo à descrição e narração de cenas homossexuais. O segundo, a narrativa sobre a heterossexualidade: Manuel da Silva Ramos, evidenciando a primeira "D. Juan" feminina no romance português, uma norueguesa, em O Sol da Meia Noite (2007), José Couto Nogueira (Táxi, 2001, Vista da Praia, 2003, e sobretudo Pesquisa Sentimental, 2008), Manuel Dias Duarte (D. Giovanni em Lisboa, 2009, romance sobre o ciúme) e Fernando Esteves Pinto (Conversas Terminais, 2000, Sexo entre Notícias, 2003 e Privado, 2008), desocultaram de um modo absoluto o tema da descrição dos atos heterossexuais. Em ambos os casos, estamos longe do império da pornografia, luxúria de textos e imagens destinadas a exclusivo consumo comercial e, portanto, ao enriquecimento dos seus autores.


A estes autores, que ousaram abrir um novo horizonte temático no romance português contemporâneo, junta-se Joaquim Almeida Lima e o seu livro Ensaio sobre a Angústia, narrativa sobre a experiência vivencial de um arquiteto homossexual, João. No caso deste romance, acrescem aos sentimentos de culpa e de vergonha pela emergência da homossexualidade na adolescência a uma permanente sensação de angústia, opressora física do peito, suavizada, primeiro, pelos ansiolíticos que João furtava à mãe, depois por medicamentação mais forte.
Expressão estética de um corpo com necessidades sentimentais e sexuais diferentes e reflexo de uma sociedade que, ainda que aberta, possui nítidas dificuldades morais em lidar com este tipo de diferença, Ensaio sobre a Angústia retrata com perfeição a dificílima libertação do homossexual do jugo de uma sociedade moralmente complexada e preconceituosa. Com efeito, no momento da libertação, quando João e Pedro compõem um casal perfeito, preparados para o gozo da lua-de-mel nos Açores, dá-se um acontecimento trágico (que não revelamos por constituir o nó central da intriga, narrado apenas a sete páginas do final, o que retiraria ao leitor grande parte do prazer da leitura), que enegrecerá para sempre a existência de João, avivando-lhe continuamente o sentimento de ansiedade.

Ensaio sobre a Angústia é narrado em dois tempos cruzados, diferenciados pelo corpo da letra, em redondo e negro: um que perfaz a formação de João (escola secundária; Faculdade de Belas Artes; duas iniciais experiências sexuais clandestinas, propiciadas por anúncios de jornais, uma graciosa, por prazer, outra paga a um estudante universitário que se prostitui para sobreviver; relação afetuosa com a mãe, sempre compreensiva face ao roubo dos seus medicamentos pelo filho; vergonha de confessar ao pai, à irmã e a Luís, seu melhor amigo, a sua inata condição de homossexual); outro, 20 anos depois, o tempo presente do romance, suavizando a contínua ansiedade através dos abraços de Pedro e da serenidade transmitida por uma gaivota que pousa perto da casa de João ao fim da tarde.
O romance evidencia, num primeiro momento, o sentimento de exclusão do homossexual na cidade, forçando-o a encontros clandestinos e a remeter-se a bares marginalizados; num segundo momento, a luta épica de João contra essa exclusão, antes de mais o seu combate para a integração na normalidade familiar; e num terceiro momento, como motor da totalidade da ação narrativa, o direito ao reconhecimento familiar e social de João.

Nestes três momentos, João conta sempre com o apoio incondicional e afetuoso da mãe (que apenas reage hesitantemente quando o filho lhe confessa ter tido duas experiências sexuais com homens) e com o apoio especializado de António, o psiquiatra da tia, por quem João se apaixona, cumprindo o clássico transfert assinalado por Freud. Para além do final trágico, motor retrospetivo da totalidade do romance, o momento culminante do romance, muito bem narrado, sem falsos pudores nem ostentações voyeuristas, assenta no encontro entre João e Pedro numa sauna frequentada pela comunidade homossexual.

Romance psicológico, o universo social restringe-se ao campo familiar e às relações de João com Luís e Pedro, ambos arquitetos. Da vida exterior ao homossexualismo de João, sabe-se apenas ser o pai simpatizante da vertente do catolicismo progressista anterior ao 25 de Abril de 1974. Neste sentido, o campo semântico possui sempre um timbre psicológico (leque de sentimentos vinculados à angústia e à exclusão social), dominado por um vocabulário eminentemente urbano e atual. Nem mesmo é abordado o léxico profissional ligado à arquitetura.

Miguel Real, 15-03-2012.

quarta-feira, 7 de março de 2012

INTRODUÇÃO DO CONCEITO DE ORIENTAÇÃO SEXUAL NA ONU

Conselho de Direitos Humanos da ONU
Reconhecimento da homossexualidade origina debate quente

por Lusa, 2012-03-07

O reconhecimento dos direitos dos homossexuais e dos transexuais originou hoje um debate acalorado que opôs membros da Organização da Conferência Islâmica (OCI) e uma maioria dos países do grupo africano aos outros países representados no Conselho dos Direitos Humanos.


Os países muçulmanos condenaram a tentativa de introdução do conceito de orientação sexual na ONU e abandonaram a sala do Conselho para exprimir a sua reprovação.
Pela primeira vez foi organizado um debate no Conselho dos Direitos Humanos, que realiza a sua sessão anual em Genebra, sobre as discriminações baseadas na orientação sexual.
Na abertura do debate foi dirigida uma mensagem aos membros do conselho por parte do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, segundo o qual "chegou o momento de agir".
"Vidas estão em jogo e é dever da ONU proteger os direitos de todas as pessoas, onde quer que elas vivam", afirmou Ban. "Deixem-me dizer a lésbicas, homossexuais, bissexuais e transsexuais, vocês não estão sós", disse.
A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, por seu turno, apresentou um estudo sobre numerosas discriminações visando os homossexuais em todo o mundo.
Pelo menos 76 países têm legislações discriminatórias em relação aos homossexuais, sublinhou.
O apelo da ONU foi apoiado pelos países ocidentais e latino-americanos, enquanto os países islâmicos, através da OCI, pediram que o debate organizado hoje pelo conselho "seja o último".
Segundo o porta-voz da organização, o embaixador do Paquistão, "não há acordo sobre uma definição" da noção de orientação sexual no sistema dos Direitos Humanos e "a legitimação da homossexualidade é inaceitável para a OCI".
Para o porta-voz da OCI, a homossexualidade pode originar agitação social, degenerar em pedofilia e incesto, ter um impacto negativo na saúde e enfraquecer a instituição da família.
Falando em nome de uma "maioria" de países africanos, o Senegal também pediu "o respeito pelas diferenças culturais" e criticou a "tentativa de perverter o sistema dos Direitos Humanos para impor um conceito baseado no comportamento de certos indivíduos".
Alli Jernow, da ONG Comissão Internacional de Juristas, condenou, por seu turno, "a interpretação falaciosa da lei internacional dos direitos humanos" feita nomeadamente pelo Paquistão e pelo Senegal.
"Os direitos humanos são universais, o que significa que cada um, incluindo as lésbicas, os homossexuais, os bissexuais e os transexuais, devem, por exemplo, poder desfrutar do direito à vida e à segurança pessoal e serem protegidos contra a detenção arbitrária e a tortura", sublinhou.


 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

4 mitos sobre filhos de pais gays


Os gays lutaram e conquistaram direitos iguais no casamento.
O próximo passo é pensar em família e filhos.

 
Mas o que acontece com crianças que são criadas por gays?
A resposta: algumas coisas, mas nenhuma daquelas que você imaginava.







Começo de ano é sempre igual na escola de Theodora: cada aluno se apresenta e mostra as fotos da família. Pode ser que a menina da primeira carteira seja filha de um engenheiro e uma arquiteta e o pai do menino de cabelos vermelhos chefie a cozinha de um restaurante. Theodora, naturalmente, vai contar sobre a escola de cabeleireiros dos pais. Dos dois pais ‑ Vasco Pedro da Gama e Júnior de Carvalho, juntos há quase 20 anos. Theodora não hesita em explicar para os colegas: não mora com a mãe e tem dois pais gays. Ela passou 4 anos num orfanato, até 2006, quando uma juíza de Catanduva, interior de São Paulo, autorizou a adoção. Nos próximos meses, a família vai crescer: o casal espera a guarda de uma nova menina, de apenas alguns meses de idade.
Na outra metade do mundo, a história com pais gays da americana Dawn Stefanowicz foi diferente. Por toda a vida, Dawn conviveu com a visita dos vários namorados do pai. Ele recebia homens em casa, embora ainda morasse com a mãe de Dawn ‑ o casal já não se relacionava. Ela segurou as pontas em silêncio durante a infância, adolescência e início da fase adulta. Mas depois dos 30 se rebelou contra a situação. "A decisão do meu pai de não gostar mais de mulheres mudou minha vida. Os namorados dele sempre o afastaram, e ele colocava o trabalho e os namorados acima de mim", diz.
Dawn e Theodora fazem parte de um novo tipo de família. Somente nos EUA, segundo estimativa da Escola de Direito da Universidade da Califórnia, 1 milhão de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais criam atualmente cerca de 2 milhões de crianças. E cada vez mais casais gays optam por criar seus próprios filhos. Segundo o mesmo instituto, em 2009, 21.740 casais homossexuais adotaram crianças - quase o triplo do número de 2000. A estimativa é que cerca de 14 milhões de crianças, em todo o mundo, convivam com um dos pais gays. Por aqui, onde mais de 60 mil casais gays vivem numa união estável (reconhecida perante a lei apenas no ano passado), a história é mais recente. O caso de Theodora foi a primeira adoção por um casal gay. E isso não faz tanto tempo assim ‑ só 6 anos.
É justamente por ser tão recente que o assunto gera dúvidas, preconceitos e medos. Quais as consequências na personalidade de uma criança se ela for criada por gays? A resposta dos estudos é bem clara: perto de zero. "As pesquisas mostram que a orientação sexual dos pais parece ter muito pouco a ver com com o desenvolvimento da criança ou com as habilidades de ser pai. Filhos de mães lésbicas ou pais gays se desenvolvem da mesma maneira que crianças de pais heterossexuais", explica Charlotte Patterson, professora de psiquiatria da Universidade da Virginia e uma das principais pesquisadoras sobre o tema há mais de 20 anos.
Como, então, explicar as queixas de Dawn e a vida tranquila de Theodora? "O desenvolvimento da criança não depende do tipo de família, mas do vínculo que esses pais e mães vão estabelecer entre eles e a criança. Afeto, carinho, regras: essas coisas são mais importantes para uma criança crescer saudável do que a orientação sexual dos pais", diz Mariana Farias, psicóloga e autora do livro Adoção por Homossexuais - A Família Homoparental Sob o Olhar da Psicologia Jurídica. Enquanto Theodora mantém uma relação próxima dos pais, com conversas abertas sobre sexualidade, Dawn não teve a mesma sorte. Para piorar, ela cresceu em um ambiente ríspido e promíscuo (o pai levava diferentes homens para casa e não lhe deu atenção durante os anos mais importantes de sua formação). Mesmo assim, sobram mitos em torno da criação de filhos por pais e mães gays. Veja aqui o que a ciência tem a dizer sobre eles.






Mito 1. "Os filhos serão gays!"
A lógica parece simples. Pais e mães gays só poderão ter filhos gays, afinal, eles vão crescer em um ambiente em que o padrão é o relacionamento homossexual, certo? Não necessariamente. (Se fosse assim, seria difícil, por exemplo, explicar como filhos gays podem nascer de casais heterossexuais.) Um estudo da Universidade Cambridge comparou filhos de mães lésbicas com filhos de mães heterossexuais e não encontrou nenhuma diferença significativa entre os dois grupos quanto à identificação como gays. Mas isso não quer dizer que não existam algumas diferenças. As famílias homoparentais vivem num ambiente mais aberto à diversidade - e, por consequência, muito mais tolerante caso algum filho queira sair do armário ou ter experiências homossexuais. "Se você cresce com dois pais do mesmo sexo e vê amor e carinho entre eles, você não vê nada de estranho nisso", conta Arlene Lev, professora da Universidade de Albany. Mas a influência para por aí. O National Longitudinal Lesbian Family Study é uma pesquisa que analisou 84 famílias com duas mães e as comparou a um grupo semelhante de heterossexuais. Ainda entre as meninas de famílias gays, 15,4% já experimentaram sexo com outras garotas, contra 5% das outras. Já entre meninos, houve uma tendência contrária: 5,6% nos adolescentes criados por mães lésbicas tiveram experiências sexuais com parceiros do mesmo sexo - mas menos do que os que cresceram em famílias de heterossexuais, que chegaram a 6,6%. Ou seja, não dá para afirmar que a orientação sexual dos pais tenha o poder de definir a dos filhos.

Mito 2. "Eles precisam da figura de um pai e de uma mãe"
Filhos de gays não são os únicos que crescem sem um dos pais. Durante a 2ª Guerra Mundial, estima-se que 183 mil crianças americanas perderam os pais. No Brasil, 17,4% das famílias são formadas por mulheres solteiras com filhos. Na verdade, os papéis masculino e feminino continuam presentes como referência mesmo que não seja nos pais. "É importante que a criança tenha contato com os dois sexos. Mas pode ser alguém significativo à criança, como uma avó. Ela vai escolher essa referência, mesmo que inconscientemente", explica Mariana Farias. Se há uma diferença, ela é positiva. "Crianças criadas por gays são menos influenciadas por brincadeiras estereotipadas como masculinas ou femininas", diz Arlene Lev. Uma pesquisa feita com 56 crianças de gays e 48 filhos de heterossexuais apontou a maior probabilidade de meninas brincarem com armas ou caminhões. Brincam sem as amarras dos estereótipos e dos preconceitos.

Mito 3. "As crianças terão problemas psicológicos por causa do preconceito!"
Elas sofrerão preconceito. Mas não serão as únicas. No ambiente infantil, qualquer diferença - peso, altura, cor da pele - pode virar alvo de piadas. Não é certo, mas é comum. Uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Económicas com quase 19 mil pessoas mostrou que 99,3% dos estudantes brasileiros têm algum tipo de preconceito. Entre as ações de bullying, a maioria atinge alunos negros e pobres. Em seguida vêm os preconceitos contra homossexuais. No caso dos filhos de casais gays analisados pelo National Longitudinal Lesbian Family Study, quase metade relatou discriminação por causa da sexualidade das mães. Por vezes, foram excluídos de atividades ou ridicularizados. Vinte e oito por cento dos relatos envolviam colegas de classe, 22% incluíam professores e outros 21% vinham dos próprios familiares. Felizmente, isso não é sentença para uma vida infeliz. Pesquisas que comparam filhos de gays com filhos de heterossexuais mostram que os dois grupos registam níveis semelhantes de autoestima, de relações com a vida e com as perspectivas para o futuro. Da mesma forma, os índices de depressão entre pessoas criadas por gays e por heterossexuais não é diferente.

Mito 4. "Essas crianças correm risco de sofrer abusos sexuais!"
Esse mito é resquício da época em que a homossexualidade era considerada um distúrbio. Desde o século 19 até o início da década de 1970, os gays eram vistos como pervertidos, portadores de uma anomalia mental transmitida geneticamente. Foi só em 1973 que a Associação de Psiquiatria Americana retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. É pouquíssimo tempo para a história. O estigma de perversão, sustentado também por líderes religiosos, mantém a crença sobre o "perigo" que as crianças correm quando criadas por gays. Até hoje, as pesquisas ainda não encontraram nenhuma relação entre homossexualidade e abusos sexuais. Nenhum dos adolescentes do National Longitudinal Lesbian Family Study reportou abuso sexual ou físico. Outra pesquisa, realizada por três pediatras americanas, avaliou o caso de 269 crianças abusadas sexualmente. Apenas dois agressores eram homossexuais. A Associação de Psiquiatria Americana ainda esclarece: "Homens homossexuais não tendem a abusar mais sexualmente de crianças do que homens heterossexuais".










Pode também gostar de:

“Mitos atribuídos às pessoas homossexuais e o preconceito em relação à conjugalidade homossexual e a homoparentalidade”
Mariana de Oliveira Farias
Faculdade de Ciências e Letras da UNESP-Assis

Resumo: As diferentes civilizações, conforme o momento histórico e os valores nelas vigentes, diferiram no modo como se relacionaram com a sexualidade e o fenômeno da homossexualidade. Algumas ocorrências históricas contribuíram para a visão que a sociedade tem hoje acerca da homossexualidade, como o Vitorianismo, o Cristianismo e o avanço da ciência no século XIX. Nesta época, alguns pensadores contribuíram para uma visão positiva da sexualidade como Walt Whitman, Symonds, e Havelock Ellis e, sobretudo no século XX, movimentos sociais lutaram pelo respeito e igualdade de direitos à orientação sexual homossexual.
Apesar de alguns avanços, ainda há estereótipos relacionados à homossexualidade e logo, à homoparentalidade. A literatura tem exposto esses mitos, por exemplo:
1) que os homossexuais seriam todos promíscuos;
2) que a homossexualidade seria um distúrbio, um desvio;
3) que os homossexuais não poderiam criar uma criança, pois ela seria “influenciada” pela homossexualidade;
4) que os homossexuais tenderiam a abusar sexualmente de crianças para realizarem seus desejos, dentre outros.
Estas crenças irrefletidas na sociedade favorecem a discriminação e o preconceito contra as pessoas que vivenciam a homossexualidade e dificultam uma visão positiva na sociedade e no meio jurídico em relação à homoparentalidade e logo, sobre a adoção por homossexuais.
Palavras-chave:  homoparentalidade, conjugalidade homossexual, mitos e preconceito






Título original: Comme Les Autres
País: França
Ano: 2008
Diretor: Vincent Garenq
Argumentista: Vincent Garenq
Estúdio: Canal +
Elenco: Lambert Wilson, Pascal Elbé, Pilar Lopez de Ayala, Anne Brochet
Sinopse: O filme conta a história de Manu. Ele é um pediatra gay, de 42 anos e o seu grande sonho é ser pai. O problema é que o seu parceiro, Philippe, não partilha desse mesmo sonho mas mesmo assim, Manu resolve recorrer à adopção correndo o risco de perder o seu grande amor. Por ser homossexual, ele não consegue nada através da adopção mas conhece uma jovem que poderá fazer com que a vida dele mude por completo. Num impulso, ele propõem à jovem, Fina, que seja a mãe do seu filho. Inicialmente ela reage mal à proposta mas com o tempo, quando acaba por conhecê-lo melhor, apaixona-se por Manu e aceita a proposta. Apaixonada por ele, Fina imagina uma vida a dois e feliz ao lado de Manu, mas as coisas não serão como ela esperava. | Por: Ermelindo Lopes.