sábado, 30 de novembro de 2013

FEIRA DO LIVRO LGBT 2013




A inauguração é já este sábado, 30 de novembro, com cocktail de boas-vindas, às 18.30, e lançamento do livro de fotografia «Profession Artiste», de Fernando Branquinho, às 21.30, com Espetáculo de Transformismo.

Toda a programação (e novidades), aqui: https://www.facebook.com/events/767710183255838/

terça-feira, 12 de novembro de 2013

OS ERROS MAIS COMUNS EM RELACIONAMENTOS GAYS


Nenhum tipo de relacionamento é simples - mas alguns erros são recorrentes entre os namoros gays. Você concorda?


(texto de Marcio Caparica, para a revista www.ladobi.com, 2013-11-11)







No semestre passado circulou um post no Tumblr da revista Revolutionary com uma lista dos erros mais comuns cometidos por gays em seus relacionamentos. O post viralizou e rodou bastante. Infelizmente a gente ainda não tinha esse blog para comentar… mas antes tarde do que nunca. Então aí vai a tradução do post original e, depois de cada tópico, o Lado Bi dessa questão.




Uma crítica prévia: o que todos os erros que o autor do post original aponta têm em comum é a insegurança. Ele parece achar que o namorado está prestes a largar dele a qualquer momento, sempre em busca de uma razão para lhe dar o pé na bunda, e sua função como namorado é evitar qualquer brecha para que um terceiro coloque o relacionamento em risco. A real é que se preocupar com as ações dos outros nunca leva a lugar nenhum. Economize a neurose e se esforce para ser alguém mais agradável de ficar junto.


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  1. Relacionamentos abertos. Apesar de nós querermos viver vidas interessantes e experimentais, o maior erro que um casal gay pode cometer é ter um relacionamento aberto. A princípio o que você já tem em casa deveria ser o suficiente para satisfazer você; quando você sente que precisa de mais do que já tem, lá vem problema. Você e seu parceiro correm o risco de se apaixonarem por outra pessoa, ele pode ter mais química com o outro que com você, ou podem passar a repensar todo o relacionamento. Apesar de ménages até poderem ser uma opção, relações abertas não costumam dar certo e provavelmente são a maior razão por que relacionamentos gays não dão certo. De vez em quando, quando uma relação não funciona mais é hora de partir pra próxima. Não recicle algo que você não quer usar mais com a justificativa da relação aberta.

    O que a gente acha: Tem gente que tem facilidade para viver uma relação monogâmica, tem gente que se esforça para viver a monogamia e não sofre em excesso por isso, e tem gente que simplesmente é incapaz de viver monogamicamente. Quando num relacionamento, uma conversa sincera com o namorado pode resolver muito problema. Vamos aproveitar que não temos o peso de séculos de instituição sobre nossos namoros. Se transar a três permite a variedade que você sente falta e os dois concordam com isso, vá em frente. Se transar com outros por fora é a solução, estabeleça as regras, deixe o funcionamento de tudo bem claro, e experimente. E se vocês não têm a segurança para lidar com outros na vida do casal, sejam sinceros nisso. Às vezes é melhor colocar na mesa que “se você for ficar com outro, eu não quero saber”. Só não vai cair naquele padrão de homem hétero de ficar pulando a cerca e depois, quando dá merda, prometer que isso nunca vai se repetir, só para reincidir meses depois.

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  2. Carência. Um erro muito comum para os homens gays é se apegar demais, rápido demais. Até gêmeos idênticos têm maneiras diferentes de ser independentes. Não é culpa do seu parceiro que você sofreu no passado com outros caras ou com sua família, e não é obrigação dele catar seus cacos emocionais. Não tem nada de errado em amar intensamente, mas um gay tem que aprender a sempre manter a própria voz, a própria identidade e a própria vida. Se você gruda demais no namorado, corre o risco de afastá-lo.

    O que a gente acha: namorado grudento é uó mesmo. E uma medida do bom-senso é a noção do que é amor. Você pode gostar do cara pra caralho, mas se você olhar pra ele e disser na segunda semana “eu te amo” você está mostrando apenas uma puta insegurança, tanta que mal consegue esperar para ouvir “eu te amo” de volta logo. Por que, sério, se a resposta for “e eu gosto de você”, quem disse “eu te amo” desaba, não é? Vamos segurar a ansiedade, controlar a insegurança e deixar o namoro se desenvolver em seu próprio tempo.

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  3. Brigar. Não há relacionamento perfeito, e mais cedo ou mais tarde todos nós discutimos e discordamos. Mas brigar sobre tudo é um veneno. Não use mais a desculpa de ser “forte” e “independente” para ganhar uma briga. Respeitem os limites, respeitem-se um ao outro e respeitem o espaço e opiniões de cada um. Ele pode não dizer tudo que você gostaria de ouvir, mas aprenda a escutar e aprenda a ser compreensivo. Afinal, você que o escolheu, certo? Não diga algo que você vai se arrepender depois. Às vezes as palavras podem causar mais dano que você imagina, e dizer algo no calor da discussão pode fazer você perder alguém que ama. Se não for importante, deixe passar. Se você não tem como controlar a questão, aprenda a explicitar suas preocupações e não enverede para outros problemas. Se você chegou num impasse, analise seu relacionamento e decida se ele está fazendo bem para você. Mas não destrua seu relacionamento com palavras.

    O que a gente acha: brigar por qualquer coisinha é mesmo a fórmula para acabar um namoro. Deixar de discutir por medo do namoro acabar também. Se você acha que seu namoro é tão frágil que não consegue aguentar uma desavença, talvez seja melhor reconsiderar estar junto. Outra coisa importante: deixe a discussão morrer, e aceite que às vezes não há consenso mesmo. Agora, o maior conselho que a gente pode dar para brigas: JAMAIS DISCUTA POR TEXTO. E-mail, messenger, whatsapp, seja o que for. É o pior de dois mundos: você tem a velocidade para responder com a cabeça quente, mas o tempo para mirar o texto aonde dói mais. É melhor brecar a discussão no começo e resolver tudo ao vivo. Sério mesmo.


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  4. Continuar com alguém por conforto (dinheiro, favores, apartamento). Não há problema algum em ir morar junto com o namorado, compartilhar o dinheiro ou ter uma conta conjunta. Mas há uma linha tênue entre compartilhar e pegar mais do que ele se dispõe a dar. Não entre num relacionamento porque você precisa de estabilidade e ele é sua rede de segurança. Aprenda a trabalhar para se manter, ganhe seu próprio dinheiro e mantenha suas próprias coisas. Não há nada pior que passar por uma separação e acabar na rua porque tudo pertence ao outro. Alguns homens parecem incríveis no início, mas você pode também descobrir logo que eles também estão usando você. Esteja com alguém porque você o ama, não porque ele pode oferecer um nível de vida mais alto.

    O que a gente acha: nesse tópico o cara está coberto de razão. Ficar namorando por causa de dinheiro, status ou teto não está certo. Mas de novo, se esse for o caso no seu relacionamento, pelo menos sejam sinceros quanto a isso. Pode não ser o amor romântico, sincero e puro da novela, mas pode deixar os dois bem satisfeitos. Outro erro: deixar os próprios amigos de lado e conviver apenas no círculo de amigos do namorado. Os amigos podem ser superlegais, tratar você com muito carinho, mas se uma separação acontecer, dificilmente eles vão continuar tratando você como costumavam. É triste, mas inevitavelmente os amigos “dos dois” continuam sendo os amigos de um ou de outro como antes – como nunca deixaram de ser.

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  5. Saírem juntos. Muitos podem discordar, mas provavelmente esse é o erro que os gays cometem com mais frequência. A boate não é o lugar para curtir o namorado. Apesar de parecerem divertidas e inocentes, as danceterias envolvem álcool e um monte de caras gostosos (dependendo em que clube você vai). E você pode até dizer que só tem olhos para ele, e ele só tem para você, mas lá há gente demais que chama a atenção e muitos homens que não tem medo de pegar pesado no flerte. Alguns homens vão para a boate só para encontrar alguém para trepar. Se você não está lá para catar alguém não finja que está lá porque gosta da música. Infelizmente, entre os gays há gente que não respeita o compromisso que você tem, e mesmo sendo tudo uma questão de confiança, eu não acho que você quer complicar as coisas com um cara rebolando na sua frente. Um barzinho ou um lounge de alto nível são mais convenientes. Você não tem que se preocupar ao ir ao banheiro e não vai sentir a necessidade de deixar o celular gravando tudo.

    O que a gente acha: sinto dizer, mas tem gente que gosta de sair para dançar e ouvir música sim. E, CLARO, vai ter gente flertando, e isso faz parte do ambiente e mesmo do prazer de se estar na boate. A graça de sair com o namorado para dançar não é que ele está com você e ninguém se interessa nele, mas sim que ele está com você MESMO com o interesse de outros por ele – e vice-versa. E se você está namorando alguém que cata outro escondido assim que você vira as costas, o problema não é ir para boate, mas sim sua escolha de namorado.

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  6. Declarar o status do relacionamento no Facebook. Você pode ser aquele cara que acha melhor que o namorado mude o estado civil no Facebook como prova de amor, mas isso pode causar mais problemas que soluções. Por quê? Porque você ou seu namorado podem até não perceber que o número de novos pedidos de amizade está cada vez maior porque as pessoas querem saber que é ele. Alguns caras não estão nem aí e vão dar em cima do seu namorado mesmo que o status diga “Num relacionamento”. Não me pergunte por que eles são assim, mas isso é fato. Além disso, você pode ficar chateado quando essas amizades repentinas deixam insinuações ou comentários na timeline do seu namorado, achando que você é tão burro que não vai notar. Assim como nos clubes, é uma questão de confiança, mas alguns homens não têm respeito nem dignidade. Alguns caras ficam mais atraídos pelo que não podem ter, ou vão fazer coisas só para irritar você. Então esteja preparado. Às vezes é melhor não mudar o status no Facebook e simplesmente confiar no parceiro. Depende de você.

    O que a gente acha: ficar vigiando a timeline do namorado pra ver quem comenta, quem se insinua e quem canta é uma neurose que só traz infelicidade. Sim, sempre vai ter quem dê em cima do mino. E a verdade é que se ele resolver corresponder não há NADA a se fazer para impedir. Pode ter certeza que nem os idiotas que fazem perfil conjunto no Facebook conseguem impedir o burro amarrado de pastar – nada impede que se faça outra conta, se tenha outro e-mail, se compre um celular extra etc. Mais uma vez, o namoro tem que dar certo não porque não há outra pessoa no mundo com quem ele poderia estar, mas porque dentre todas as outras pessoas do mundo com quem ele poderia se envolver, ele está com você. O problema do status do Facebook é outro: quando se tenta usar o status para deixar o namoro mais sério do que o momento pede (ver a discussão sobre grude acima). Ficar num “relacionamento sério” causa toda uma comoção na timeline; ter que dar satisfação disso alguns meses depois quando você volta a ficar solteiro é um saco. E já que estamos no assunto Facebook: postar na timeline que você vai sair porque está sofrendo mas resolveu tentar ser feliz apesar do pé na bunda é coisa que ninguém tem desculpa para fazer depois dos 16 anos. Indireta na rede social nunca alcança o alvo pretendido e só dá recibo de carência para quem escreve.

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  7. Não permitir que seu namorado saia com os amigos. Você é o namorado dele, não seu dono. Um erro grave que um gay pode cometer é achar que pode controlar o namorado. Muitos casais gostam de viver na rédea curta e isso funciona para eles, mas muitos outros precisam de espaço. Aqui é que a confiança realmente conta. Se você acha que não sente confiança em seu namorado quando ele está sozinho com os amigos, ele não serve pra você. Um bom namorado deveria deixar você seguro e não deveria agir de maneira diferente porque você não está por perto. A mesma coisa para senhas e e-mails. Se você não consegue confiar no seu namorado, você não o merece. Diferente das boates, em que você está cercado de homens bêbados e cheio de tesão, o mundo é cheio de gente diferente, e nem todos querem catar seu namorado. Aprenda a confiar e a cuidar da própria vida. Algumas coisas vocês podem fazer juntos, e outras separados.

    O que a gente acha: qualquer pessoa que pede a senha do e-mail, do Facebook, do celular ou seja o que for não merece ter um namorado. Tem coisas que é melhor deixar quieto. Se depois de meses juntos seu namorado continua com o Grindr instalado no celular, tudo o que tenho a dizer é: por que é você estava mexendo no celular do namorado? Quanto aos amigos, há algo mais a ser dito: às vezes deixar o namorado sair com os amigos sem você pode ser uma grande solução. Porque você não é obrigado a gostar de todos os amigos dele. Nem todos eles de você. Inevitavelmente ele vai ter amigos que você não vai com a cara. Ele não vai largar os amigos (nem deve), e você não é obrigado a conviver com quem não quer. Então deixe ele encontrá-los sem você. Seja civilizado, encontre-os sempre que necessário, e todos ficam felizes.

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sábado, 14 de setembro de 2013

Escala de Kinsey. Kinsey scale





   
NívelDescrição
0Exclusivamente heterossexual
1Predominantemente heterossexual, apenas eventualmente homossexual
2Predominantemente heterossexual, embora homossexual com frequência
3Bissexual
4Predominantemente homossexual, embora heterossexual com frequência
5Predominantemente homossexual, apenas eventualmente heterossexual
6Exclusivamente homossexual
XAssexual






domingo, 8 de setembro de 2013

AS MINHAS MÃES EDUCARAM-ME A RESPEITAR CRIANÇAS DE CASAIS HETEROSSEXUAIS





No dia 17 de maio de 2013, Dia Internacional da Luta Contra a Homofobia e Transfobia, a ilha de São Miguel parece ter acordado com mensagens de luta e de amor.
Numa iniciativa entre Umar-Açores, APF-Açores, APAV-Açores, CIPA/Novo Dia e Pride Azores, nas varandas, portas e janelas dos espaços das associações foram colocadas bandeiras do arco-íris e a mensagem “Homofobia não é opção, é discriminação”.

Pelas ruas, em alguns locais movimentados, nas paredes encontraram-se mensagens como “Ana+Ana” ou “José+Daniel”. O jornal Açoriano Oriental do dia seguinte trazia ainda uma imagem de um stencil numa rua de Ponta Delgada onde se lê “as minhas mães educaram-me a respeitar crianças de casais heterossexuais.”
Todas estas iniciativas geraram reações, debate e pensamento crítico, como se quer.
E o melhor? Para além do impacto positivo, ninguém se aproveitou delas para se promover.

O mesmo não se pode dizer em relação a outras iniciativas, como por exemplo, as que estiveram à votação na Assembleia da Republica. O que para muitas pessoas foi visto como uma vitória, para outras foi um ensurdecedor grito de cobardia, hipocrisia e declaração de instrumentalização de uma população para fins eleitorais.
Quando à votação estão quatro projetos, sendo que apenas um mantinha a discriminação perante a lei, e é precisamente o que passa o que continua a discriminar, não me digam que são modernos e que se esforçam por uma sociedade justa. Com isto não quero dizer que os autores do projecto não mereçam reconhecimento, claro que merecem, até mesmo porque os próprios, ao que parece, votaram positivamente todos os outros.
Fomos premiados com uma série de intervenções e posições do além. Quando há um ano os projectos do BE e PEV foram chumbados pela direita e pelo PCP sob o argumento de que a vida privada e familiar das pessoas homossexuais tinha de ser debatida em praça pública, agora a co-adopção, algo que nunca foi debatido e desconhecido de muita gente, parece não ter suscitado dúvidas nas bancadas conservadoras. É caso para se dizer que mais parece um negócio da China.
Alguns dos que votaram a favor da meia-adopção não tiveram dúvidas em votar contra a adopção plena. Já vimos este filme antes, aquando do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Em Portugal, há quem parece ter descoberto uma espécie de mina de ouro para “ficar bem na fotografia” ou para se promover. Na Assembleia, vamos vendo as maiores bancadas a darem caramelos às pessoas, a dizerem-se defensores da cidadania mas a conta-gotas. Por outras bandas vamos assistindo a esquemas e calculismos de defensores-relâmpago da causa LGBT, quando isso lhes der jeito para fazerem bonito perante as direcções das suas associações ou partidos.

Enquanto isso, enquanto toda gente tira proveito, os e as cidadãs que são discriminados e discriminadas, são postos em fila de espera, a chuparem caramelos, e a assistirem a todo esse espectáculo de hipocrisia e mesquinhice no seu estado puro.
O que os protagonistas não se percebem é que atreladas ao show off vêm manifestações de homofobia, que não chegam a conta-gotas, chegam sempre com a mesma intensidade, e sobre isso já não parecem querer ter voto na matéria.
Por outro lado, não querem perceber que o povo nem sempre se deixa fazer de tolo, e para breve está o dia em que...*

* este artigo foi escrito a “fazer pendant” com a cidadania das pessoas LGBT em Portugal, pela metade.

"O 17 de maio e a lei do caramelo", crónica de Cassilda Pascoal
http://dezanove.pt/507216.html, 21-05-2013,



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tu brincas com Eros, ó implacável






Tu brincas com Eros, ó implacável
Déspota, e as ninfas tu animas,
De azul pupila, e rubros elos
De Afrodite. Ambulas, entretanto,
em píncaros de sombra, em montes
De lá, que escutes meu chamado:
De Cleobulo, ó Dioniso,
Ah faz com que ele seja meu amado.

Anacreonte, frg. 2D (Tradução de Frederico Lourenço,  Poesia grega - de Álcman a Teócrito. Lisboa: Cotovia, 2006)




Por Cleobulo estou apaixonado,
por Cleobulo estou louco de amor,
para Cleobulo não me canso de olhar.

Anacreonte, frg. 359 PMG (idem, p. 56)










Homem muito homem fui, e homem por mulheres! – nunca tive inclinação pra aos vícios desencontrados. Repilo o que, o sem preceito. Então – o senhor me perguntará – o que era aquilo? Ah, lei ladra, o poder da vida [...] Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice [...] o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava.

Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa, 1956





Torna-se evidente que a máscara heterossexual de Riobaldo é a que lhe angustia, pois exerce, no bando, esta face de sua identidade, todavia se compraz no amor – embora rejeitado, negado, velado – por Diadorim, sujeito do mesmo sexo.
Evidencia-se no fragmento citado um complexo de identidade vivido pela personagem em foco, que mantém uma luta interna entre o ser homem (heterossexual, macho, viril, jagunço) e o ser gay (dar vazão ao desejo sexual pelo outro do mesmo sexo). Essa luta talvez possa ser dirimida se pensarmos que a crise pela qual passa não diz respeito diretamente a uma questão que o aloca no plano interpretativo dos que são “puramente” gays. Ora, pensar o gay de um ponto de vista cultural, social, antropológico, por exemplo, equivale a entendê-lo como um sujeito que exerce sua cidadania (ou que deveria exercer, uma vez que ainda é negada a cidadania a muitos gays no Ocidente), mantenedor não só do desejo afetivo-emocional (incluído aqui o sexual) pelo outro do mesmo sexo, mas também de toda uma cultura e desejo (desejo no sentido de uma estrutura psíquica, segundo a teoria psicanalítica), fato que o coloca num patamar não menor em relação ao já historicamente consolidado sujeito heterossexual. […]
Riobaldo incorpora a agonia do gay contemporâneo que “saiu do armário” e se vê diante de portas ainda fechadas para uma condição cambiante, ainda posta em prova nos cenários violentos das grandes cidades em que a “permissividade” do exercício da cidadania gay ainda é incipiente, preliminar, embora saibamos das várias conquistas sociais e culturais que os gays conseguiram nas duas últimas décadas.

Desejo homoerótico em Grande Sertão: Veredas”, Antonio de Pádua Dias da Silva, 2007