Opinião
A fraude intelectual do pensamento pós-moderno
O pensamento pós-moderno, e o activismo que dele
decorre, nunca demonstrou qualquer utilidade para os oprimidos que afirma
defender. Pelo contrário.
David Marçal, 25 de Julho de 2022, 0:30
O pensamento pós-moderno opõe-se ao pensamento
moderno, a forma de pensar surgida com a Revolução Científica dos séculos XVI e
XVII, segundo a qual se podem estabelecer novos factos com base em provas, quer
dizer, é possível produzir conhecimento novo. Esta perspectiva foi aprofundada
com o Iluminismo, tendo-lhe sido adicionada uma dimensão humanista: devemos
usar a ciência e, de um modo mais geral, a razão para melhorar as condições de
vida de todos os seres humanos.
Os resultados são impressionantes: existem hoje, em
número absoluto, menos pessoas no mundo que vivem em pobreza extrema do que
no início do século XIX, apesar de a população ser cerca de sete vezes maior do
que nessa altura. Vivemos mais, temos em média mais rendimentos, homens e mulheres frequentam a escola durante mais anos e temos
acesso a melhores cuidados de saúde, que se traduzem, por exemplo, numa menor
mortalidade infantil e no controlo de várias doenças infecciosas através da
vacinação. Não obstante existirem inúmeras coisas a melhorar, o mundo está cada vez melhor.
O pensamento pós-moderno, que tem uma visão mais
cínica das coisas, assenta em dois princípios. O primeiro é o de que não é
possível obter conhecimento objectivo. Este princípio vai contra todos os
avanços da ciência. O segundo princípio assume que a sociedade é formada por
sistemas de poder e hierarquias que determinam o que pode ser conhecido e como.
Dito de uma maneira mais crua: a ciência e a racionalidade são invenções dos
homens ocidentais heterossexuais, com o objectivo de perpetuar o seu próprio
poder e marginalizar formas não científicas e não racionais de produção de
conhecimento. Deveria ser inútil rebater esta ideia, de tão absurda que ela é.
Apesar das suas falhas, a ciência e a racionalidade
produziram um entendimento do mundo que é verificável empiricamente e que tem
resultados óbvios: conseguimos prever a passagem de cometas, construir
telemóveis e fazer vacinas para a covid-19.
É à luz destes dois princípios que podemos entender
alegações como a de que não existem apenas dois sexos biológicos. Um dos temas
do pensamento pós-moderno é o esbatimento de fronteiras definidoras, recusando
à biologia qualquer papel na definição de conceitos como homem ou mulher,
categorias que, no quadro desse pensamento, são socialmente construídas.
Outro aspecto do pensamento pós-moderno é a ideia que
os grupos oprimidos (as mulheres, os negros, os homossexuais, as pessoas obesas
ou qualquer pessoa com uma combinação das anteriores) possuem um conhecimento
vivencial próprio, que se sobrepõe à ciência e à racionalidade. Esta ideia
pode-se traduzir em assumir a deficiência como uma identidade (recusando
tratamentos para a surdez, por exemplo) ou rejeitar a existência de problemas
de saúde decorrentes da obesidade (medicalizar a obesidade seria uma agressão à
identidade).
O sexismo, o
racismo ou a homofobia são cada vez mais inaceitáveis nas sociedades modernas.
É este caminho que importa prosseguir, porque foi ele que alcançou resultados
inegáveis em muitos países
Mais: estas afiliações identitárias são usadas para
empoderar esses grupos, estabelecendo uma hierarquia baseada na opressão e no
privilégio, na qual, por exemplo, uma mulher negra “cis” deve reconhecer o seu
privilégio face a uma mulher negra “trans”. Há casos complicados, como comparar
uma mulher negra heterossexual com um homem negro homossexual – quem é o
privilegiado aqui?
Os teóricos pós-modernos inventarão uma resposta, se é
que não têm já uma. A questão é que essa hierarquia, assim como todos os
aspectos do pensamento pós-moderno, são apenas efabulações teóricas muito
desligadas da realidade. As crenças pós-modernas não são comprováveis, pois os
seus arautos não aceitam testes que se lhes possam fazer para verificar se elas
são verdadeiras ou falsas. Por exemplo, a afirmação de que todos os brancos são
racistas, mesmo que não o saibam, pois tem “ângulos mortos”, é uma afirmação
não comprovável: não há nenhuma observação ou experiência que se possa fazer
que tenha a capacidade de demonstrar que ela é falsa. Claro que a ciência e a
racionalidade são, para os teóricos pós-modernos, apenas formas de manter os
homens brancos no poder, eles são insensíveis a quaisquer argumentos
científicos ou sequer racionais.
Os grandes avanços nos direitos dos negros, das
mulheres e dos homossexuais são anteriores a este tipo de pensamento, tendo
raízes no Iluminismo e um forte impulso com os movimentos dos direitos civis
nos Estados Unidos. Estes avanços, em grande parte ocorridos nas décadas de
1960 a 1990, assentam na ideia de que todos somos iguais em direitos e
dignidade, independentemente de sexo, cor da pele (não
há raças humanas) ou orientação sexual. São abordagens universalistas e não
sectárias. O sexismo, o racismo ou a homofobia são cada vez mais inaceitáveis
nas sociedades modernas. É este caminho que importa prosseguir, porque foi ele
que alcançou resultados inegáveis em muitos países. São estes valores
universalistas que estão plasmados no artigo 13.º da nossa Constituição.
O pensamento pós-moderno, e o activismo que dele
decorre, nunca demonstrou qualquer utilidade para os oprimidos que afirma
defender. Pelo contrário, tem o dom de tornar pessoas razoáveis e tolerantes em
adversários, que se vêem catalogadas como racistas ou homofóbicas simplesmente
por não professarem o credo pós-moderno.
Fonte: https://www.publico.pt/2022/07/25/opiniao/opiniao/fraude-intelectual-pensamento-posmoderno-2014803
REAÇÕES I:
«A fraude intelectual do pensamento pós-moderno»,
por David Marçal
Às vezes, encontramos exposto aquilo que já trazíamos informe cá
dentro. É o caso deste artigo de David Marçal. O autor não o diz, mas digo eu:
esta mania de infundir-nos culpabilidade por todos os males do Mundo é uma
refinadíssima forma de sadismo.
Pedro Schacht
Este artigo é ele um exemplo de completa fraude intelectual: cria um papão
ao qual atribui todos os males do mundo, não identifica os praticantes da nefanda
arte nem oferece aos leitores a mais mínima evidência textual: onde se
encontram os exemplos das afirmações peremptórias que o autor produz e atribui
a outros? Não é preciso fornecê-los, porque a indignação produz a fé necessária
à creditação da fraude. Mais parece um auto de fé. E sim, tem tudo para ter
sucesso e tornar-se viral.
Fernando Venâncio
O Pedro Schacht não parece deste mundo, o que é deveras
invejável. Eu próprio convivi de muito perto com este tipo de activistas.
Pedro Schacht
Fernando Venâncio reparou que não me referi a
ativistas. O fulcro é um artigo que grita "vêm aí os bárbaros"
enquanto coleciona todos os pecadilhos que atribui ao espantalho por si mesmo
criado. Não contem comigo para validar esta pobreza intelectual, por sedutora
que possa ser para o desejo de absolvição e a indignação de gatilho. Considero
este artigo insultuoso da inteligência dos leitores.
Fernando Venâncio
Pedro Schacht, Há dias li uma curiosa reflexão, que dizia,
em síntese, isto: a cultura woke condena como "apropriação cultural"
uma mulher branca usar cabelo rastra (o caso é verídico e recente), mas põe em
destaque a 'fluidez' das orientações sexuais.
Isto é: nuns terrenos é obsessivamente descontínua,
noutros microscopicamente contínua. E mostra-se, nos dois casos, irredutível.
Pedro Schacht
Fernando Venâncio pois, não sei o que é “cultura
woke”, para além de um chavão sempre indolentemente analisado. Mas sei o que é
fazer-se um processo de intenções contra alvos que não se tem a hombridade de
identificar, alicerçado na falta de evidência: quem disse o quê, quando? E o
pós-modernismo é o papão, a sério? Não sei a que academia o autor se refere,
mas não é a dos últimos 20 anos, onde esses debates e batalhas há muito se
extinguiram. O respeito pela inteligência do leitor é uma regra básica que este
artigo não observa, mas, como disse, tem tudo para ter enorme sucesso, como somatório
de indignações. Provas para quê? O “vi na Internet” hoje suplanta o trabalho de
compulsar bibliografia.
Fernando Venâncio
Pedro Schacht Por vezes, a indignação é um derradeiro
recurso, quando já se disse e se ouviu tanto e de tantos modos. Quanto às
"provas" que exige, direi (repetindo-me) que o Pedro é um sortudo, ao
desconhecê-las.
JLuis Valinha
Pedro Schacht na Espanha hai-nos até no Governo…
Fernando Venâncio
JLuis Valinha Sim, na área do Podemos , suponho eu.
JLuis Valinha
Fernando Venâncio, supões bem…
Maria Trigoso
Pedro Schacht completamente de acordo. além de
fraudulento é pobre e confuso na argumentação.
José Luiz Sarmento
Ferreira
Pedro Schacht, o autor não fornece exemplos pela mesma
razão por que não é preciso fornecer exemplos da existência de gatos: toda a
gente já os viu e reconheceu quase sempre como tais.
Pedro Schacht
José Luiz Sarmento Ferreira um argumento extremamente
científico, estamos esclarecidos.
Fernando Venâncio
Pedro Schacht As suas objecções continuam a ser,
fundamentalmente, de natureza formal. Exige provas, bibliografia... coisas
assim. Tudo isto (dizem cautelosamente os psicólogos da área) parece revelar um
incómodo com o tema.
Pedro Schacht
Fernando Venâncio um incómodo apenas com a
desonestidade e a fraude intelectual, e com a facilidade com que se propaga,
nada mais.
Fernando Venâncio
Depreendo que o Pedro Schacht nunca se viu confrontado com o tipo
humano que o artigo refere. Mas posso garantir-lhe que ele existe e anda
fazendo estragos.
José Luiz Sarmento
Ferreira
Pedro Schacht, lá científico não é, mas é perfeitamente válido.
Há mais mundo - mundo real, pensável e verificável - para lá da academia.
José Luiz Sarmento Ferreira
Pedro Schacht, há uma diferença entre desonestidade ou
fraude intelectual e não conformidade com os protocolos formais do trabalho
académico. A não ser assim, só os académicos seriam intelectualmente honestos -
mesmo quando tentam contradizer tudo o qu…
Pedro Schacht
José Luiz Sarmento Ferreira não se trata de defender
um protocolo de autoridade, mas de transparência. Quando se acusa pessoas de
algo que se considera grave, deve prover-se argumentos sólidos e documentáveis
em favor da acusação, de forma a dar ao adv…
JLuis Valinha
Fernando Venâncio , e garantes bem…
JLuis Valinha
Fernando Venâncio, a de cousas que eu levo escuitado som
prova empírica davondo ao meu ver, e nom hei ser o único que tem escuitado, as
provas aí as estám para quem as quiger ouvir…
Fernando Venâncio
Pedro Schacht Quanto a denúncias e ao atear de
fogueiras, estamos falados com os fundamentalismos identitários, visados no
artigo.
Júlio Waterland Cruz
Pedro Schacht .." cria um papão ao qual atribui
todos os males do mundo, não identifica os praticantes da nefanda arte nem
oferece aos leitores a mais mínima evidência textual.."....Poderá sempre
começar pela pela leitura de "White Fragility" de Robin …
Júlio Waterland Cruz
Pedro Schacht ..eu li as referidas obras em inglês e
não tenho obrigação de conhecer o seu currículo profissional, como certamente
não conhecerá o meu.
José Luiz Sarmento
Ferreira
Pedro Schacht, quando se denuncia uma tendência não é
possível nomear um a um todos os seus representantes. Cometeríamos duas
injustiças: a de excluir quem devia ser incluído e a de incluir quem porventura
devia ser excluído. A menos que estejamos a escrever uma tese de trezentas
páginas, seiscentas com os apêndices, e mesmo assim seria preciso ressalvar que
os casos mencionados eram apenas exemplificativos... A questão é saber se a
tendência é real ou não, e penso que quanto a isto não subsiste qualquer
dúvida.
·
Albino Matos
Ih-ih-ih...
(I-i-isto é um statement|) 
Pedro Bravo López
Já há tempo que o disse o Zizek. Simplificando: sempre somos nós
(ocidentais) os responsáveis daquilo que acontece. Sobre o artigo concordo com
outros comentadores. Sendo eu racionalista, vejo um claro "homem de
palha". Talvez é quase o exigido polo formato.
Luis Miguel Rainha
Creio que o autor se confunde um pouco quanto ao pós-modernismo.
Fernando Venâncio
Luis Miguel Rainha O
problema é então terminológico... Que alívio!
Luis Miguel Rainha
Fernando Venâncio é
uma questão de monta. Ele aqui comete a falácia do espantalho: agrupando tudo o
que não gosta sob um chapéu comum e impreciso.
Fernando Venâncio
Luis Miguel Rainha A
tua objecção é, ela também, de natureza formal.
Luis Miguel Rainha
Fernando Venâncio não.
É mesmo de ordem conceptual.
Renato Janine Ribeiro ·
Seguir
O artigo de Lúcia Guimarães, na Folha de domingo, mostra que a liberação do
aborto foi decidida nos EUA por uma Corte Suprema toda de homens brancos, e sua
proibição acaba de ser decretada pela Corte mais diversa da História.
O retrocesso foi comandado por um Justice negro.
Fernando Venâncio
Renato Janine Ribeiro E
tem a certeza de que ele, o juiz Clarence Thomas, se 'sente' negro? 
A sério: o fulano é, sabe-se, casado com uma branca
trumpista da cabeça aos pés.
Gilberto Cruvinel
Renato Janine Ribeiro O
governo genocida brasileiro colocou um negro na presidência da Fundação
Palmares que não poderia ser mais anti-movimento das populações negras. A
polícia do Rio de Janeiro acaba de cometer a terceira das cinco mais letais
chacinas contra o povo negro e pobre daquela cidade. Ao entrevistar o chefe de
Polícia Militar, o repórter se viu conversando com um policial negro a
justificar a operação policial.
Mário De Carvalho
Renato Janine Ribeiro «Corte»
em Português é outra coisa. «Tribunal» é como se diz, seja em Portugal ou no
Brasil. Peço desculpa por intervir mas parece-me que a americanização da
linguagem é uma despromoção que merece ser atalhada.
Vinícius Portella
Fernando Venâncio ,
lembrei-me de Abdias Nascimento, líder de renome do movimento negro brasileiro,
que era casado com Elisa Larkin, antropóloga americana branquíssima. Mas creio
que tampouco o Abdias a fazia ver-se como negra. Complicadas essas
identidades... Terá o mundo ficado muito mais complicado sob esse aspecto?
Renato Janine Ribeiro ·
Mário De Carvalho no
português do Brasil são sinônimos.
Margarida Paredes
Uma crónica profundamente desonesta, nem vou argumentar.
Fernando Venâncio
Margarida Paredes Boa
leitura aqui mesmo abaixo.
Joaquim Alexandre
Rodrigues
Para quem quiser aprofundar esta loucura neo-puritana e anti-científica que
saltou de sectores radicais da academia norte-americana para os media e para a
política, recomendaria este livro:
https://www.guerraepaz.pt/inicio/696-teorias-cinicas.html
Fernando Venâncio
Joaquim Alexandre
Rodrigues Os meus contactos com grupos fortemente
"identitários" fez-me ver como é impossível qualquer diálogo. Ou
aceitas TUDO quanto defendem ou és um inimigo a abater, e pelo menos a
denunciar.
São, à sua maneira, terraplanistas.
Joaquim Alexandre
Rodrigues
São uma ameaça séria à democracia porque acabam a
ejectar, ou a querer ejectar, do espaço público quem não partilha o seu
"pensamento" mágico.
Esse fanatismo é um aliado objectivo dos trumps deste
mundo, porque aliena as pessoas que querem mesmo um mundo de cidadãos iguais,
independentemente da etnia, religião, género, orientação sexual, que querem é
criar um chão comum e não querem as pessoas arrumadas em caixinhas em guerras
de alecrim e manjerona sobre semântica e gramática obscura.
Essas pessoas de boa-fé que, por não usarem os
pronomes permitidos pelos wokes, correm o risco de serem acusados por eles de
uma "fobia" qualquer, acabam por se chatear de vez.
Permita-me um recorte do livro que explicita isso de
uma maneira clara:
" Se for socialmente aceitável falar
depreciativamente sobre «branquitude» e pedir castigo para qualquer um que
possa ser interpretado como expressando «antinegritude», isso será visto como
injusto pelos brancos.
Se for aceitável patologizar a masculinidade e falar
odiosamente dos homens, sendo hipersensível a qualquer coisa que possa ser chamada
«misoginia», quase metade da população (assim como grande parte da outra metade
que os ama) provavelmente levará isso a mal.
Se as pessoas cisgénero, que são 99,5% das população,
são acusadas de transfobia por simplesmente existirem, por não usarem a
terminologia correcta, por permitirem que os órgãos genitais influenciem as
suas preferências de namoro, ou mesmo terem crenças que não sejam compatíveis
com a Teoria 'queer' sobre género, isso muito provavelmente resultará em muito
antagonismo injusto contra as pessoas trans (a maioria das quais também nem
sequer acredita nisso)."
Helen Pluckrose e James Lindsay, in TEORIAS CÍNICAS,
Guerra e Paz, Lisboa, 2021, pp. 275/6
Fernando Venâncio
Joaquim Alexandre
Rodrigues Exactamente. Pobre gente que vive em contínuo
estado de indignação, medindo e pesando toda a afirmação que possa (e muita
pode) não respeitar os seus altos padrões de correcção.
JLuis Valinha
Fernando Venâncio,
de certa maneira até no reintegracionismo inça infelizmente esse mal… e eu,
como bem sabes, som reintegracionista…, mas a verdade é a verdade…
Fernando Venâncio
JLuis Valinha Sim,
o reintegracionismo galego é primariamente identitário e puritano.
JLuis Valinha
Fernando Venâncio,
escreves: “…Os meus contactos com grupos fortemente "identitários"
fez-me ver como é impossível qualquer diálogo. Ou aceitas TUDO quanto defendem
ou és um inimigo a abater, e pelo menos a denunciar.
São, à sua maneira, terraplanistas.”
E estás cheo de razom, faltou-che dizer, “e és atacado
com fúria e prepoténcia…”
No reintegracionismo acontece com frequéncia, para
vergonha e dano da causa que dim defender, escorrentando muitos potenciais
“seguidores”. Infelizmente…
JLuis Valinha
Fernando
Venâncio, às vezes descobres que o falar desses puritanos é tristemente
contaminado…
Olivia Palito
Prefiro os terraplanistas 

Manuel Boss Anastácio
O David Marçal é daquelas pessoas que são muito racionais até que não.
João Camacho
Uma série de generalidades sem qualquer base estética, filosófica ou
política. Como se vai argumentar sobre um processo de intenções que nem um
programa tem? Se o modernismo foi durante tanto tempo, continua a ser, a base
para uma diversas análises, o pós modernismo trouxe consigo um levantar de
questões, precisamente, do academicismo reinante. Não me parece que pessoas
possam e devam ser misturadas com conceitos, a não ser quando os tragam para a
discussão.
Fonte: https://www.facebook.com/fmvenancio/posts/pfbid05n3zw3AnXuTNdMNEWXxBTugT3RRpFKdc6yArML9mswidEPjHUxenVjm2W3FvEFiRl?comment_id=394026426049691
Consultado em 2022-07-26, 09:25
REAÇÕES II:
2022-07-25
David, por que dizes que o pós-moderno é obscuro?
Não te ocorre que o pós-moderno ainda ilumina? Trata-se
precisamente de iluminar o lado obscuro da modernidade. Por que presumes que o
moderno não é obscuro? Os monstros que a razão engendrava no seu sonho/sono não
eram pós-modernos, mas modernos.
É muito mais interessante pensar o pós-moderno como crítico do
moderno num sentido que honra o legado de pensamento crítico que a modernidade
cultivou. É pós- não é anti-. Sabes, a emancipação faz-se quase sempre contra
uma narrativa vigente da emancipação. Na verdade, o pós-moderno teve muito de
moderno no sentido em que foi precisamente o lado obscuro que se esconde sob a
luz intensa aquilo que procurou iluminar. A ciência moderna firmou-se por
desconfiar das evidências e apoiar-se com atenção e método nas inevidências.
Não há ruptura do pós-moderno com o espírito da ciência moderna. Há sim quando
esta se torna um empreendimento normativo, que deixa de se guiar pela
experiência da curiosidade pelo mundo. E exactamente a mesma crítica vale para
um pós-moderno que se abandonou à suspeita sem capacidade de se reencantar pelo
mundo.
Se a tua comparação é entre o pós-moderno e o moderno por que
razão comparas o mundo de hoje, com umas seis décadas de influência de cultura
pós-moderna latu sensu, com o do início do século XIX? Não terá a cultura de
uma racionalidade mais prudente, menos ingénua, atenta às suas consequências,
não certa do lema “saber é poder”, avessa às grandes narrativas, desde logo a
da direcção do curso da história, contribuído para o mundo melhor que é, no teu
parecer, aquele em que vivemos hoje? Menos mergulhos cegos nas certezas, mais
aprendizagem do convívio com o incerto, sem ansiedades.
E vivemos um mundo melhor? As desigualdades parece que crescem
apesar de menos pobreza, os recursos estão exaustos, o receio sobre o futuro
que nos espera cresce, a própria ideia de futuro parece um tanto em colapso. É
muito difícil fazer este tipo de avaliações sobre se vivemos ou não num mundo
melhor. Podemos é ter diferentes interpretações sobre como se chega a um mundo
melhor e, mais profundamente, ter também diferentes interpretações do que é o
mundo que desejamos. Repara, se nos enclausurarmos num ambiente asséptico
inteiramente disciplinado provavelmente conseguimos melhorar todos os
indicadores que apontas relacionados com a nossa vida biológica. Mas isso
faz-nos viver num mundo melhor? Falas a dado passo da obesidade e de que, para
alguns, medicalizá-la é uma agressão à identidade. Será que a identidade que
conferiu um sentido de existência a alguém não pode, se apreciada, valer mais
do que viver mais meia dúzia de anos? Um mundo livre não será aquele em que se
conhecem objectivamente as indicações e as contra-indicações, mas permanece a
mais ampla liberdade dentro dos limites que guardam a mesma igual liberdade
para os demais?
Dizes que o pensamento pós-moderno tem uma visão cínica das
coisas. Referes-te à ironia dos cínicos gregos ou é apenas o adjetivo
pejorativo que no dicionário se define como impudico, sem escrúpulo, etc.? Se
for a primeira, era preciso desenvolver os usos da ironia face às convenções. A
segunda entristece-me. Deixares a dúvida deixa-me a mim pasmo. Não vejo no
pós-moderno necessariamente a afirmação da impossibilidade do conhecimento
objectivo. Agora que a maneira como representamos e imaginamos o que seja
conhecimento objectivo pode ser debatida e muito modificada, disso não tenho
dúvidas. O que tem este processo de discussão, crítica, guiada por argumentos,
objectividade que aflora sempre, de cínica? Não sei o que queres dizer com
isso. Fica a impressão de que trais o pressuposto do que tentas defender, que o
fazes moralizando o que não é dessa ordem. Depois dizes que para o pós-moderno,
a “sociedade é formada por sistemas de poder e hierarquias que determinam o que
pode ser conhecido e como”. Eu diria outra coisa, algo assim – “a sociedade é
também formada por sistemas de poder e hierarquias que procuram determinar o
que pode ser conhecido e como”. Duas subtis diferenças que te dizem que a
realidade é isso e mais e que isso procura determinar, mas pode não determinar.
É nesse campo do que há mais e das possibilidades que se joga muito da atenção
crítica do pós-moderno, seja lá isso o que for. Em seguida, de uma maneira mais
crua, dizes tu, resumes a posição: “a ciência e a racionalidade são invenções
dos homens ocidentais heterossexuais com o objectivo de perpetuar o seu próprio
poder (....)”. Acontece que não raro a ciência serviu exatamente esse
propósito. Mas ser crítico de uma ciência ao serviço do poder não é ser crítico
da ciência, mas de um uso que dela se faz. Basta um pouco de leitura da
história moderna para dar conta de exemplos importantes. E isso é suficiente
para o tal olhar crítico sobre o próprio fazer da ciência, a maneira como se
imagina um mundo desenhado pela ciência. Ou certa maneira de ver a ciência. Eu,
aliás, vejo que o melhor antídoto contra visões redutoras da ciência é deixá-la
mostrar ou falar. O seu poder de surpreender e nos confrontar com o inesperado
é imenso.
É verdade que os grupos oprimidos possuem um conhecimento
vivencial próprio, mas não se sobrepõe à ciência e à racionalidade. A ciência e
a racionalidade percebem que os fenómenos humanos não são indiferentes à
representações que deles fazemos, não é como estudar a queda dos graves. As
maçãs caem na cabeça de Newton independentemente do que pensamos sobre a
maneira como caem. Mas como a cabeça de cada um funciona é em boa parte (não
totalmente!) plástico e as mãos que lhe dão forma são representações. O mesmo
acontece com as consciências de grupos, em particular as dos oprimidos de uma
forma sistemática. Nada nisto se sobrepõe à ciência. Pede é atenção, também da
ciência, às representações, à maneira como nos representamos e como
representamos outros. Todos os brancos serem racistas mesmo que não o saibam é
uma afirmação não sobre ti ou eu, mas sobre a representação histórica que
herdámos, não escolhemos, e que podemos/devemos estar atentos. É como se
vestíssemos roupa emprestada, com usos antigos e que deixaram marcas. Não é uma
acusação que te deva fazer sentir culpado.
Também é verdade que o esbatimento de fronteiras definidoras é
um tema, polaridades que, parecendo naturais, conservam uma organização que
poderia não ter sido assim e que convém a uma ordem estabelecida. Por exemplo,
Freud achava natural que as mulheres fossem mais egoístas do que os homens e
explicava-o com a hipótese do complexo de Édipo. Para ele, as meninas
sublimavam menos porque experienciavam um Édipo menos intenso do que os
meninos. O pai era para elas um rival menos impactante do que para os meninos.
E a sociedade vitoriana podia corroborar muito bem, à saciedade mesmo, a
hipótese de Freud. Há muita construção social onde imaginávamos que só havia
natureza. Não há só construção social, que seria uma espécie de equívoco
inverso, mas é importante guardar sempre um olhar crítico para aquilo que
tomamos como natureza, sobretudo quando estamos a falar de natureza humana, de
padrões de comportamento que não são indiferentes à maneira como se representam
e são representados por outros. O poder de previsão é muito maior em algumas ciências
naturais do que nas ciências sociais, mas o poder da representação é nestas
muito maior do que nas ciências naturais. É um poder também político quando
normaliza relações de superioridade ou de segregação. Por exemplo, a mulher
segregada para dentro da esfera do privado. Dizer isto não é abraçar nenhuma
obscuridade, mas, pelo contrário, iluminar o que esconde debaixo do tapete que
passa por chão da natureza. Deve escandalizar-te, mas olha: até a palavra “matéria”
atravessou toda a história da filosofia com uma certa aura de realidade
feminina a que a “forma” (decerto masculina) havia de dar clareza. Pois, mas
não há escândalo. Primeiro, porque estamos a conversar. Segundo, porque
conversamos descomplexadamente, sem necessidade de identificar uma frente de
batalha, uma polaridade em que estás de um lado do campo. Desfazer dualidades
cristalizadas é um belíssimo exercício de espírito crítico. E é surpreendente
como a ciência, com a sua racionalidade objectiva, double blind peer review,
etc., contribui para isso. Mas sem moralismo e barricadas. Há dias lia sobre
evidências para uma neurobiologia das plantas, também já li sobre o papel da
cultura na estabilização da diferenciação sexual. Alguém um dia notou que, embora
pareça, os corpos não caiem necessariamente mais depressa se forem mais
pesados, nem é o caso que a Terra esteja parada no centro do universo e que
todos os corpos celestes gravitem em seu torno. Não é ideologia, é
conhecimento. Mas a ideologia tende a dar-se mal com as inevidências que rompem
com a normalidade. E a ciência é uma enorme tentação para a ideologia. Era
preciso não deixar o evidente tomar a forma de normalidade.
Há ainda isso do reconhecimento do privilégio. Pois bem, é quase
uma questão de etiqueta diante do conhecimento informado da história das
desigualdades. Se falamos sobre desigualdade de género, mais vale ouvir
primeiro, sem renunciar a falar. Por vezes pode ser confuso. A realidade nem
sempre é como a prevemos. Com calma, ninguém fica de fora. Reconhecer o
privilégio é uma tarefa de conhecimento, com desafios próprios, específicos,
embora não mais obscura do que o estudo das propriedades de um semi-condutor.
Parece que sugeres que o pós-moderno está para o que tu entendes
ser bom como o sectarismo está para o universalismo. Repara. Há de facto uma
crítica a fazer ao universalismo (e ao humanismo) aclamado por quem escuta
pouco e não se ouve além de si próprio. A evangelização era eivada de
universalismo e humanismo. O colonialismo também. Propósitos civilizadores,
trazer para o lado do desenvolvimento, da saúde, das oportunidades, etc. Este
era um universalismo/humanismo pouco aberto ao convívio das diferenças, dos
modos de estar no mundo e de representar como se está no mundo. Mas há um
universalismo que escuta mais, que arranca dos lugares do mundo e que nesse
sentido está bem amarrado ao mundo. Na verdade, este universalismo que escuta
mais do que diz é o menos propenso a cair no sectarismo. Não tem como.
As considerações sobre o universalismo podem levar-nos longe.
Será justo pensar a igualdade entre todos a partir da perspectiva que nos
abstrai de nós próprios e da história que trazemos. Para mim, branco,
ocidental, heterossexual (até à data...), ver-me como igual a todos os outros
independentemente da cor da minha pele, de que lado da cerca nasci e cresci,
dos meus órgãos, da orientação sexual que os investe, etc., é fácil. Nenhuma
delas me marcou, por nenhuma delas fui identificado. Mas a outro que nasceu e
cresceu no contexto em que a sua cor de pele significava sujeição, o lado da
cerca que nasceu significou inferioridade, os seus órgãos culpa, a sua
orientação sexual mais culpa, pois bem, pedir-lhe que abstraia de tudo isso
para ser igual a mim mesmo é o mesmo que dizer-lhe: sê nada. O pós-humanismo
fala destas coisas sem grande obscuridade.
Finalmente, deixa-me dizer que do mesmo modo que há muito
herança do moderno que aprecias e eu aprecio no pós-moderno – este é como
aquele a virar-se sobre si para se observar –, também é muito mais moderno do
que pós-moderno o que, por vezes, usurpa o lugar da linguagem inclusiva, das
políticas de acção afirmativa, da discriminação positiva levada a grupos que de
outro modo não se libertam da opressão. É quando da atenta consideração dos
micropoderes, dos microrracismos, das microagressões que importa trazer à
superfície, em vez de manter calados, mas a produzir efeitos segregadores e
menorizadores, passamos a uma vigilância que não consegue ir além da superfície
das palavras e dos actos e já não interpreta, não confia apesar da indeterminação
da interpretação, e torna-se um dispositivo policial de comportamentos e do
discurso, verbal ou outro. Mas quando isto acontece o que irrompe é o lado
negro do moderno, não do pós-moderno.
Abraço amigo.
21 comentários
Daniel
Cardoso
"Pós-moderno" deixou de ser descrição para passar a
ser bengala verbal de quem quer fazer conotações negativas de forma críptica.
No fundo é o deslumbramento da linguagem em detrimento da factualidade.
Fernando
Venâncio
A reflexão de André
Barata tem muito sentido, tem até sentido em excesso. Julgo que, no texto de
David Marçal, "pós-moderno" serve de cabide mais ou menos adequado,
mais ou menos justo, para uma crítica, essa justíssima, ao Fundamentalismo
Identitário que se pôs a absorver toda a nossa realidade cultural,
culpabilizando-nos por todas as injustiças da História e do Mundo.
É indispensável
dizer-lhe Basta!, mesmo sabendo que nenhum fundamentalista tem qualquer noção
de limite. Porque uma coisa tenho por certa: ai de nós quando um fundamentalismo
identitário nos vier dominar.
Luis Miguel Rainha
Fernando Venâncio não
é um cabide; é uma arca de Noé onde metem tudo o que deploram nos nossos
tempos.
Fernando Venâncio
Enquanto continuar a escapar-te o cerne da questão
(veja-se o meu comentário), ficarás em belas bizantinices. E é triste.
Luis Miguel Rainha
Fernando Venâncio pois
eu creio que tu e o Marçal é que estão presos em jogos de palavras e investidas
contra moinhos de vento.
Fernando Venâncio
Luis Miguel Rainha Eh
pá, pazinho! Nem sequer o conceito de "apropriação cultural" te é
conhecido? O de que (exemplo real) um tradutor branco deve tirar as suas
colonialisras patas do poema dum negro? Em que mundo vives?
Rui
Galiza
O pós moderno já é passado. O que se assiste atualmente é aquele
espernear proprio de quem assimilou a coisa como se de uma religião se
tratasse.
David
Santos
Nesta interpretação o pós-moderno não é então mais do que o
confronto crítico com a modernidade, já que não postula nada, não se constitui
ideologicamente, não corresponde a qualquer mundivisão, certo?
José
Pedro Baptista
David
Santos Há toda uma mundividência https://www.youtube.com/watch?v=G333Is7VPOg
YOUTUBE.COM
Madonna - Papa Don't
Preach (Official Video) [HD]
Madonna - Papa Don't Preach (Official Video) [HD]
André
Barata
Há uma mundi-visão de
mundi-visões sem a pretensão de uma mundi-visão.
David
Santos
Ideologicamente soa-me
muito bem, apesar de me parecer dever o seu sentido exclusivamente ao confronto
com a modernidade, mas materialmente o que comanda são ainda as
"necessidades" - ainda que ideologicamente distorcidas - de toda a
ordem - como as ec…
André
Barata
Por acaso, acho que a
grande reivindicação política destes nossos tempos é pelo reconhecimento da
contingência do mundo e do que nele acontece. Abraço.
Ana
Rodrigues
Obrigada! Só tenho pena que esta réplica fique confinada ao FB…
Luis
Miguel Rainha
Propaga-se uma certa confusão entre pós -modernidade e
pós-modernismo.
Pedro
Galvão
Luis
Miguel Rainha E há lá coisa mais pós-moderna do que
propagar a confusão? 
Mais a sério: não é
fácil dizer com clareza o que é o pós-modernismo em grande medida porque poucos
filósofos se declaram dessa corrente (o tonto do Boaventura e mais quem…
Pedro
Galvão
Acho este artigo muito
elucidativo e, infelizmente, só ganhou actualidade.
https://www.sciendo.com/article/10.2478/disp-1999-0008
SCIENDO.COM
Racionalidade e
Realismo: O que Está em Jogo?
Racionalidade e Realismo: O que Está em Jogo?
André
Barata
Para mim, o autor de
referência é Lyotard e o seu pequeno livro sobre a condição pós-moderna. E é
muito pouco obscuro. 
Daniel
Cardoso
A Donna Haraway já
tinha desmontado essa retórica da "falta de verdade objectiva" nos
anos 70...
André
Barata
Aliás, autora que de
obscura não tem nada.
Pedro
Galvão
Independentemente dos
autores (e, à partida, quero lá saber dessa Haraway e do que ela montou e
desmontou), quais são, então, as teses distintivas do pós-modernismo? Convém
formulá-las com clareza suficiente, em vez de despejar nomes, pois de outra
for…
José
Vítor Malheiros
André, o teu texto, só com uns retoques, dá um belo seminário
para o teu curso…
Fonte: https://www.facebook.com/Andre.Barata.Nascimento/posts/pfbid02dDCr19pFJbeYsraQuEvPVadExsxvQf2KoUDyY4Fm4DMzMEYm2MP18RhLgvSNEdsxl
Consultado em 2022-07-26, 09:33