HALLELUJAH - A CircusQueer Film Gay Love, Hate & Religion (2019)
“Hallelujah”
is a circus/queer film about religion and the importance of choosing kindness
regardless of our differences or beliefs. Religion is a tough subject for many
in the LGBTQ community, and this piece is a reflection of the struggle and
rejection we often feel. It tells the story of an individual troubled by the
hate in the world and his partner who is fighting to lift him up, to remind him
he is beautiful exactly how he is. My message is that religion should inspire
more kindness and open arms, even towards those you may not understand.
My goal is to
create art that inspires a kinder world for the queer community by challenging
social norms, raising questions and starting conversations. I am creating a
series of conceptual videos about gender identity, human nature, queer culture
and how the world treats individuals who are “different” but exactly the same.
Please subscribe and stay connected through instagram/facebook to help make
future projects possible! By creating performance art that evokes emotion, I
hope to deliver important social messages and open minds towards a kinder
future.
Orgulho Gay
Foi a 28 de Junho de 1969. Stonewall. Quem não souber, procure na net. Nesse
dia começou algo que, para citar Thomas Mann, «ainda não parou de começar».
Nesse dia, começou o início de uma nova consciência sobre pessoas que não só se
sentem sexualmente atraídas, mas se apaixonam (até para toda a vida), por
alguém que é do seu próprio sexo. Mulheres que amam mulheres. Homens que amam
homens. Amor. Sexo, claro (consentido e entre adultos). «What's not to love?»
Nesse mesmo ano, o meu avô materno (a quem reconheço «post mortem» a feitura de
fotos que exprimem toda uma época) achou por bem fotografar-me a mim, seu neto,
e à minha irmã Catarina, sua neta, da forma que vocês vêem na foto. Azul para o
menino. Rosa para a menina. Todo um universo de experiência humana numa
fotografia tão simples.
O problema é que ao azul estava a ser adscrita uma mensagem que nada tinha a
ver comigo. Eu era rapaz. Devia ter comportamentos de rapaz. Mas não tinha. Já
escrevi sobre isso noutro texto («Terrorismo de Género», que foi o único texto
que escrevi no Facebook que chegou aos 20.000 likes).
Quando o meu avô tirou esta fotografia, eu não sabia que era homossexual. Não
sabia que existia homossexualidade. Mas sentia-me diferente dos outros meninos,
que já sabiam, muito antes de eu próprio ter descoberto, que eu era gay.
Chamavam-me maricas e paneleiro. Uma vez perguntei «o que é paneleiro?». Os
meninos disseram-me que «é quem leva no cu». Isso não me fez sentido. «Leva o
quê no cu?» Eu passei toda a minha infância num estado de inocência total em
relação à sexualidade, mas fui permanentemente vítima de bullying por meninos e
meninas (sim...) que sabiam «a missa toda» e que já tinham adivinhado, antes de
eu próprio saber, a minha sexualidade.
Ter sido maltratado e insultado durante todo o meu percurso escolar teve um
efeito em mim que durou para toda a vida. Fez-me permanentemente desconfiado em
relação às pessoas. Cortou-me os mecanismos necessários para fazer amigos.
Inculcou na minha cabeça a ideia paranóica que toda a gente «lá fora» me odeia
- ideia com que luto ainda hoje, aos 56 anos, embora saiba racionalmente que
não é verdade. Ser insultado e rejeitado na infância pela sexualidade que eu
ainda não sabia que era a minha ocasionou também um dano de longo alcance: a
dificuldade colossal que eu tenho de viver no presente. Estou sempre a
fantasiar uma realidade alternativa à que é a real; e tenho de me obrigar a
olhar à minha volta para aquilo que a realidade realmente é. A minha infância e
adolescência deram-me a noção de que o Presente não é um espaço seguro; tenho
de fugir dele, tenho de me defender dele. É difícil explicar os efeitos nocivos
que isso teve em mim. Mas foram muito maus.
As pessoas dizem (de forma irresponsável) que ninguém tem de celebrar Orgulho
Gay nenhum; e que ninguém tem de sair do armário; e que gays, lésbicas,
bissexuais, etc. já cansam com a permanente chamada de atenção para a realidade
que vivem.
Mas é óbvio para mim que o dia 28 de Junho tem de ser festejado e celebrado. Há
países no mundo em que a homossexualidade ainda é punida com pena de morte
(Irão, Arábia Saudita e por aí fora). Há países no mundo em que as pessoas
pensam que a melhor coisa que os pais podem fazer com o seu filho homossexual é
matá-lo (trata-se de países islâmicos, não vale a pena esconder esse facto; mas
os países de religião cristã Ortodoxa russa e grega não andam lá tão longe). Os
ataques a casais gays que demonstram afecto em público continuam em todos os
países ditos «civilizados». O Brasil, com o seu presidente e com a sua ideologia
boi/bala/Bíblia, é o que é.
Não venham dizer que não é fundamental celebrar o Orgulho Gay. É fundamental,
sim.
Em 1969, no ano de Stonewall, puseram-me um balão azul nas mãos. A cor do balão
implicava expectativas em relação a mim que eu não pude cumprir. Sofri por
isso. Mas tudo bem. Muita coisa mudou para melhor desde aí. Pude ser quem sou.
Pude casar com o André. Obrigado às mulheres e aos homens de Stonewall. Tenho o
maior orgulho em ser gay.
É hoje.
20ª edição. Lá estaremos. Orgulho LGBT. Quando eu era nova, mas ainda longe de
me ter feito as perguntas certas, não percebia o “orgulho”. Agora, quando leio
em 2019, com a igualdade na lei conquistada porque existe esquerda em Portugal,
jovens e adultos a fazerem troça do orgulho LGBT e a reclamarem o orgulho
heterossexual sinto raiva. Às vezes, vejo-me a explodir.
Depois
penso por que raio me perdoei e sou tão impaciente com a homofobia alheia.
Talvez porque tenha para mim que há um prazo razoável para sair do armário
ideológico, religioso ou sociocultural que nos bloqueia a empatia, talvez porque
tenha para mim que é menos compreensível a homofobia em 2019, após tantas
lutas, tantos debates, tanta visibilidade, do que há 25, 30 anos atrás.
A
verdade é que seja qual for a razão para a persistência da homofobia, ela está
aí. Os avanços foram enormes. Não sou, nesta matéria, o “lugar da fala”, mas
por andar pela matéria, por ter tantas e tantos amigos homossexuais, sei que
hoje é mais fácil do que há 30 anos exprimir-se individualmente a nossa
identidade sexual e saber mais das possibilidades do que das impossibilidades.
Não
foi fácil o caminho pela igualdade na lei. Vivi intensamente a luta pelo
casamento igualitário (2010), pela igualdade nas
candidaturas à adoção para os casais do mesmo sexo (2016), pela igualdade no
acesso às técnicas de procriação medicamente assistida (2016) e pela revisão da
lei da identidade de género, no sentido de passar a consagrar a
autodeterminação (2018).
Senti
um soco no estômago quando dei pela invisibilidade lésbica, pela conjugação
monstruosa do sexismo e da homofobia, em toda a história da procriação
medicamente assistida para todas as mulheres independentemente da sua
orientação sexual. Foi a conquista mais difícil e parecia-me academicamente tão
fácil (dada a inconstitucionalidade evidente de apenas mulheres tuteladas por
um homem poderem ser mães via PMA). Foi uma conquista envolta em insultos às
“mulheres egoístas” que se atreviam a serem mães sem um homem “como deve ser”.
O soco prolongou-se, porque a lei foi aprovada e quase não se falou nela.
Porque o sistema cala e invisibiliza as lésbicas.
De
resto, o soco passou a pontapé quando, por iniciativa de Deputados do CDS e do
PSD preocupadíssimos com estas mães “horrorosas”, o Tribunal Constitucional,
revogando jurisprudência anterior, declarou inconstitucional o anonimato das
doações de gâmetas. Isto é: esterilizou as lésbicas.
Aprovámos,
recentemente, uma lei que tenta minimizar o efeito da bomba.
Gays,
lésbicas e bissexuais têm se ser iguais e livres muito para além da lei e tendo
em conta os múltiplos fatores de discriminação que encerram em si mesmos.
Marcho
por toda a comunidade LGBT, mas este ano grito especialmente pelas lésbicas,
pela sua visibilidade, pelo cruzamento que vejo em tantas mulheres entre
misoginia, sexismo, homofobia e racismo.
A
extrema-direita e os populismos crescem à nossa volta. O fanatismo religioso
elege presidentes de grandes potências. O sexismo e o racismo lá estão. E as
lésbicas precisam de ser ouvidas.
Definirmos,
—
É reduzirmos
A alma
E é fechar o entendimento
António
Botto, Canções
António Botto é considerado um
poeta menor no espectro literário em Portugal. Não é estudado na escola, nem na
generalidade da Academia. Não figura, com certeza, nas listas dos maiores
poetas do país e, quando é lembrado, é reconhecido principalmente pela sua
amizade com Fernando Pessoa. Mas durante a sua vida, na primeira metade do
século XX, Botto era tema de conversa ao passar nas ruas de Lisboa, era
caricaturado em jornais e revistas, ou encarnado em romances como “A Velha Casa”,
de José Régio.
Era uma personagem destes tempos
por estar à frente deles. Em 1921, lançou a segunda edição de Canções, um
conjunto de poemas editados pela Olisipo,
editora de Pessoa, com uma capa que mostrava um retrato de Botto, de aspeto
andrógino, olhar sensual e ombros destapados. Esta era a primeira vez que
alguém escrevia, de forma clara, assumida e publicada, sobre experiências
homossexuais na primeira pessoa, em Portugal. Para Anna Klobucka, autora de “O mundo gay de António Botto”, significou
“o primeiro coming out
público” no país. E, por isso, atrás de “Canções” vieram as perseguições.
Embora
não tenha direito à minha vida, tenho direito às minhas ideias
(Epígrafe de “Cartas que me foram devolvidas”)
Armando Ferreira, jornalista no
jornal A Capital, publicou uma crónica na primeira página com o cabeçalho “O
livro da D. Antónia” que denunciava a obra de Botto como vinda do “desejo de
exibicionismo”: “Nem mais uma palavra de nojo, nem mais um ‘pst, pst’ ao
polícia da esquina para levar a registar com uma caderneta este mancebo que
tira o retrato a mostrar as ‘clavículas’ (…) Mas não haverá entre nós polícia
de costumes, ou três bons honestos espíritos capazes de lançar para o monturo
estes dejetos?”.
No início de 1923, os tais
“polícias de costumes” por que Armando Ferreira bradava constituíram a Liga de
Acção dos Estudantes de Lisboa, liderada por Pedro Theotónio Pereira, na altura
com 20 anos e que, mais tarde, durante o Estado Novo, foi Subsecretário de
Estado das Corporações e Previdência Social, Ministro do Comércio e Indústria,
representante português junto do regime de Franco, e ainda embaixador em
Espanha, Brasil, Estados Unidos e Reino Unido. Numa entrevista concedida por
esta altura, o número um do gang dizia: “Principiaremos, em boa ocasião, por
meter na ordem esses equívocos senhores que andam por aí, nas ruas e nos cafés,
irritando o indígena – como eles dizem – com maneiras femininas e elegâncias
ridiculamente exageradas”, prometendo “fiscalizar as livrarias e meter também
na ordem os artistas decadentes, os poetas de Sodoma, os editores, autores e
vendedores de livros imorais”.
Quem é
que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
– És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.
—Vibrar!
António
Botto, Canções
O movimento homofóbico iniciado
por estudantes da capital teve o apoio do Governo Civil de Lisboa, que se
prontificou a confiscar “Canções” e “O meu manifesto a toda a gente”, de Botto,
e ainda outros livros e panfletos escritos por Raul Leal, Judith Teixeira,
Álvaro de Campos e Fernando Pessoa.
“O meu manifesto a toda a gente”,
apreendido, era a resposta que Botto deixava a quem o criticava: “Eu vivo tanto
nas garras da minha Arte – a quem me entrego mais e mais – que nada ouço, nem
poderia, dos uivos da vilanagem”. As garras nunca o travaram: continuou a escrever
e a escandalizar durante toda a sua vida. Nas duas décadas seguintes, publicou
várias edições de “Canções”, escreveu prosa, contos para crianças, ensaios e
peças de teatro. Em 1947, mudou-se para o Brasil, onde escreveu os seus mais
pornográficos poemas, nunca editados, talvez devido à sua inesperada morte, em
1959, atropelado numa avenida do Rio de Janeiro.
Começam
as línguas a brincar
Nas glandes maciças e lindas
Dos dois formosíssimos caralhos,
Esbeltos, esculturais,
Macios, veludo, mas rijo
Como granitos imortais
Que se modelavam ao lamber
Daquelas línguas vermelhas
Como rosas sem abelhas
António
Botto, Caderno Proibido
Passados 60 anos da sua morte,
relembramos o legado deste “poeta de Sodoma” que escreveu o que não podia ser
dito. Entrevistamos Anna Klobucka, doutorada em Línguas e Literaturas Românicas
pela Universidade de Harvard e autora de vários livros, incluindo “O mundo gay
de António Botto”, publicado em 2018. Falamos sobre a sua obra poética, a
perseguição homofóbica de que sofreu, a sua relação com Fernando Pessoa, e a
razão porque parece ter sido esquecido pelo país.
(Obrigado também a Diogo
Agostinho, Luís Sousa, Nádia Simões e Artur Freitas, que ajudaram nesta
entrevista com sugestões de perguntas e temas. Um agradecimento especial a Adam
Mahler, por ter ajudado na preparação e estrutura da entrevista e por ter
sugerido que abordássemos este tema tantas vezes quantas as necessárias até que
o fizéssemos.)
Anna
Klobucka sobre António Botto, o primeiro poeta gay português (É Apenas Fumaça)
Captação de
som e vídeo: Bernardo Afonso Edição de
texto: Pedro
Miguel Santos Edição de
vídeo: Joana Batista Edição som: Bernardo
Afonso Entrevista: Ricardo
Esteves Ribeiro Preparação: Ricardo
Esteves Ribeiro, Pedro Miguel Santos, Bernardo
Afonso Texto: Ricardo
Esteves
Ligações externas:
Antônio Botto – Canções. São Paulo, Poeteiro Editor Digital, 2014. Publicado
originalmente em 1921.
“El
semiheterónimo Antonio Botto”, José Luís Garcia Martín. Archivum: Revista de la Facultad de Filología,ISSN0570-7218,Tomo 36, 1986(Ejemplar dedicado a: Miscelanea
Filológica dedicada al profesor Jesús Neira) ,págs.381-408
“António
Botto não foi só amigo de Fernando Pessoa. Foi o primeiro (do mundo) a escrever
poesia homoerótica sem véus”, Rita Cipriano. Observador, 2018-08-11
“Obras
de António Botto vão voltar às livrarias ainda este ano”, Rita Cipriano. Observador, 2018-08-01
“O
Mundo Gay de António Botto”, Anna M. Klobucka. Sistema Solar, 2018-06-11
“A maior felicidade é ser-se compreendido.
Sete poemas para recordar António Botto”, Rita Cipriano. Observador, 2019-03-16
“Como
a existência dramática de António
Botto acabou numa avenida de Copacabana”, Rita Cipriano.
Observador, 2019-03-16
“Um
colóquio para ficar a conhecer melhor António Botto”, Rita Cipriano. Observador, 2019-03-15
“Dois
dias para celebrar António Botto e Fernando Pessoa, amigos e poetas”, Rita
Cipriano. Observador, 2019-03-05
“Anna
Klobucka: António Botto e Fernando Pessoa beneficiaram de forma igual e recíproca da sua relação de amizade”, Rita
Cipriano, Observador, 2019-03-16
“Documentário
sobre António Botto estreia a 19 de março na RTP 2”, Rita Cipriano, Observador, 2019-03-16
Quando, como vi
hoje em um post, o pai pede que o filho dê um beijo no namorado para ele tirar
uma foto.
Também ocorre
quando o neto pergunta para a avó: “O que a senhora faria se eu trouxesse meu
namorado aqui na sua casa?” E a avó responde: “Café.”
Ou quando alguém
pergunta a uma pessoa: “O que achas de um homem casar-se com outro homem ou de
uma mulher casar-se com outra mulher?” E a pessoa responde com outra pergunta: “Vai ter bolo?”
A cura ocorrerá
por completo, quando a culpa impingida desaparecer; quando o caráter prevalecer
sobre a sexualidade; quando a felicidade sem medo for alcançada; quando for
possível ser feliz sem pensar em pecado; quando a tolerância prevalecer.
A cura virá
quando o peso das costas puder ser finalmente retirado; quando acabar o
sentimento de ser um estranho no ninho; quando todos forem igualmente amados
independentemente da sua natureza; quando o mundo conhecer o real sentido da
palavra “respeito”.
Dessa cura
precisamos todos nós. Pois quando aceitamos que o outro seja... simplesmente
seja... da maneira que ele é, o mundo fica mais fácil para que sejamos do jeito
que somos!