sábado, 13 de agosto de 2016

57 COMPORTAMENTOS DE PARCEIROS PERVERSOS

 

Quando lidamos com parceiros perversos, abusivos, tóxicos, sejam homens ou mulheres, é comum nos depararmos com diversas características que essas pessoas parecem ter em comum, bem como comportamentos repetitivos, previsíveis, como se se tratasse sempre da mesma pessoa. Esses comportamentos, quando impostos dentro da relação, podem levam à total destruição da identidade, autoestima, capacidade de funcionar e vontade de viver da pessoa que se submete.

A seguir, vejamos como identificar ALGUNS desses comportamentos e características:

PIROTECNIA AMOROSA - Também chamada de bombardeamento amoroso, consiste em encantar o alvo com inúmeras demonstrações de amor, muitas delas exageradas ou públicas. Os pedidos de namoro, noivado são um show para outras pessoas verem, não um momento do casal. As surpresas são constantes, quase exageradas, deixando o alvo sem saber como retribuir ou agir diante do bombardeamento constante. O mais interessante é que quase o alvo percebe que as ações exageradas não parecem vir acompanhadas de real profundidade e sentimento. É quase uma intuição que, por não saber explicar, a ignora.

DISTRAÇÃO/ILUSIONISMO - Junto com o item acima, primeiros dias, talvez meses, a pessoa perversa tende a ser muito atenciosa, presente, interessada, de um modo tão intenso que fará com que seu alvo pense que está “sendo cuidado”; que aquela presença imposta constantemente é um verdadeiro sinal de amor. O que na verdade está fazendo é manter seu alvo ocupado o tempo todo, quase sempre com coisas ligadas à relação ou à pessoa perversa, de modo que não tenha mais tempo para si mesmo, para as outras pessoas ou para prestar atenção em como a pessoa realmente é.

TUDO PARA ONTEM - Pessoas perversas fazem planos para o futuro desde os primeiros contatos. Falam em casamento, filhos, morar juntos, adquirir patrimônio em tempo record. É tudo tão rápido que causa estranhamento em todos, exceto na pessoa apaixonada.

DESLIZES - Pessoas perversas fazem discursos moralistas, como se fossem as pessoas mais corretas do mundo, mas em meio ao discurso, sempre deixam escapar alguma coisa que vai na contramão do que pregam.

CICLO ABUSIVO - É um ciclo ininterrupto que alterna comportamento destrutivo e construtivo, típico de muitos relacionamentos e famílias disfuncionais. A pessoa perversa faz algo bom e logo em seguida algo ruim, desestabilizando o alvo e criando um ciclo vicioso de expectativa.

ALIENAÇÃO - O ato de interferir ou cortar de vez as relações do indivíduo com os outros (amigos, família, colegas de classe, trabalho, etc). A ideia aqui é distanciar o alvo de qualquer pessoa que possa lhe servir de apoio.

"SEMPRE" e "NUNCA" - São declarações contendo as palavras sempre ou nunca. Elas são comumente usadas, mas raramente refletem a verdadeira intenção do perverso. “NUNCA mais fale comigo”, para logo estar perseguindo o alvo e encontrando desculpas para continuar o contato.

DESIGUALDADE LEGAL - A pessoa perversa sujeita o parceiro a uma séria de regras que ele não se sente na obrigação de seguir. Por exemplo, o alvo não tem a permissão de manter contato com pessoas do passado, mas ela pode, o alvo deve respeitar sua família, mas ela pode desprezar a sua, etc.

RAIVA - Pessoas que sofrem de transtornos de personalidade com frequência carregam um sentimento de raiva não resolvida e uma percepção mais aguçada ou exagerada que foram injustiçados, anulados, negligenciados ou submetidos a abuso, refletindo esta raiva sobre aqueles que os rodeiam.

ISCA - Um ato provocativo usado para provocar uma resposta irritada, agressiva ou emocional de um outro indivíduo. Diz algo que sabe que vai causar ira, mas o faz exatamente para ver seu interlocutor desequilibrado.

CULPABILIZAR – O hábito de identificar uma pessoa ou pessoas como responsáveis por um problema, ao invés de identificar formas de lidar ele.

PROJETAR – É a prática de atribuir ao outro seus defeitos e maus comportamentos. A pessoa perversa dirá que o outro é mentiroso, promíscuo, agressivo, manipulador e tudo que achar de si mesmo. Às vezes, são coisas bem específicas. Um exemplo, um narcisista conhecido dizia perguntava se eu fazia sexo virtual com meu professor. Não entendia de onde aquilo tinha saído até descobrir que era viciado em sexo virtual. Outro narcisista tinha hábito de dizer que as mulheres se vitimizam para que homens paguem suas contas, mas quando em minha companhia, choramingava ganhar pouco para ter cada pãozinho seu pago.

BULLYING - Qualquer ação sistemática de ferir uma pessoa aproveitando-se de uma posição de força seja física, hierárquica, social, econômica ou emocional. Pessoas perversas são experts em bullying contra seus parceiros, colegas de trabalho, amigos e familiares. Basta saberem de algo que lhe causa vergonha, que passam a utilizar da forma mais cruel possível.

RACIONAMENTO - O racionamento é um dos comportamentos mais cruéis do parceiro narcisista. Consiste em descobrir o que você mais gosta e simplesmente deixar de fazer ou racionar. Pode ser ações, frases ou palavras. Desta forma você passa a mendigar por aquilo que antes ele lhe dava em abundância e agora dá quando quer ou não dá. Pode ser de um simples " bom dia" a comportamentos mais complexos. Se sabe que você gosta ou deseja, vai negar ou racionar.

TRAIÇÃO - Se envolve num relacionamento romântico ou íntimo com outras pessoas quando já está empenhado em um relacionamento monogâmico com você. Para perversos, isso é bem comum, pois são extremamente promíscuos.

APROPRIAÇÃO - Consumir ou assumir o controle de um recurso ou bem pertencente ao (ou compartilhado) com um membro da família, parceiro ou cônjuge, sem antes obter a sua aprovação. Toma posse sem se importar com o que o outro pensa.

EXPLORAÇÃO - É a prática de explorar o parceiro, amigos ou familiares a fim de ter suas contas pagas. Vitimizam-se dizendo que não para poderem encostar-se. A exploração também se dá quando tomam empréstimos em família acreditando que não têm o dever de pagar. A exploração também está presente no modo que prestam seus serviços ou contratam serviços para si, tentando sempre tirar vantagem,cobrando a mais ou tentando pagar menos do que o que vale o serviço recebido.

CHANTAGEM EMOCIONAL - Um sistema de ameaças e punições por trás de uma aparência fragilizada de vítima, utilizado na tentativa de controlar os comportamentos de alguém. Essa característica também passa a ser do alvo de pessoas perversas, pois crê assim, poderá acessar a empatia da pessoa perversa, o que jamais acontece.

SENSO DE DIREITO - Uma expectativa irrealista, não merecida ou inadequada de condições de vida e tratamento favorável vindo dos outros. Se acham mais merecedores do que as outras pessoas. Tratamentos especiais lhes são devidos, mas para os outros, jamais.

FALSAS ACUSAÇÕES - Padrões de crítica injustificada ou exagerada direcionada ao alvo. Você diz: tal pessoa me paquerava quando eu era adolescente e passa a ouvir por anos que a pessoa foi e é seu/sua amante. Acusa o alvo de ter feito coisas ou ter tido comportamentos que nunca teve simplesmente porque "suspeita".

FAVORITISMO - Favoritismo é a prática de dar sistematicamente tratamento positivo e preferencial para um dos filhos, um dos subordinados ou um dos membros dentro de uma família ou grupo de iguais (trabalho) em modo que os outros se sintam inferiores ou menos queridos. Faz isso usando outras pessoas também em detrimento do parceiro amoroso.

LITÍGIO FALSO- O uso de processos judiciais sem mérito para machucar, assediar (especialmente em divórcios) ou ganhar uma vantagem econômica sobre um indivíduo ou organização.

AUTOPROMOÇÃO GENEROSA - É a prática de dar ao alvo uma lista de pessoas que gostariam de estar com a pessoa perversa, bem como uma lista dos defeitos do alvo para, então, dizer que, mesmo assim, deseja estar com ele.

GASLIGHTING - É a prática de lavagem cerebral e manipulação a fim de convencer um indivíduo mentalmente saudável que ele está ficando louco ou que a sua compreensão da realidade é equivocada ou falsa. Nega-se fatos ou falas como se nunca tivessem ocorrido.

PODA - Podar é o ato predatório de manobrar um outro indivíduo para uma posição que o torna mais isolado, dependente, propenso a confiar e contar somente °, tornando-o mais vulnerável a um comportamento abusivo. Fazem isso dizendo que o alvo não é capaz sem sua ajuda ou presença.

ASSÉDIO - Qualquer padrão persistente ou crônico de comportamento indesejável de um indivíduo para com o outro. O comportamento rotineiro de pessoas perversas é um assédio constante.

HOOVERING- Hoovering é uma metáfora tirada de uma marca muito popular de aspiradores de pó nos EUA e Grã-Bretanha (Hoover) para descrever como uma vítima de abuso, ao tentar fazer valer os seus próprios direitos, deixando ou limitando o contato num relacionamento disfuncional, é sugada de volta quando a pessoa perversa temporariamente apresenta um comportamento melhor ou desejável, passando por uma revitimização.

IMPULSIVIDADE - A tendência de agir ou falar com base em sentimentos do momento ao invés de raciocínio lógico. Pouco importa se o que é dito não faz o mínimo sentido. Se precisar se justificar, dirá que disse porque VOCÊ a forçou a agir daquela forma.

ISOLAMENTO IMPOSTO – É uma das primeiras providencias tomadas pela pessoa perversa quando se envolve com um novo alvo. A ideia é distanciar; isolar o alvo de sua rede de apoio, o que inclui amigos e familiares. É muito comum que a pessoa perversa não tenha amigos íntimos e se relacione de forma superficial também com sua própria família e, por isso, não aceita que o alvo tenha relacionamentos mais profundos. Com o isolamento imposto e a alienação, a um certo ponto ficará somente ela e o alvo, o que aumenta seu poder de controle sobre o outro.

MANIPULAÇÃO FLOREADA - É um modo imperceptível de fazer exigências enquanto elogia. Por exemplo, um perverso conhecido dizia à moça com quem estava começando a se relacionar que queria fazer dela sua princesa, sua mulher para toda vida, porque ela era linda especial, mas que “não tinha certeza” que ela o colocaria entre suas prioridades “já que ela tinha muitos amigos e dava muita atenção aos seus familiares”.

INTIMIDAÇÃO - Qualquer forma velada de ameaça oculta, indireta ou não-verbal.

INVALIDAÇÃO - A criação ou promoção de um ambiente que incentiva o indivíduo a acreditar que seus pensamentos, crenças, valores ou presença física é inferior, imperfeita, problemática ou inútil.

FALTA DE CONSCIÊNCIA - Indivíduos que sofrem de transtornos de personalidade são muitas vezes preocupados com suas próprias necessidades e interesses, às vezes, com a exclusão total das necessidades e preocupações dos outros. Algo que pode ser interpretado pelos outros como uma falta de consciência moral ou egoísmo, nada mais que isso, é na verdade o modo de vida da pessoa perversa.

FALTA DE CONSTÂNCIA DO OBJETO - Sintoma de alguns transtornos de personalidade, a falta de constância do objeto é uma incapacidade de lembrar que as pessoas ou objetos são consistentes, confiáveis e com os quais se pode contar, especialmente quando eles estão fora de seu campo imediato de visão. Constância do objeto é uma habilidade de desenvolvimento que a maioria das crianças não desenvolvem até dois ou três anos de idade. Daí a indiferença com seus sentimentos na ruptura, a falta de confiança quando não está controlando e etc.

NARCISISMO - Este termo descreve um conjunto de comportamentos caracterizados por um padrão de grandiosidade, o foco egocêntrico, necessidade de admiração, a atitude de auto-serviço (eu me sirvo sempre), falta de consideração e falta de empatia, sendo esta última a característica mais forte e maligna do narcisismo e portanto, essencial para a identificação desse padrão de comportamento. Não existem narcisistas capazes de se colocar no lugar do outro.

DESQUALIFICAÇÃO FLOREADA - a prática de elogiar, inserindo desqualificadores dentro de uma frase, de modo que a parte desqualificadora não seja percebida, mas surta efeito. Exemplo: “Eu amo suas gordurinhas” “Adoro seu corpo, tanto que conheço cada uma de suas 387 estrias” “Minha gorducha linda” “Você é um homem tão bom para mim que passei a amar até o seu péssimo português”. Serve para minar a autoestima do alvo de modo que se esmere para “melhorar” até ter o elogio “completo”.

NEGLIGÊNCIA - Uma forma passiva de abuso em que as necessidades físicas e emocionais de um dependente são desconsiderados ou ignorados pela pessoa responsável por eles. Nas relações tóxicas com pessoas perversas, a negligência vem à tona com frequência quando o alvo tem problemas de saúde, financeiros ou precisa de cuidados.

NORMALIZAÇÃO- Numa relação com perversos, é uma tática usada para dessensibilizar o indivíduo para comportamentos abusivos, coercitivos ou inapropriados. Em essência, a “normalização” nada mais é do que a banalização de coisas que, em sã consciência, não aceitamos como normais; é a manipulação de outro ser humano para levá-los a aceitar algo que está em conflito com a lei, as normas sociais ou seu próprio código básico de comportamento. Ex. Aceitar traição, agressão física, verbal, promiscuidade, poligamia, etc.

JOGOS SEM VITÓRIA - São situações comumente criadas por pessoas que sofrem de transtornos de personalidade, onde eles apresentam duas opções ruins para alguém próximo a eles e as pressiona a escolher entre os duas, onde sempre sairá perdendo. Isso geralmente deixa a pessoa que não tem transtorno de personalidade com um sentimento de "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come".

COISIFICAÇÃO - A prática de tratar uma pessoa ou um grupo de pessoas como objetos, mantendo-as à sua disposição ou descartando-as de acordo com suas necessidades. No sexo, o alvo também é coisificado no sentido que, após a relação sexual, comportamentos frios e abusivos são restabelecidos do nada, quando minutos antes tudo era maravilhoso, fazendo com que o alvo se sinta usado.

SÍNDROME DE ALIENAÇÃO PARENTAL - Um termo usado para descrever o processo pelo qual um dos pais, geralmente divorciado ou separado do outro progenitor biológico, usa sua influência para fazer uma criança acreditar que o outro progenitor é ruim, mau ou inútil.

MENTIRA PATOLÓGICA - decepção persistente por parte de um indivíduo para servir os seus próprios interesses e necessidades com pouca ou nenhuma relação com as necessidades e preocupações dos outros. Um mentiroso patológico é uma pessoa que existe apenas para servir suas próprias necessidades ainda que para isso deve lançar mão de mentiras.

VITIMIZAÇÃO - É a prática de assumir uma postura de vítima diante de amigos e familiares, relatando histórias onde aparece como vítima e o alvo como o vilão, de tal forma que as pessoas se compadeçam de si e odeiem o alvo. Para isso, lançam mão de histórias que jamais ocorreram, inacreditáveis quando ouvidas pelos alvo e que normalmente causam muita angústia, sentimento de injustiça e desejo de vingança.

RECRUTAMENTO - A maneira que a pessoa perversa tem de controlar ou abusar do alvo através da manipulação de outras pessoas para que estas inconscientemente passem a defendê-la, falar por ela, "comprar sua briga" ou "fazer o trabalho sujo" que ela deseja contra seu alvo. Essas pessoas são chamadas em inglês de “flying monkeys” que se traduz em “macacos voadores”, que nada mais são do que possibilitadores, facilitadores e colaboradores recrutados pela pessoa perversa.

EXPLOSÃO, RAIVA E AGRESSIVIDADE IMPULSIVA - Elevações explosivas verbais, físicas ou emocionais em uma briga, desproporcional à situação real. Mas atenção, esse comportamento sozinho não indica perversidade, já que acompanhado de culpa e remorso verdadeiros pode indicar Transtorno Explosivo Intermitente, que nada tem a ver com perversidade e pode ser tratado.

SABOTAGEM - A ruptura espontânea da calma ou status quo, a fim de servir a um interesse pessoal, provocar um conflito ou chamar a atenção.

BODE EXPIATÓRIO - a escolha de um indivíduo ou grupo para receber culpa ou tratamento negativo não merecidos. A pessoa perversa faz e põe a culpa nos outros.

MEMÓRIA SELETIVA E AMNÉSIA SELETIVA - O uso de memória, ou a falta de memória seletiva com o intuito de reforçar um preconceito, crença ou obter um resultado desejado, utilizando somente aquilo que lhe convêm.

AUTOENGRANDECIMENTO - É um padrão de comportamento pomposo; o hábito de vangloriar-se. Presença de narcisismo ou competitividade projetados para criar uma aparência de superioridade.

VERGONHA - A diferença entre culpa e vergonha é que ao culpar alguém você diz a uma pessoa que ela FEZ algo ruim e ao envergonhar alguém você lhe diz que a pessoa É algo ruim. Por exemplo, um perverso conhecido quando queria envergonhar, dizia que eu era mentirosa diante de todos (vergonha). Na intimidade, dizia que não podíamos ser felizes porque eu mentia muito (culpa). Nenhuma das duas coisas acompanha fundamento ou explicação lógica, sempre, quase sempre, fruto de suposições.

STALKING (PERSEGUIÇÃO)- Qualquer padrão invasivo e indesejável de buscar o contato com outro indivíduo. A pessoa narcisista pratica stalking somente quando é dispensada pelo alvo antes que ela o descarte. Como não aceitam ser deixadas, perseguem. O alvo, normalmente, também pratica stalking ao ser descartado.

TESTE - Forçar repetidamente outra pessoa a demonstrar ou provar seu amor ou compromisso com o relacionamento a fim de demonstrar para a pessoa narcisista o seu valor.

POLICIAMENTO DO PENSAMENTO - Um processo de interrogatório ou tentativa de controlar os pensamentos ou sentimentos de outra pessoa. É uma prática percebida especialmente quando o alvo deseja estar em silêncio ou reflexão.

TRIANGULAÇÃO - Ganhar uma vantagem sobre os "presumidos rivais" ao manipulá-los para que entrem em conflito uns com os outros. Falam mal de uma pessoa para a outra a fim de ver a relação entre elas se deteriorar ou ver pessoas disputando um posto importante na vida da pessoa perversa

SILÊNCIO AGRESSIVO - método insidioso de violência psicológica que consiste em passar horas ou dias tratando o alvo com silêncio injustificado e punitivo, quase sempre acompanhado de cara fechada e pequenas frases de acusação sem sentindo ou embasamento na realidade. “Você sabe porque estou assim.”

VISÃO DE TÚNEL - Uma tendência a se concentrar em um único interesse (seu) ou ideia e negligenciar ou ignorar outras prioridades importantes ou todas as circunstancias.

DESCARTE OU SUMIÇO - Como toda relação para pessoa com essas características é superficial, independente do tempo que passou, quando ela sentir que o alvo não serve mais aos seus propósitos, ou seja, deixou de ser uma fonte de suprimento narcísico, ela o descartará e desaparecerá sem explicação ou com um arroubo de raiva injustificada que deixará o alvo se perguntando o que fez de errado. Um relacionamento com uma pessoa perversa narcisista jamais termina com uma conversa clara e civilizada; um comum acordo. Ou some ou demonstra ódio para justificar o fim.

P.S. É óbvio que a presença de um desses comportamentos isoladamente não indica perversidade ou transtornos de personalidade. É um conjunto deles que dará sinais claros de que se trata de pessoa perversa/abusiva.
 
 
 
 
 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Alexandre Quintanilha



Alexandre Quintanilha dá a cara e conta a sua história em nome da esperança LGBT

Em entrevista para a nova web-série Já Melhorou, o deputado socialista Alexandre Quintanilha falou em Abril sobre o seu percurso de vida, a relação com o marido Richard Zimler e a vivência da homossexualidade em diferentes países e alturas. O vídeo saiu no sábado passado.
No projecto digital Tudo Vai Melhorar, Organização Não-Governamental e plataforma portuguesa afiliada ao It Gets Better nos Estados Unidos, que incentiva a perseverança de jovens LGBT face ao bullying e preconceito homofóbico, Quintanilha surgiu como a primeira figura política homossexual a conversar sobre uma vida realizada. O professor universitário jubilado e actual deputado do PS descreve a sua história de vida, incluindo a infância, carreira académica e a relação que construiu com o escritor Richard Zimler, companheiro de longa data.
Na entrevista, inserida na web-serie Já Melhorou, começa por falar da juventude passada em Moçambique, cheia de vivas experiências e curiosidade. Nascido em 1945, pertenceu à geração do pós-guerra a quem era permitido acreditar num mundo melhor. “Não tinha medo de explorar o desconhecido”, afirma. Descreve-se como um romântico desde cedo, “atraído, como todos nós, por pessoas”.
Foi por volta dos 13 anos que começou a sentir uma “barreira diferente” nas relações que mantinha, reparando que a intimidade que lhe era permitida com raparigas se tornava quase impossível com rapazes, por recusa dos mesmos. “Tínhamos relações sexuais, mas enquanto que para mim era o que estava à espera, para eles não”, relembrou. Traz consigo até hoje a convicção de que a emoção por outro ser humano deve ser sempre explorada, seja com homens ou mulheres, uma opinião que lhe surgiu cedo na vida.
A vida levou-o aos caminhos da ciência, formando-se em Física em Joanesburgo e mais tarde especializando-se em Biologia. Após uma longa carreira de investigação e ensino tanto nos Estados Unidos como em Portugal, tornou-se deputado do PS pelo círculo eleitoral do Porto na XXIII Legislatura, liderando hoje a Comissão de Educação e Ciência no Parlamento.
A entrevista prosseguiu com as memórias dos tempos passados em São Francisco, no estado norte-americano da Califórnia. Foi aí que, em 1978, conheceu o marido, o escritor Richard Zimler. O momento era de libertação social e de aguerridas causas, ou não fosse a área da Baía de São Francisco historicamente conhecida pelos fortes movimentos de comunidades como a LGBT e a feminista.
A epidemia da SIDA nos anos 1980 afectou particularmente a cidade. Quintanilha não escondeu o que poderia ter acontecido, confessando que não fosse pela relação monogâmica que iniciou com Richard, “não estaria aqui hoje”. Acrescenta aliás que parte do motivo pelo qual o casal se mudou para Portugal foi o ambiente deprimente que surgiu em São Francisco, devido ao elevado número de afectados pela doença.
A forte base católica portuguesa poderia parecer à partida um impedimento à normal vivência de um casal gay em Portugal na década de 1990, mas o deputado não concorda. “É um país muito respeitador da liberdade das pessoas”, afirmou. A partir daí, a relação com Zimler continuou a fortalecer-se, até se tornarem um dos primeiros casais gay a casar em Portugal, após a aprovação do casamento homossexual em 2010. Mas a permanência não é obrigatória. Depois de 20 anos tanto em África como na América e Europa, "a ideia é ir os últimos 25 anos para a Nova Zelândia", numa verdadeira volta ao mundo em pares de décadas.
Sobre as relações, o deputado tem opinião assente. Afirma que a sua o ajudou a crescer e a perceber melhor quem é. "Uma relação muito forte é aquela em que começamos a sentir a pouco e pouco uma enorme satisfação com a realização do outro", sustenta.
A web-série semanal Já Melhorou incluirá oito episódios com entrevistas, sendo o depoimento de Quintanilha o segundo. O projecto está no entanto a enfrentar dificuldades para conseguir que outras figuras públicas e políticas contem as suas histórias. Diogo Vieira da Silva, presidente da AssociaçãoTudo Vai Melhorar, confessa que apesar de a disponibilidade de Quintanilha para a entrevista ter sido total, a falta de voluntários mediáticos obrigou a uma alteração da estratégia da temporada. Procuraram assim figuras que fossem reconhecidas dentro da comunidade LGBT, mesmo que escapassem um pouco à esfera pública.
O jovem presidente espera, apesar de tudo, que Alexandre Quintanilha seja apenas um começo. Para a próxima temporada, na calha para ser exibida no final deste ano ou início do próximo, Diogo Vieira da Silva conta que outras figuras políticas se cheguem à frente quando convidadas. “Porque essas figuras têm uma responsabilidade, nem que seja mediática, de fazer com que jovens gays e lésbicas percebam que nada os impede de se realizarem quer pessoalmente quer profissionalmente, e que temos de deixar de viver com medo. É esta a intenção da web-série. Demonstrar de forma positiva que é possível sermos nós mesmos”, explica. Texto editado por Álvaro Vieira
 

sábado, 16 de julho de 2016

Vida gay dos anos 70 não foi apenas sexo

Em Portugal o discurso sobre os homossexuais e outras minorias sexuais e de género tende a ser pobre em pluralismo, Nos EUA são incontáveis os contributos para uma debate democrático. Stand by Me é um bom exemplo dessa realidade que ainda nos é tão distante.
Livros Stand by Me: The Forgotten History of Gay Liberation     
É simplista supor que os homossexuais norte-americanos dos anos 70 viviam a pensar em sexo, noite, sauna e praia, narrativa surgida na década seguinte perante a epidemia da sida, maneira rápida e preconceituosa de explicar que as principais vítimas do VIH tenham sido homossexuais.
Eis a tese de Jim Downs em Stand by Me: The Forgotten History of Gay Liberation, aparentemente próxima do discurso que sectores LGBT proferem há talvez duas décadas, segundo o qual a sexualidade deve ser apresentada como aspecto secundário da vida dos homossexuais para que estes simbolicamente se aproximem da suposta sexualidade contida dos heterossexuais e sejam reconhecidos como capazes de aceder ao casamento e à adoção. Aparenta, mas não está próxima.
“Ao defender que o sexo não foi decisivo na vida gay, espero que este livro não seja entendido como uma história asséptica dos anos 70”, justifica Downs na conclusão. “Não há dúvida de que o sexo teve influência e importância para as pessoas gay, naquela década, mas não era a única coisa que lhes interessava, como diz a narrativa que herdámos” (p. 195).
O livro surge, assim, como objecto contra-corrente. Esforça-se por desmontar a versão que o activista e escritor Larry Kramer ajudou a fazer vingar, primeiro com o livro Faggots (1978), depois com intervenções inflamadas ao longo das décadas de 80 e 90, de que a promiscuidade sexual dos homossexuais e a alegada incapacidade para manterem relacionamentos estáveis teria sido determinante para que a sida se tornasse epidémica.
De forma velada, instala uma pergunta que merece vários volumes e poderia ser assim formulada: porque é que os actos sexuais, a maneira como são feitos, a frequência e os locais onde se praticam, são aspectos considerados relevantes quando se fala de homossexualidade?
Jim Downs, agora em licença sabática, professor de História e de Estudos Americanos na Connecticut College desde 2006, é académico no método, apresentando escassas fontes testemunhais (uma, por certo, as outras não são óbvias). Optou por documentos escritos, nomeadamente imprensa da época que encontrou nos arquivos dos centros comunitários LGBT de Filadélfia e Nova Iorque e na Biblioteca Pública de Nova Iorque.
“Toda a história é política, tendemos a construir, no presente, um passado ao serviço de uma agenda ideológica concreta”, recorda a introdução. “Fui aos arquivos e tirei notas. Quis documentar os episódios desconhecidos que constituem a libertação gay. Quis contar histórias surpreendentes de pessoas homossexuais que construíram igrejas, fundaram jornais, abriram livrarias e repensaram o significado da identidade gay. Quis mostrar que a década de 70 foi mais do que uma noite na sauna” (p. 6). E insiste: “O sexo foi apenas uma parte do que aconteceu”.
O texto divide-se por sete capítulos, os mais interessantes dos quais versam a presença de gays em igrejas e comunidades católicas; o nascimento da livraria Oscar Wilde Memorial, em 1967, em Nova Iorque; e a cultura da imprensa de nicho, com destaque para a revista The Body Politic, editada entre 1971 e 1987.
O primeiro capítulo é dedicado a um episódio que teve lugar a 24 de Junho de 1973, em Nova Orleães, quando um desconhecido ateou fogo ao bar Up Stairs Lounge, onde habitualmente se juntavam dezenas de homossexuais em comunhão religiosa, sob orientação do reverendo William Larson (a imprensa da época falava em bar queer, palavra que então significava “maricas”). Naquele dia estavam 120 pessoas reunidas para assinalar a Revolta de Stonewall, acontecimento de 1969, em Nova Iorque, que se estabeleceu como início do movimento LGBT actual. As chamas lavraram com fúria e pelos menos 27 fiéis ficaram encurralados no bar, morrendo carbonizados, intoxicados ou espezinhados. O autor chama-lhe “o maior massacre de homossexuais na história americana” e adiciona pormenores, incluindo a identidade de algumas vítimas. Nunca se soube quem ateou o fogo.
No capítulo 2, prossegue o retrato das comunidades de católicos, protestantes e judeus que se organizaram em Atlanta, Nova Iorque, Los Angeles, Santa Monica, Nashville, São Francisco, etc., constituídas em oposição às hierarquias oficiais que não reconheciam os homossexuais como fiéis.
“A religião era, e continua a ser, usada atacar a homossexualidade, mas ajudou muitos gays nos anos 70 a aprenderem a aceitar a sua sexualidade e a sentirem-se confortáveis como parte da sociedade” (p.44), lê-se. No fim da década, tais congregações “tinham alcançado bastante visibilidade pública”.
Dissidentes religiosos, estes homossexuais “queriam ter acesso a outros rituais, sobretudo o casamento”, garante o autor. “Ainda que estivesse proibido, o casamento gay desenvolveu-se como ritual comum na década de 70 em igrejas e sinagogas um pouco por todo o país, tornando-se símbolo dessa nova cultura dos gays americanos” (p. 47).
Esta faceta terá sido esquecida pelos primeiros historiadores e escritores que se debruçaram sobre aquele período porque, de acordo com Down, muitos provinham da esquerda e olhavam a religião como fonte de opressão das minorias sexuais.
Ao dar outros exemplos de actividades artísticas e jornalísticas, actos militantes e acontecimentos públicos organizados por gays e lésbicas, o autor pretende demonstrar a tese de partida. No caso da livraria Oscar Wilde Memorial, a que dedica o capítulo 3, fica-se a conhecer um episódio curioso (p.74). Por algum tempo, o fundador da livraria, Craig Rodwell, namorou um homem que conhecera junto ao Central Park, tendo a relação acabado quando este descobriu que Rodwell o tinha contagiado com gonorreia, o que significava que a relação não era monogâmica. O homem trabalhava em Wall Street e tinha uma ideologia conservadora. Chamava-se Harvey Milk. Depois da separação, Milk foi viver para São Francisco, tornou-se activista, passou a pensar à esquerda e tornou-se um dos principais líderes do movimento LGBT norte-americano (Gus van Sant dedicou-lhe o filme biográfico “Milk”, em 2008).
O autor reforça: se hoje temos ideia de que os homossexuais estão em constante protesto, em manifestações e militâncias contra o Estado, um olhar cuidadoso sobre o que se passou há mais de 40 anos demonstra que “muitos gays procuravam sentido comunitário e um discurso cultural próprio, mais do que direitos legais ou reconhecimento político” (p.14).
Muito circunstanciado, com datas, nomes e locais, Stand by Me acaba por cair na repetição de ideias, às vezes com frases idênticas num mesmo capítulo. Tenha sido falha da edição ou escolha deliberada, é desnecessário, porque repisar argumentos resulta bem no discurso oral, não no escrito.
Outros dois pequenos problemas: um formal, outro de conteúdo. Primeiro, a inclusão de notas no fim do livro, e não em rodapé, como se fosse boa a experiência de interromper a leitura para consultar notas que se estendem por 40 páginas. Segundo, o autor refere, de passagem, que até àquela década a Biblioteca do Congresso (a biblioteca nacional dos EUA) catalogava o tema “homossexualidade” sob a categoria “crimininalidade e anomalias clínicas” (p. 69), mas parece ter esquecido a retirada da homossexualidade do catálogo de doenças mentais da Associação Americana de Psiquiatria, em 1973, o que constitui uma das mais importantes mudanças de paradigma nesta matéria e ajuda a explicar a força que o movimento LGBT então ganhou.
Se em Portugal o discurso sobre os homossexuais e outras minorias sexuais e de género tende a ser pobre em pluralismo, circunscrevendo-se, mesmo com a internet, a uma ou duas correntes de opinião semelhantes e prescritivas, nos EUA são incontáveis as vozes e os contributos para uma debate democrático, com vivacidade de argumentos e pontos de vista. Stand by Me é um bom exemplo dessa realidade que ainda nos é tão distante.  


sexta-feira, 15 de julho de 2016

Pescador da barca bela


Pescador com rede, 1868, do impressionista francês Frédéric Bazille



BARCA BELA

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador!

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!

Almeida Garrett

domingo, 10 de julho de 2016

Abdellah Taïa

“O que está a acontecer com os homossexuais é uma espécie de armadilha”


“Tenho 42 anos e ainda não encontrei um lugar onde me sinta totalmente eu”, diz o escritor e cineasta Abdellah Taïa, um dos primeiros intelectuais marroquinos a assumir a sua homossexualidade e a ter de se exilar por isso. Ocidente e mundo árabe, acusa, estão a usar os gays num jogo perigoso.

"Quando se é gay aprende-se rapidamente a arte de esconder. Tornamo-nos especialistas. O que dizer, o que não dizer. A autenticidade passa um pouco por tentar responder à pergunta: como ser um bom mentiroso, como ser bom a esconder? Tenho muita dificuldade em lidar com estes sentimentos em sociedade. Na escrita, faço-o sem problemas. Esconder ou mentir são outra coisa. Na escrita se nos escondermos não seremos felizes. É uma felicidade diferente. É uma verdade diferente.”
A voz e a imagem de Abdellah Taïa são a de um rapaz pouco mais do que adolescente. Sentado numa cadeira no centro de um pequeno anfiteatro na Bowery, em Nova Iorque, fala do que é crescer e ser homossexual no mundo muçulmano, ter de fugir para se assumir, e escrever, filmar e pensar sobre isso em Paris, longe da recriminação sexual mas próximo do preconceito relativo à condição árabe. “No mundo em que vivemos ninguém é inocente, mas todos querem parecer e gritar que são”, diz agora via Skype, na ressaca do atentado de Orlando, do choque e da reflexão. Justamente no dia em que assina um artigo no Libération acusando os políticos árabes de não terem sido suficientemente veementes a condenar o ataque, e o Ocidente de ter tido um “discurso mais do que ambíguo” em relação ao mesmo. Deu-lhe o título de “Orlando, um silêncio não muito gay”.
Abdellah Taïa, 42 anos, escritor, autor de oito romances, realizador de cinema, tenta romper o que chama de coro de clichés e justificações simplistas para qualificar o que aconteceu a 12 de Junho, um domingo, na discoteca Pulse. “Os homossexuais estão muito sós. Eu sou marroquino, muçulmano, homossexual, vivo em Paris e senti-me muito só no domingo. Aterrorizado e só”, escreveu no Libération, uma frase que fez ecoar uma história que contara antes, em Nova Iorque, enquanto convidado da última edição do festival Pen America, no final de Abril. “Ser oficialmente homossexual em Marrocos é um pesadelo, mas o que se passa no submundo é tremendo. Agora estou em Paris e sou um objecto sexual para muita gente e, muitas vezes no coração do universo gay, vejo franceses a terem fantasias comigo que remetem para o século XIX, de uma subserviência árabe”, disse num debate sobre o "outro ficcional", ou seja, o modo como a escrita enforma uma identidade e a transforma em personagem literária. 
É a escrita sobre a estranheza e a fronteira entre o íntimo e o público ou político, feita a partir do reconhecimento de que se é diferente — olhado como tal — no meio onde se vive. Além de Abdellah, participaram nessa conversa os escritores Saleem Haddad, também gay, de múltiplas origens — palestiniana, libanesa, iraquiana e alemã — e o brasileiro Alexandre Vidal Porto, gay, diplomata e autor de Sergio Y, um romance que está a ser muito bem acolhido nos Estados Unidos e em que o protagonista é transexual. Entre os três, Adbellah era o único na condição de exilado. Foi, aliás, um dos primeiros intelectuais marroquinos a assumir publicamente a sua homossexualidade. “Todos tivemos de mudar e inventar um sentido de possibilidade, de classe social ou um passado. Em todos nós houve uma deslocação que pode ter correspondido a uma passagem de fronteira física de modo a conseguirmos sair de uma identidade ficcional de que éramos prisioneiros”, disse também então Adbellah, sobre a tal mentira que veio da necessidade de esconder o real tornando-o ficção.
Estamos em território ambíguo entre biografia e literatura de que nenhum dos três saiu, mas que em Adbellah surge particularmente marcado pela forma como a sua voz biográfica se mistura com a narrativa. Não sabe escrever a não ser na primeira pessoa. “Para mim a literatura é sobre a voz. Não consigo escrever na terceira pessoa, preciso de ouvir uma voz e não me pode ser estranha”, comentou em Nova Iorque, outra vez sobre o modo como a biografia se impõe, pelo menos enquanto ponto de partida. “Isso tem a ver com a minha definição de literatura, começar com alguma coisa que é muito concreta, real, e tentar a partir daí atingir o céu.”

Adbellah Taïa cresceu em Salé, a noroeste de Rabat, a capital, numa família pobre. “O francês era falado entre os ricos, em casa falava-se árabe, viam-se filmes egípcios, eu imitava-os e dava os papéis de protagonistas às minhas irmãs. Gostava daquele mundo de imagens e nunca sonhei ser escritor. Hoje escrevo em francês, mas o que sei sobre a vida é na minha primeira língua, o árabe. Gritar tem de ser em árabe. Acho que aprender francês foi uma decisão política para mim. Não se escapa da primeira experiência.” E nesse início havia a voz da tia a contar histórias. Foi nela que se inspirou para escrever Les Infidèles, finalista do Prémio Femina em 2012. “Era uma prostituta profissional. Começou a prostituir-se para ganhar dinheiro para levar comida aos irmãos e por isso eles nunca a expulsaram de casa. Viveu connosco até morrer e contava histórias à noite, quando as luzes se apagavam”, lembra. Histórias repetidas que fizeram da ideia mitológia da oralidade árabe um dado concreto da infância de Abdellah. Afirma que essa voz o formou, encontra o eco dela na sua, de escritor, e terá estado, por exemplo, na história de um rapaz de 13 anos, vítima de abuso sexual na terra onde vive.

Entre estigmas

Publicada em 2011 nas páginas do diário norte-americano The New York Times, a história nasceu da raiva. “Eu estava muito zangado. Vivi com as minhas irmãs experiências tão extremas. Perda, fome… Aos 13 anos a minha família pediu-me para que eu fosse o homem da casa e a vizinhança queria que eu fosse o objecto sexual, aquele que iam violar sempre que lhes apetecesse. Eu estava tão revoltado.” A voz sai num tom calmo, mas firme, um inglês com sotaque entre o árabe e o francês. A sala está em silêncio, só quebrado quando Abdellah tempera a tragédia com humor. “Eu não me sentia estranho. Sentia que não era justo. Eu dava tanto e eles queriam mais ou matavam-me. Eu queria ir embora. Lembro-me de nessa altura ter vontade de chorar; vivia num casa pequena com 11 pessoas e não havia sítio para onde ir e chorar em paz. Quando essas coisas aconteciam, eu saía de casa e deambulava. Para mim, Paris é a continuação desse deambular.”
Abdellah Taïa chegou a França com 25 anos. Queria ser realizador de cinema. “Acho que esse sonho era também a perseguição de uma vontade antiga de viver num lugar onde eu pudesse ser eu; onde pudesse ser livre e lutar por alguma coisa. Consegui isso mas, ao mesmo tempo, em França sou visto todos os dias como um árabe e tenho de lutar contra essa nova prisão em que esta sociedade me colocou: a dos árabes e do estigma que isso comporta. Por isso não posso dizer que o Ocidente é o lugar onde podemos ser totalmente livres. Há leis e direitos que protegem os indivíduos, mas há políticas e agendas e discursos que dizem o oposto”, refere já no pós-Orlando, em conversa via Skype, a mesma voz, o mesmo sotaque, igual determinação. “O que pode fazer alguém como eu? Antes de mais, porque não há muita gente que possa falar no mundo muçulmano, especialmente quando se é gay, tenho de ter muito cuidado com o que digo. Não quero aparecer como aquele que tem razão. A minha família continua totalmente controlada pelo poder de Marrocos que é composto por pessoas que não entendem o mundo. Tenho de analisar as coisas politicamente de um modo muito cuidadoso. Nessa conversa em Nova Iorque foi para mim muito fácil dizer que agora sou livre em Paris e que as outras pessoas não querem liberdade. Isso não é verdade. Não são eles que não querem liberdade. As pessoas que estão a dirigir o país não querem sequer que as pessoas possam pensar que podem conquistar a liberdade. Estão politicamente controladas.”
As palavras de Abdellah Taïa remetem para o artigo do Libération onde chama a atenção para a responsabilidade dos que têm voz, como ele. “A causa homossexual vai ser explorada, daqui para a frente, de uma maneira simplista nos debates pelos espíritos mais conservadores, os mais populistas, os meios assumidamente xenófobos. […] Limitamo-nos, nestes casos, a definições estreitas. Os direitos das minorias parecem muitos frágeis por estes dias […] face a grades ameaças.” É mais uma vez o sublinhar de que não há inocentes. “Não posso dizer que o islão é o problema e o Ocidente a solução. O Ocidente não é de modo algum inocente. O racismo e a xenofobia são fenómenos muito complexos. Em França, na Holanda, na Suécia vemos reacções racistas em relação a pessoas que estão a passar necessidades e isso parece completamente normal. Ao mesmo tempo os dirigente dos países muçulmanos não alteram as coisas em relação à liberdade individual”, diz ao PÚBLICO o autor, repetindo perguntas, problematizando um assunto que não tem, para já, “respostas imediatas como muito querem fazer crer”. Perguntas como: Quem diz a verdade? Quem manipula quem? Quem vai impedir este mundo de explodir nesta luta pela verdade? Quem vai salvar os homossexuais nos países árabes e muçulmanos? Quem os vai ajudar a emanciparem-se, sinceramente e longe de todo o neocolonialismo? A questão, diz Abdellah, não é religiosa como Ocidente e Oriente querem fazer crer de acordo com conveniências muito próprias.
“Não posso generalizar, não seria nem moralmente correcto fazer isso. É verdade que a religião continua a ser muito importante no mundo árabe e muçulmano porque é usada politicamente pelos dirigentes desses países. Se o islão é contra a homossexualidade, o cristianismo e o judaísmo também são. Mas é muito mais do que isso. Hoje na América há padres evangelistas e políticos republicanos a dizer coisas odiosas contra os homossexuais. Não estou a defender o islão. Estou a tentar pensar com alguma clareza. Não é por causa do islão enquanto religião. O islão é como outra religião. É por causa de quem usa a religião para permanecer no poder e dominar o outro. Não devemos esquecer do que não está assim tão distante - no início do século XX a homossexualidade era considerada uma doença no Ocidente. E também não estou aqui a proteger o mundo islâmico. O mundo islâmico tem de ter fazer autocrítica e de mudar. O que está a acontecer agora aos homossexuais é uma espécie de armadilha.” É por isso que escreve: “No domingo [dia 12 de Junho], o desespero atingiu um novo patamar. Num site marroquino li os comentários a artigos sobre a matança de Orlando. Oitenta por cento estavam repletos de ódio, de violência e de justificações pseudo-religiosas. Num sitefrancês, os comentários estavam cheios de cólera quando falavam dos árabes e dos muçulmanos, recheados de erros, de uma ignorância abissal e de racismo assumido. Claro que há neste mundo os que acreditam que a esperança se deve manter viva — eu faço parte desses idiotas.”