domingo, 14 de fevereiro de 2016

Top 5 exemplos históricos de que a homossexualidade sempre existiu

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A homossexualidade é muitas vezes considerada um comportamento “anormal”, mas a história mostra que estas considerações são bem recentes.
 
Vivemos em um mundo que está concedendo os mesmos direitos a todos, não importando sua orientação sexual – embora seja um processo lento. Alguns têm recusado publicamente este fenômeno, legislativamente necessário para a igualdade, chamando a homossexualidade e outras “opções não-tradicionais” de anormais, desumanas, indecentes, etc. Entretanto, a história mostra o contrário. Confira:
 
1 – Elites da Grécia e Roma
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Estudar os clássicos, especialmente Platão, nos ensina que o caminho para a vida adulta na Grécia Antiga incluía a interação entre um mentor e um jovem aprendiz, ambos do sexo masculino, que ocasionalmente, seria sexual. O que podemos considerar hoje como pedofilia era visto como “amor-de-meninos“, ou a relação entre um adulto e um menino púbere que não seria considerado um adulto, até que fosse capaz de crescer uma barba cheia.
 
No entanto, havia também pessoas do mesmo sexo vivendo relacionamentos românticos na Grécia e Roma antigas quando já adultos. No século IV a.C., por exemplo, uma tropa grega formada exclusivamente por bi e homossexuais assumidos, conhecida como “O Batalhão Sagrado de Tebas” foi considerado o melhor exército de Tebas. Documentos antigos comprovam que o Batalhão Sagrado foi formado por 150 casais do sexo masculino, porque seu amor mútuo e dedicação os fizeram lutar ferozmente.
 
2 – Índios americanos e o “Third Gender
Durante os séculos XVII e XVIII, no Vale do Mississippi, houve um terceiro gênero conhecido pelos americanos nativos. Os franceses consideravam-lhes berdaches, um termo depreciativo cujo significado seria algo como “macho-meretriz”. Hoje, acadêmicos e estudiosos usam palavras como “Two-Spirit” (duas-almas) ou “Third Gender” (terceiro gênero/sexo) para descrever essas pessoas.
 
Historiadores e etnógrafos observaram que estes indivíduos fisicamente masculinos assumiram trabalhos femininos tradicionais, travestidos de mulheres e envolvidos em relacionamentos com outros homens. Eles desempenharam um papel vital, muitas vezes sagrado na comunidade. Escreveu o antropólogo Walter Williams sobre o assunto:
“Berdaches tinham um reconhecimento especial na sociedade nativa não por eles terem se tornado fêmeas sociais, mas por tomarem uma posição entre os sexos. Eles serviam de intermediários entre mulheres e homens, em mais do que apenas um sentido social. Eles não são considerados iguais aos homens e mulheres, a sua diferença enfatizada é uma maneira de definir o que as mulheres são, e que os homens são.”
 
Sua androginia, ao invés de ameaçar o sistema de gênero, foi incorporada a ele. Eles eram comuns em diversas tribos americanas.
 
3 – Casamentos entre mulheres na Nigéria
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Hoje, o lesbianismo na Nigéria pode levar à prisão ou mesmo à pena de morte. Menos de cem anos atrás, no entanto, alguns dados foram coletados na Nigéria (e de outras partes da África), revelaram terem existido “casamentos” entre as mulheres. O estudioso Hleziphi Naomie Nyanungo, diz que é interessante notar que o “casamento de mulheres” para eles, significa a uma união do mesmo sexo:“Não é união lésbica, porque geralmente não há atração e/ou envolvimento sexual entre as partes.”
 
Nyanungo continua a dizer que esses casamentos eram arranjados para garantir que as mulheres pudessem exercer influência social. “Tradicionalmente, o casamento de mulheres serviu como um meio pelo qual as mulheres exerciam influência em sociedades onde a herança e sucessão passavam através da linha masculina”, escreveu Nyanungo. “Em tais sociedades, o casamento de mulheres tornava alcançável status social como chefe da família.”
 
Nestes casamentos, as mulheres ricas se casariam com meninas jovens, permitindo que os seus amantes masculinos e outros homens tenham relações com as meninas, às vezes em troca de presentes. O propósito de convidar os amantes do sexo masculino na equação era produzir filhos, algo que as duas mulheres sozinhas jamais conseguiriam.
 
4 – As tribos de Papua-Nova Guiné
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A tribo Etoro, na Nova Guiné, é conhecida por sua crença de que a “força da vida” de cada homem está contida no sêmen. Assim como na Grécia antiga, rituais sexuais têm meninos em felação com homens mais velhos, passando, assim, a força de uma geração para a seguinte.
 
Isso tem o efeito de privilegiar o status de um macho sobre uma mulher, a tal ponto que a relação heterossexual é proibida por até 260 dias do ano, além de não poder ser realizada em ou perto de suas casas e hortas. Já as relações homossexuais são permitidas a qualquer momento como o intercâmbio de “força da vida” sendo acreditado como viabilizador de boas colheitas.
 
No mesmo país, a tribo Marind, também conhecida por suas práticas canibais, acredita, como o Etoro, no conceito do sêmen como força vital e costuma utiliza-lo em ritos antes do casamento heterossexual. A tribo Sambia, também em PNG, tem crenças e práticas semelhantes.
 
Claro, deve-se notar que esta versão da homossexualidade não poderia ser mais distante geografica, pratica, e filosoficamente do debate por direitos dos homossexuais nos Estados Unidos e na Europa.
 
5 – França Medieval e Europa Pré-Moderna
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Um relatório de 2007 no Journal of Modern History mostrou que casais do mesmo sexo na França Medieval poderiam, por meios de um contrato juridicamente legal de “irmandade/fraternidade”, compartilhar a mesma casa, propriedade e vida.
 
Embora o contrato, por vezes, referir-se exclusivamente aos irmãos, o relatório também observou que, em certas ocasiões, estes contratos domésticos compartilhados poderiam referir-se a pares não consanguíneos. Essas uniões eram estritamente seculares, não religiosas. No acordo, ambas as partes serviam de herdeiro um do outro.
 
A prática também é documentada no resto do continente, especialmente nos países mediterrâneos. Acordos semelhantes foram realizadas em toda a Europa pré-moderna, e alguns tinham componentes religiosos, como o escritor e advogado Eric Berkowitz escreveu: “No período até aproximadamente o século XIII, cerimônias de união entre homens foram realizadas em igrejas por todo o Mediterrâneo. Essas uniões foram santificadas por padres, com muitas das mesmas preces e ritos usados ​​no casamento. As cerimônias salientavam o amor e compromisso pessoal acima da procriação, entretanto, casais que se uniam em tais liturgias, provavelmente tiveram relações sexuais tanto (ou tão pouco) quanto seus homólogos heterossexuais.”
 
Muito tem sido escrito sobre como esses matrimônios eram tidos mais como parceria doméstica do que como um casamento entre o mesmo sexo, por isso é difícil afirmar definitivamente que o casamento do mesmo sexo era comum em toda a Europa na época.
 
De qualquer forma, a história deixa claro que, referente às parcerias, o “tradicional”, ou “conservador”, pode significar mais do que apenas um homem e uma mulher.
Rafael Fernandes, 2016-02-12


sábado, 26 de dezembro de 2015

10 dicas que podem salvar a sua relação

 
 


Por muito apaixonados que estejamos, todos sabemos que uma relação amorosa dá trabalho. Principalmente quando ‘apostamos’ nela e achamos que terá futuro. 

Por isso mesmo, o SOL fez uma lista de dez dicas que o podem ajudar a ‘salvar’ uma relação. Claro que esta não depende totalmente dos pontos referidos mais abaixo, mas são estes pequenos detalhes que podem fazer a diferença entre uma relação aborrecida e pronta para se desfazer e uma entusiasmante, baseada na cumplicidade e no respeito.

1.    Pensar antes de falar: Todos nós sabemos que certas expressões ou frases podem magoar mais um do que outros. E por conhecermos tão bem o nosso parceiro, pode haver tendência para ‘atacar’ com o que mais ‘perfura’. Pense bem antes de usar essas palavras, pois os efeitos podem ser irreversíveis. Mesmo que estejamos muito em baixo e decepcionados com a atitude do outro, nada justifica magoar ainda mais a pessoa de quem tanto gostamos.

2.    Não recorrer ao silêncio: Uma boa relação assenta em vários pilares. Mas há um deles que é bastante importante – e muitas vezes esquecido: a comunicação. Não vale a pena deixar de falar com o seu companheiro. Para além de acabar por não atingir os seus objectivos (sejam eles quais forem), este ‘tratamento’ vai acabar por forçar uma distância entre as duas pessoas. Se não quer encarar o outro – muitas vezes, é difícil dizer algumas coisas cara-a-cara logo após uma discussão – deixe-lhe um post-it, envie um e-mail ou uma SMS, mas não deixe nada por dizer, nem faça com que a outra pessoa sofra na ignorância.

3.    Pôr-se na pele do outro: É mais fácil falar do que praticar. Mas a verdade é que resulta. Tente colocar-se no lugar do seu parceiro e veja por que razão ele/ela age de certa forma. Por que razão ele/ela se irrita tanto com a sua desarrumação ou por que fica tão nervoso com a presença de um dos seus amigos. Há sempre uma explicação para tudo. Em vez de partir logo para a discussão, calce os sapatos dele/a e tente perceber o porquê de haver tais reacções.

4.    Ser honesto/a: Parece um princípio básico, mas muitas vezes é esquecido. Diga aquilo que tem a dizer, de uma forma construtiva. Só assim é que uma relação será construída com base na confiança. 

5.    Oiça tudo: Quando começamos a desligar das conversas que temos com o nosso parceiro, é o ‘princípio do fim’. Esteja atento ao que lhe é dito, quer seja uma conversa banal ou algo mais profundo. Mostre interesse nas conversas… e não só.

6.    Aprecie cada detalhe…: Mostre também interesse pelas actividades desempenhadas pelo outro e pelas suas opiniões. Como se costuma dizer, ‘o amor está nos pequenos detalhes’ e são essas particularidades que distinguem a pessoa que ama dos demais.

7.    … E promova os detalhes: Não tem que ser só o outro a dedicar-se à relação. Ofereça pequenos presentes, combine jantares românticos, faça-lhe o almoço preferido dele/dela e acima de tudo mime-o/a. Não há nada melhor que mimos e os melhores são dados por aquela pessoa especial.

8.    Não grite: Não é por elevar a voz que vai ter mais razão. Para além disso, irá passar uma imagem agressiva e ninguém quer passar o resto dos seus dias com alguém que parece transformar-se no Hulk cada vez que as coisas correm mal. O melhor é sair da sala, escrever num papel o que sente e deixá-lo para que o outro leia. A outra pessoa vai sentir a sua frustração e perceber que ficou magoado/a, sem que seja necessário recorrer à violência.

9.    Não dizer nomes: Por incrível que pareça, esta é um ponto que tem que ser referido. Há casais que trocam palavrões entre si, sem ter noção da gravidade daquilo que estão a dizer. É falta de educação e não cultiva a cumplicidade e o respeito entre as pessoas, quer seja entre namorados, casados, familiares ou amigos.

10.    Amor, amor e mais amor: Ame o outro como se não houvesse amanhã. Ame de uma forma apaixonada e não caia na monotonia da rotina. Tente procurar coisas novas no outro com alguma regularidade e potenciá-las na sua relação (por exemplo, se ele/a for um excelente cozinheiro, incentive-o a continuar e a preparar pequenas refeições românticas). Uma relação só irá resultar se se dedicar a 100% à outra pessoa. Mas é essencial (imprescindível, até) que se ame também a si próprio. E ao seu núcleo de amigos e familiares mais próximos. Para que qualquer relação resulte (seja ela amorosa ou não), tem que se sentir bem consigo próprio. Essa sim é uma prioridade que não deve descurar. 
 
Joana Marques Alves26/12/2015
 
http://sol.pt/noticia/491491/10-dicas-que-podem-salvar-a-sua-relacao





sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Homofobicus otarius: os "melhores" comentários



Foi aprovada a lei da adopção por parte de casais do mesmo sexo e gerou-se o caos nas redes sociais, como sempre. Antes de vos mostrar, quero apenas dizer que, para mim, só há um argumento relativamente válido de quem é contra a adopção por parte de casais do mesmo sexo: é o argumento de que a sociedade pode não estar preparada e que os miúdos vão sofrer discriminação na escola por parte de outros putos ranhosos, filhos de pais preconceituosos que os vão impregnar de crueldade e homofobia. Ainda assim, embora perceba este argumento, sou a favor porque acho que o bullying é saudável e porque qualquer pessoa inteligente vê que mais vale chamarem-nos maricas no recreio do que passar a vida numa instituição sem uma família que nos dê amor. Posto isto, varri algumas secções de comentários de jornais portugueses e morri um pouco por dentro. Porque não gosto de guardar as coisas más só para mim, partilho aqui convosco para, também, falecerem um pouco. De nada.


Aqui conseguimos observar alguns exemplares de uma ramificação da evolução humana que não teve a sorte e chegar a ser homo sapiens, mas sim, homofobicus otarius. Comparar homossexualidade com pedofilia não é desinformação, é mesmo atraso cognitivo. De notar que existem «likes» em alguns destes comentários, dando a entender que esta sub espécie "humana" não está, infelizmente, perto da extinção.



Neste belo quadro, podemos observar os argumentos desta espécie, altamente ponderados e eloquentes. O uso das letras maiúsculas e os erros ortográficos são uma das armas mais poderosas do homofobicus otarius. De notar a falta de conhecimento da anatomia humana do senhor Jorge que, para além de pensar que dois pipis ou duas pilinhas podem procriar, ainda acha que adoptar o filho que foi abandonado por um casal heterossexual é, de alguma forma, «usar os filhos».



Perante a falta de argumentos, muitas vezes, o homofobicus otarius prefere expressar os seus argumentos e emoções na forma de bonequinhos palermas.



O senhor Mário é um cientista incoerente. Apesar de denotar algum sentido de humor, embora nojento, decide chamar Deus, dizendo que nada acontece por acaso, sem depois se lembrar que se Deus faz tudo pensado, também terá feito gays e lésbicas propositadamente. Tal como terá permitido que a lei fosse aprovada ao invés de deitar um meteorito na Assembleia. O senhor Mário é um palhaço.



A Luzia e o David a mostrarem-nos que o mais importante neste caso é a semântica. Já agora, podiam juntar-se os dois que assim só se estragava uma casa. Mas não procriem, por favor.



A verdadeira magia acontece nas zonas de comentários anónimos, onde o homofobius otarius revela a sua faceta mais nojenta. Chamo à atenção para o senhor Fernando, que está claramente a tentar enganar as pessoas, dizendo que é gay. Até se pode dar o caso dele ter um fetiche anal mal resolvido, é um facto. Mais uma vez, o homicídio da língua portuguesa é uma constante, porque a iliteracia e o preconceito andam de mãos dadas. Duas mãos de sexos diferentes, atenção. Não queremos cá mariquices.



Sim senhor, até que enfim argumentos e propostas de solução. O senhor Felisberto a revelar a sua homossexualidade reprimida a ver se pega. «Ah e tal, vou enfiar um pénis no rabo e outro até à garganta só para provar que tenho razão!».



A democrata senhora Helena a fazer a pergunta que faz sentido, à qual eu vou tomar a liberdade de responder. Senhora Helena, estas coisas não devem ir a referendo porque, como pode ver em todos os comentários acima, ainda existe muita gente retrógrada e atrasada mental. Como tal, os direitos humanos não devem ir a referendo, correndo o risco de serem decididos pela maioria inculta, burra e desinformada.

E é isto. Espero que tenham gostado. Se forem contra pelos motivos que falei no início, até vos respeito, mas argumentem de forma inteligente. Não sejam otários. Não sejam homofobicus otarius.
 
http://porfalarnoutracoisa.sapo.pt/2015/11/homofobicus-otarius-os-melhores.html

sábado, 31 de outubro de 2015

Nigel Owens. O árbitro que tentou matar-se porque não queria ser gay


Nigel Owens. O árbitro que tentou matar-se porque não queria ser gay

Quando Nigel fala os jogadores baixam as orelhas, é um dos árbitros mais respeitadosChristoph Ena/APRUI PEDRO SILVA31/10/2015 20:00

 
Galês bateu no fundo do poço em 1996 mas recuperou, ganhou confiança e agora atinge o ponto alto da carreira com a final do Mundial. 

Quando saiu de casa às três e meia da manhã de um dia de 1996, Nigel Owens pensava que nunca mais ia ver os pais. Estava acordado há uma hora e tinha-se levantado sem fazer barulho, de forma que ninguém o impedisse. Para trás ficava um bilhete a justificar o suicídio como única solução possível. Com ele seguiam duas caixas de paracetamol, uma garrafa de whiskey e uma caçadeira carregada. O galês de Mynydd Cerrig deu uma última volta à terra que o tinha visto crescer e seguiu para as montanhas. Pouco depois, entrou em coma. 

A pressão que Nigel Owens sentia era enorme. Sofria de bulimia, estava obcecado com o peso e tinha encontrado no ginásio a solução para substituir a gordura por músculo. Para acelerar o processo, começou a tomar esteróides e ficou viciado. “Estava a entrar num caminho que não tinha saída e fiz algo de que me arrependerei para sempre”, lamenta, anos depois, num documentário exibido pela BBC. 

Nigel não morreu por pormenores. Primeiro, por ter entrado em coma antes de decidir disparar. Depois, porque foi encontrado por um helicóptero a tempo de ser levado para o hospital, onde permaneceu vários dias. 

“Tinha vergonha do que tinha feito, de ter tentado matar-me quando há gente a morrer todos os dias de doenças terminais e que dariam tudo para continuarem vivas. Mais do que tudo, senti-me envergonhado pela carta que deixara aos meus pais. Não consigo sequer imaginar o que pensaram, o que lhes passou pela cabeça quando leram que eu não conseguia aguentar mais”, conta, revelando o desespero da mãe: “Disse-me que se o fizesse outra vez, que a levasse e ao meu pai também, porque não queriam viver sem mim.” 

A reacção dos pais foi o ponto de viragem. Afinal, era também por eles que tinha chegado àquele ponto. Sendo filho único, recusava privá-los de serem avós no futuro. Por isso reprimiu o que começou a sentir com 18 anos. “Tudo aconteceu porque não queria ser gay. Andava a lutar há anos. Não havia nada de mau em ser gay, mas sentia que não me enquadrava. Tive várias namoradas, mas senti sempre que algo não estava certo. E pensava: ‘Vou obrigar-me a apaixonar--me por esta rapariga.’ Mas isso nunca aconteceu. E nunca aconteceria. A partir de dado momento, percebi que não conseguia viver mais assim”, conta, recordando a primeira vez que teve algo com um homem. “No segundo seguinte, senti-me doente, fisicamente doente, envergonhado pelo que tinha feito. Não estava a aceitar o que era e fiquei deprimido.” Daí até à tentativa de suicídio foi um pequeno passo. 

Paixão assumida 

Nigel Owens continuou sem contar que era gay e centrou atenções numa paixão que podia assumir sem rodeios: a arbitragem. A carreira começou depois de ter falhado uma penalidade decisiva no último jogo da equipa da escola, que poderia ter sido o único triunfo da época. “Queria ser o herói, mas a bola saiu junto à bandeirola. O professor veio falar comigo e disse--me que, se calhar, teria mais sucesso como árbitro. Ele estava meio a brincar, mas eu levei aquilo a sério.” 

Os primeiros passos não foram fáceis. Nigel tinha 16 anos e o pai não era um ás na condução. Por isso, para o primeiro jogo, seguiu com o autocarro da equipa do Nantgaredig. “O Tregaron perdeu 6-9 e no balneário não ficaram muito contentes.” A partir daí, por mais longe que fosse o jogo, nunca mais foi à boleia. Derek Bevan, até hoje o único árbitro galês a dirigir uma final de um Mundial (Austrália-Inglaterra em 1991), lembrou à BBC os sacrifícios que fazia: “Se fosse preciso, levantava-se às sete da manhã e apanhava um, dois, três autocarros diferentes.” 

O sucesso na arbitragem fê-lo galgar patamar atrás de patamar e em 2005 teve o primeiro jogo internacional, um Japão-Irlanda em Osaka. A vida corria bem, mas ainda ninguém sabia que era gay, ninguém sabia que fora essa a razão a precipitar a tentativa de suicídio. “Escondi durante nove anos, mas era demasiado. Não estava a conseguir ser árbitro porque não era feliz com a pessoa que era”, recordou.

Os pais foram os primeiros a saber. “Disse à minha mãe, depois ao meu pai. Dizer aquelas três palavrinhas ‘eu sou gay’ foi uma das coisas mais difíceis que alguma vez tive de fazer”, lembra. Contar ao patrão na Welsh Rugby Union foi o passo seguinte e um dos que mais preocupação geraram: “Tinha medo do que aconteceria se as pessoas nesse mundo descobrissem que era gay e as suas consequências.” Mas nada mudou. Finalmente, os amigos. “A maior parte telefonou de volta ou mandou uma mensagem, tirando um. A maior parte deles já desconfiava”, referiu o árbitro, realçando a importância do momento. “É impossível tentar descrever o que senti. Foi fantástico perceber que não fez diferença nenhuma para a família, amigos e para as pessoas no râguebi. Foi como nascer novamente.”
 
 

O último passo
 
A família sabia, os amigos sabiam, os responsáveis pela arbitragem sabiam. Só faltava o público. A revelação foi feita numa entrevista a um jornal galês, mas foi na televisão que Nigel Owens saiu do armário. Literalmente. O árbitro participava regularmente no programa de humor de Jonathan Davies e juntos tiveram a ideia de abordar o tema de forma implicitamente explícita. Owens estava escondido dentro de um armário e abriu as portas ao som da música “I am what I am”. “Não têm noção do que senti quando praticamente toda a gente se levantou e aplaudiu”, exclama o árbitro, que faz questão de se fazer acompanhar do sentido de humor apurado no râguebi. “Se o perdermos, se não tivermos a capacidade de nos rirmos de nós e dos outros, perdemos uma grande parte do jogo.”
 
A postura é uma imagem de marca e é reconhecida por adeptos e jogadores, desde as farpas ao futebol (“Se vais continuar a mergulhar, volta daqui a duas semanas”, atirou para o escocês Stuart Hogg durante um jogo no estádio do Newcastle) às brincadeiras com a sua homossexualidade. “Num jogo dos Ospreys, o Ryan Jones estava no balneário e disse-me para esperar que pudesse vestir alguma coisa. ‘Não faz diferença. De qualquer maneira, és muito feio’, respondi. Ele riu-se, eu ri-me, todos os outros jogadores se riram.”
 
A nomeação para a final do Mundial desta tarde (Nova Zelândia-Austrália às 16h00 na Sport TV5) foi o derradeiro feito na carreira que faltava a alguém que está na terceira fase final e arbitrou duas finais da Heineken Cup. “Quero agradecer aos meus amigos e família pelo apoio constante que me ajudou a ultrapassar momentos muito difíceis na minha vida. O meu pai esteve sempre ao meu lado e está felicíssimo com a notícia. É uma pena que a minha mãe não esteja cá para ver, uma vez que foi sempre um grande pilar na minha vida”, relembrou Nigel Owens.
 
A filosofia com o apito vai continuar a fazer a diferença, dentro e fora de campo: “É impossível arbitrar um jogo de 80 minutos sem fazer pelo menos um erro, mas aprendemos com eles. Ao fazer isso, melhoramos e aceitamos o facto de que não há nada de errado em cometer erros na vida.”

 
http://www.ionline.pt/419861